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Kubitschek Pinheiro
Fotos – Leo Aversa
Guilherme Arantes, um dos maiores criadores de hits da MPB, lançou, neste mês de janeiro, seu novo trabalho “Interdimensional”, um álbum com quinze faixas inéditas para celebrar seus 50 anos de carreira, com o início de uma nova turnê nacional em março. O disco já está disponível nas plataformas digitais com versões físicas em CD e vinil.
Com esse trabalho, o artista reafirma seu lugar como um dos grandes compositores da música brasileira. Autor de clássicos, como “Meu Mundo e Nada Mais”, “Amanhã”, “Planeta Água” e “Cheia de Charme”, ele já “emplacou” dezenas de canções em trilhas de novelas e na voz de grandes intérpretes, construindo uma obra consistente que atravessa gerações e segue ganhando novos públicos, desde os anos 1970.
O álbum, com produção de Silvia Massy, foi gravado em seu novo estúdio na Espanha, apresenta um som que transita entre o progressivo, a MPB e o rock pop, com destaque para a faixa “Intergaláctica Missão” e o single “Libido da Alma”, e foge de padrões de mercado para valorizar a duração e a profundidade das canções.
O artista, que hoje reside na Bahia, faz a ponte com a Espanha, conversou com o MaisPB – uma longa conversa – em que fala da gestação do álbum “Interdimensional” e dos parceiros. Diz que compôs “Planeta Água”, para Ney Matogrosso e que deseja de fazer uma canção em parceria com Caetano Veloso, que gravou a canção dele a canção “Amanhã”, ao vivo, no show no Copacabana Palace, quando do Projeto Luz do Solo, “Totalmente Demais”, em 1985.


Capa do álbum
MaisPB – Esse disco que celebra os 50 anos de carreira é sua cara, não é?
GA – Esse disco foi muito amarrado, ele me traz de volta aquilo que eu faço de melhor – a harmonia, as letras; é um disco de muito sentimento, é amoroso e romântico, com bastante coisa pop. Eu tive mais tempo para fazer esse disco que os demais. Aliás, de maneira geral, os discos sempre foram precipitados, por exigências das gravadoras que alegavam problemas com prazos.
MaisPB – Esse tempo passou…
GA – Sim. Nesse novo disco, eu fui favorecido com um tempo maior e com mais calma, pois passei por duas cirurgias nos quadris direito e esquerdo e ainda coloquei um stent. Essa foi a primeira vez que eu fiz um disco sem previsão de terminar. Todas as músicas foram amadurecidas, na construção das letras e das melodias.
MaisPB – Nesse disco, há a canção “50 anos-luz”… – Vamos falar sobre ela?
GA – Sempre em meus discos, eu preciso ter um tema épico. Isso funcionou em vários deles, como em “Raça de Heróis”, que eu fiz para a novela “Sereno”, Sempre há um instrumental, como no meu disco de 1982. (A minha banda é meio progressiva). Então, por exemplo, esse show que vou iniciar vai se chamar “50 Anos-Luz”, que é o título da turnê.
MaisPB – A canção “Espelho” traz o Narciso no retrovisor, não é?
GA – Sim, fala do espelho como retrovisor de Narciso. Eu digo que Narciso, em meu retrovisor, é um parceiro cruel – imagina você se olhar no espelho e se ver com quatorze anos – esse mesmo espelho que o acompanha… a transformação do destino da vida. Quando você diz que é, já passou, já foi…
MaisPB – “Luar de Prata”, parece uma canção antiga, concorda?
GA – É sim. Propositalmente, seria uma música da primeira metade do Século XX, anos 30, 40, o tempo de Pixinguinha, do João de Barro – desses mestres da música. Lembra Ernesto Júlio de Nazareth, lembra também a valsa brasileira de Chiquinha Gonzaga, época dos saraus… Eu sou ligado a essa tradição, do piano brasileiro, o piano de saraus. Quando eu nasci, havia um piano na sala da minha casa.
MaisPB – Falando em piano, como você aprendeu a tocar o instrumento?
GA – Meu pai me botou para estudar com professores que eram “bossa-novistas”. Quando eu era menino, era o tempo da Bossa-Nova, que explodiu nacionalmente, uma cultura da cidade do Rio de Janeiro: os homens usavam terno, gravatas; as mulheres, tailleur. Essa é a cultura que a Bossa-Nova representou e foi dominante. Fui muito influenciado. Eu tinha seis anos quando a Bossa Nova explodiu, com “Chega de Saudade”, de João Gilberto.
MaisPB – Essa música “Libido da Alma” é uma descoberta?
GA – Para você viver com leveza, pra viver com gratidão e desfrutar o canto de pássaros, coisas simples que tornam uma pessoa feliz; mesmo diante dos problemas da vida, existe uma felicidade simples: caminhar na praia, o pôr do sol – como eu digo nesta canção – o prazer no vento vem me dizer que o mundo é um continente por ser descoberto. Por exemplo – Aí, em João Pessoa, você tem a generosidade da natureza, essa brisa, isso é o verdadeiro libido da Alma.
MaisPB – Bom ouvir essa comparação sua em relação a nossa cidade João Pessoa…
GA – Sim, nós estamos numa época em que há o comprometimento muito sério da felicidade das pessoas em função da informação, desse ruído das telas. O que nós precisamos restaurar é a paz de um picolé – isso não está em rede nenhuma. João Pessoa é uma cidade linda, tem o cheiro da promessa – isso lembra que a vida segue – todo esse ruído é uma baboseira, nossa vida ainda é pé no chão.
