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50 anos depois

Ossada de desaparecido da ditadura é identificada

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publicado em 20/02/2018 ás 10h49
(Foto: Paula Paiva Paulo/G1)

Torturado e morto pela ditadura em 1971, as ossadas do paulista Dimas Antônio Casemiro foram identificadas neste mês, quase 50 anos depois. Os restos mortais haviam sido enviados para um laboratório na Bósnia em setembro do ano passado.

Em setembro de 1990, foi descoberta a vala clandestina de Perus, no cemitério Dom Bosco, zona Norte de São Paulo. Lá, Dimas havia sido enterrado como indigente. As ossadas foram enviadas à Bósnia pelo Grupo de Trabalho Perus (GTP-Perus), que assumiu as análises em 2014 e busca identificar 41 desaparecidos políticos.

Desde a descoberta da vala clandestina, apenas três pessoas haviam sido identificadas, duas delas logo depois do achado, em 1991. Uma delas é o irmão de Dimas, Dênis Casemiro, que também foi torturado e morto em 1971.

Segundo o coordenador científico da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Samuel Ferreira, as análises foram relativas à altura, idade, dentição e trauma por ação de projétil de arma de fogo.

“Assim, conseguimos um resultado de uma identificação extremamente complexa pelo características do material ósseo e dentário e o contexto histórico em que os remanescentes ósseos se encontravam, após 47 anos de espera pelos familiares”, disse o geneticista.

Militante morto aos 25 anos

Dimas era militante do grupo VAR-Palmares, e foi também dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), tendo sido morto aos 25 anos de idade depois de dias preso e apresentando sinais de tortura. Ele era casado com Maria Helena Zanini, com quem teve o filho Fabiano César.

Seu irmão, Dênis Casemiro, também foi sequestrado e morto pela ditadura em 1971, aos 28 anos. Os irmãos Casemiro são naturais de Votuporanga, no interior de São Paulo. Segundo um documento da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, do governo federal, antes da militância, Dimas foi corretor de seguros, vendedor de carros e tipógrafo.

Grupo de Trabalho de Perus

O Grupo de Trabalhos de Perus recebeu as amostras após as ossadas passarem por duas universidades (veja linha do tempo abaixo). O GTP começou os trabalhos após uma cooperação firmada entre as secretarias de Direitos Humanos dos governos federal e municipal, junto com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, e a Unifesp. O grupo analisa 1047 caixas com ossadas retiradas de Perus.

Em setembro de 2017, as ossadas foram enviadas para o International Commission on Mission Persons (ICMP), laboratório bósnio escolhido porque tem experiência com a análise de mais de 20 mil casos de identificação humana no conflito da ex-Iugoslávia.

Na ocasião, foram enviados fragmentos de ossos, dentes e amostras de sangue de familiares referentes a 100 indivíduos que mais se enquadram nas características dos 41 desaparecidos políticos.

Acredita-se que, além de mortos pela ditadura, também encontram-se restos de pessoas que tiveram seus corpos escondidos, como em mortes em chacinas ou por grupos de extermínio.

O grupo é composto por peritos oficiais, professores universitários e por consultores nacionais e estrangeiros. Segundo o coordenador Samuel, “compondo uma equipe multidisciplinar nas áreas de medicina legal, antropologia forense, genética forense, odontologia legal, arqueologia, biologia e história”.

Veja linha do tempo desde a descoberta da vala clandestina:

1990: Local é descoberto em 4 de setembro e Prefeitura de São Paulo exuma mais de 1000 sacos plásticos contendo as ossadas;

1990: Trabalho de identificação é iniciado no departamento de Medicina Legal da Unicamp;

1991: Duas ossadas são identificadas, uma delas é de Dênis Casemiro;

1994: Análises são interrompidas;

1998: Verifica-se a má conservação dos ossos, que ficaram armazenados em péssimo estado de conservação, empilhadas em uma sala, com carteiras escolares em cima dos sacos, além de estarem molhadas devido a uma inundação ocorrida no local;

1999: Ministério Público Federal (MPF) interveio e em setembro foi instaurado na Procuradoria da República em São Paulo o Inquérito Civil Público nº 06/99, para apurar o lento andamento dos trabalhos na identificação das ossadas;

2001: Com a intervenção do MPF, a Secretaria de Segurança Pública providenciou a transferência das ossadas da Unicamp para o Instituto Médico Legal, para prosseguimento dos trabalhos sob a responsabilidade da Universidade de São Paulo (USP);

2002: ossadas são transferidas para o cemitério do Araçá;

2005: terceira ossada é identificada;

2006: Trabalhos da USP são paralisados;

2009: Paralisação levou ao ajuizamento de ação civil pública pelo MPF em São Paulo;

2014: CAAF recebe as 1.047 caixas e análise é assumida pelo Grupo de Trabalho Perus.

2017: Mais da metade das caixas tiveram seu conteúdo limpo e analisado e amostras de ossadas são enviadas para laboratório na Bósnia.

2018: Ossada de Dimas Antônio Casemiro é identificada.

G1