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Jornalista especializado na cobertura política de Brasília, onde tem atuação há duas décadas

OPINIÃO

Guerra, sabemos fazer. E combater epidemias?

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publicado em 19/03/2020 às 12h17
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No mês de dezembro de 2013 estourou no Oeste da África, a partir da Guiné, um surto virótico denominado Ebola. Até o final do surto, restaram 11.000 mortos, assustando não apenas os africanos, mas, o mundo inteiro.

Outros vírus desgraçaram a humanidade em diferentes épocas. A Gripe Espanhola, de 1918, por exemplo, causada pelo vírus Influenza, deixou um rastro macabro de 100 milhões de mortos, entre eles, o presidente brasileiro então reeleito, Rodrigues Alves.

Mas, voltemos ao Ebola, que está entre os surtos mais mortais e mais recentes, no mundo. Sobre a tragédia, cuja virulência se circunscreveu ao Oeste africano, há um interessantíssimo vídeo que reproduz comentários feitos, à época, por Bill Gates.

Em conferência, o empresário americano não apenas comentou o surto como traçou cenários futuros para crises viróticas. Aos olhos de muitos, naquele momento, ele poderia estar parecendo um histérico. No entanto, era apenas profético.

Dizia ele, com ênfase: “Se algo matar mais de 10 milhões de pessoas nas próximas décadas é mais provável que seja um vírus altamente contagioso do que uma guerra”. Numa tela, a imagem terrível de um vírus, dessas que nos têm tirado o sono nos últimos dias.

Contundente, Gates seguiu a palestra apontando causas que, na sua visão, possibilitam o fortalecimento dos vírus. “Um dos motivos disso é que investimos muito em estratégias antinucleares, mas investimos muito pouco em um sistema que detenha uma epidemia”.

Bingo! Acertou em cheio. O mundo, ao contrário do que deveria fazer, somente tem investido em guerras. Saúde, porém, muito pouco. Por isso, milhões de pessoas estão cada vez mais expostas à morte pela força descomunal de seres microscópicos.

Em seu alerta – esqueci-me de registrar, feito exatamente há cinco anos, em 2015, ano da palestra que estou a comentar -, Gates chamou a atenção para a diferença entre o ebola e outros vírus de tipos bem mais mortais, a ameaçarem a humanidade.
A contaminação do ebola acontece por contato direto com o sangue ou outros fluidos corporais ou secreções como, por exemplo, fezes, urina, saliva, leite materno e sêmen de pessoas infectadas. É mais complexa a transmissão, e, mesmo assim, matou milhares.

O vírus mais perigoso, entretanto, é aquele transmitido pelo ar, como o da gripe espanhola, que extinguiu 5% da população mundial, na época. Não é totalmente o caso do coronavírus, que já matou pessoas na casa dos milhares, e continua a fazer vítimas.

Mas, há uma característica no coronavírus que é descrita na vaticinadora palestra de Gattes.

Diferentemente do ebola, que deixa o infectado quase que imediatamente acamado, fora de circulação, o vírus perigoso é aquele que deixa o paciente “aparentemente bem no estágio contagioso, a ponto de ele conseguir ir ao mercado ou viajar de avião”, levando, consigo, o poder da transmissão. Está aí a descrição perfeita do coronavírus.

Outra diferença lembrada por Bill Gates, e que também nos remete ao coronavírus: O ebola, que acabou circunscrito ao Oeste da África, não penetrou muito fortemente em áreas urbanas. Se isso houvesse ocorrido, o número de mortes teria sido bem maior. Não é, evidentemente, o que ocorre, agora, com o coronavírus, que se espalha velozmente pelas cidades. Portanto, com poder destrutivo muito maior.
Entre as coisas que disse em sua palestra, evocando o ebola, o empresário norte-americano considerou, entre as possibilidades positivas daquele surto virótico, a chance que a humanidade tinha de se preparar para novas epidemias, que, evidentemente, não foi aproveitada.

Investir na construção de sistemas de saúde poderosos, no mundo, e, principalmente, nos países mais pobres, para enfrentar as futuras guerras contra vírus, foi a solução apresentada por Gates, em sua palestra. Exatamente do que a humanidade necessita, já.

“Não estamos preparados para o próximo vírus”, sentenciou, há cinco anos, o empresário, à semelhança de um profeta. Continuamos com o mesmo problema.