MaisPB – Essa canção, com Nelson Mota, é mais uma parceira, né?
GA – A canção que abre meu disco “A Vida vale a pena”, é bonita. Já tínhamos feito “Coisas do Brasil”, (aquela… “foi tão bom te conhecer”, canta o artista pelo telefone). Fizemos “Marina no Ar”, muitas trilhas, para o filme “Garotas Douradas”, o filme “Menino do Rio” tem música minha, produzido por ele. Nelsinho é um velho parceiro. Foi meu vizinho em Copacabana e estreitamos nossa amizade. Eu o adoro…
MaisPB – Ele fez a doação de todos livros sobre música…
GA – Pois é, a nossa parceria neste disco começa com a palavra desapego.
MaisPB – E a canção ‘Minúcias’?
GA – Ah! É uma canção que fala do olhar invejoso do mundo que vê, muitas vezes, a felicidade do outro sobre um prisma de crítica e reprovação. Hoje vivemos uma época em que as pessoas, através das redes sociais, olham a vida dos outros, e nem sempre desejam o melhor.
MaisPB – E essa música que fez para Gal Costa?
GA – Puro sangue, o “Libelo do Perdão”, essa música é um manifesto em prol da liberdade individual das pessoas; de elas viverem como bem quiserem e escolherem a fonte dos seus/nossos desejos. Essa canção eu a tinha feito para Gal, uma letra reflexiva sobre a liberdade e a fonte dos nossos desejos…
MaisPB – Que falta faz Gal, não é Guilherme Arantes?
GA – Ela é a maior cantora da naturalidade do canto brasileiro. Uma pessoa muito “ponta de lança”, que estava à frente [do seu tempo]. Eu tive esse privilégio de ela ter gravado uma música minha. Eu tinha feito “Eu vou buscar você pra mim” par ela, mas tem essa “Libelo do Perdão”, que eu tinha mandando para Caetano Veloso, para ele fechar a letra comigo, mas ele disse: “Guilherme, essa letra está linda”… Eu tenho esse sonho de ter uma parceria com Caetano.
MaisPB – Ele gravou “Amanhã”, no show no Copacabana Palace…
GA – Eu achei lindo.
MaisPB – A canção “Meu Mundo e Nada Mais” você fez como uma resposta ao tempo?
GA – Eu estudava no Colégio Roosevelt, a classe era só masculina e havia cinquenta jovens meio delinquentes no bairro da Liberdade. Eu sofri muito por que eu era o mais novinho da classe, eu já era romântico, gostava do filme “Romeu e Julieta” e comecei a usar o meu cabelo Chanel, um pajem feudal, totalmente andrógino – e os caras queriam fazer maldade comigo na sala de aula… Aí eu virei o cão. Eu fiz essa música com dezesseis anos.
MaisPB – E a canção “Cheia de Charme” – desejo enorme…. foi para alguém?
GA – Eu fiz para esse personagem fantástico que é a mulher, que sai pra rua cheia de charme, não foi pra ninguém, uma música para a mulher brasileira.
MaisPB – “Enredo de Romance”, parece com as coisas de Rita Lee…
GA – Isso é uma coisa de uma época dos anos 70, de que Rita Lee também era, o Fábio Jr, Fagner, Sandra de Sá, Zizi Posse, A banda Black Rio, Boca Livre, Alceu Valença, Belchior, Djavan, Geraldo Azevedo, Ednardo, somos da geração 70. Um estilo que vingou nos anos 70…
MaisPB – Falando no Boca Livre, a banda gravou a canção “Toda Felicidade” que está nesse seu disco…
GA – – Originalmente, foi feita para eles, uma encomenda do Marcus Preto, bem MPB.
MaisPB – O “Prazer de Viver” parece as coisas de Milton Nascimento…
Guilherme Arantes – Um misto também com Jobim, tem uma harmonia do samba canção, ela saiu no final do ano retrasado e acabei gravando com o arranjo do Jaques Morelenbaum, que é um arranjador muito muito bom, muito denso.
MaisPB – Você já escutou o álbum de Zeca Veloso, “Boas Novas”?
GA – Sim. É muito bom, ele é muito dotado como o pai, para música, muita delicada a música do Zeca – no Brasil temos muitos jovens artistas brilhantes. Gosto muito do Zé Ibarra, do Tim, Bernardes…
MaisPB – E o Caetano?
GA – Eles todos. Gosto de Caetano e dos filhos, Moreno tem feito boa música, o Tom e agora o Zeca com o primeiro disco, O ano passado, com muita calma, li a edição atualizada de “Verdade Tropical”, que traz um texto introdutório explicativo em que Caetano faz um memorial descritivo de quem é Caetano Veloso. Isso é impressionante. Tenho muita admiração, adoro a figura, o canto, a musicalidade, principalmente a inteligência poética, eternamente uma liderança incrível, maravilhosa. Eu o conheço há muitos anos, sou “bem na minha”, mas temos muita afinidade, somos leoninos, sou um admirador de primeiríssima hora e sempre vou manter essa admiração.
Ouça aqui
https://vm.group/interdimensional-do4-x
MaisPB
"PRÓXIMOS DIAS" - 23/01/2026