João Pessoa, 03 de outubro de 2022 | --ºC / --ºC
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Quando ele chegou do asfalto, falando uma língua diferente, cheia de palavras em inglês, trouxe umas enormes caixas de som. Quando ligou aquela barulheira, era impossível não ficar incomodado, mas não dei muita importância. Juntou gente, eu era o rei do pedaço, ali era o meu lugar, ninguém me tiraria o cetro e a coroa.
Pouco a pouco, porém, senti que o espaço que ocupava ia cada vez se estreitando mais. Havia já um rival, que ia conquistando cada vez mais jovens, e os pais já não conseguiam convencer os filhos que a tradição era mais importante que a inovação. A inovação representada por aquele forasteiro de óculos escuros, boné, bermudas e camisas coloridas, parecendo um turista a princípio, mas já naquela altura um vizinho insistente e barulhento, seduzia a garotada com seu discurso apelativo.
Eu já não encantava mais tanto meus vizinhos quanto antes, muitos foram embora e me deixaram aos cuidados de poucos que resistiram, no entanto, por não muito tempo. E se despediram em meio à barulheira, à fúria daquele som, um ruído difícil de afastar dos ouvidos e da cabeça. Vi da minha janela que a tênue linha que separava a sensualidade da vulgaridade havia se transformado num grosso e altíssimo muro que só me isolava cada vez mais. Já não via o horizonte, só o muro, que infelizmente não tinha isolamento acústico.
A cadência se foi e a poesia foi pisoteada para dar lugar a ferocidade, vulgaridade e palavrões. A devoção e os rituais foram esquecidos, profanaram os santuários, sem qualquer resquício de respeito. E com o volume cada vez mais alto, gritos ensandecidos de uma cega adoração por cada vez mais gente, uma batida de fazer o chão e as paredes da minha casa racharem, fui expulso de casa. Quase rolei morro abaixo.
No asfalto já me conheciam, claro, e me acolheram. Não eram tantos quanto existiam antigamente na minha vizinhança, mas eram reverentes. Sabendo de minha nova morada, alguns ex-vizinhos retornaram, vieram me visitar. Mas já não eram muitos. Meus anfitriões foram respeitosos, afetuosos, houve devoção e ritual. Aqui sou muito bem tratado, apesar de uns e outros tentarem me desvirtuar e me difamar. Mas não é minha casa.
Posso ter vivido muito de ilusão, mas foi lá no morro que nasci, me desenvolvi, cresci e me fiz conhecido em todo o mundo. Era lá que me sentia em casa e vivi os melhores dias da minha vida. Saudades da “alvorada, lá no morro, que beleza”. Hoje, quando olho pra lá daqui debaixo, choro, me dá tristeza, sinto um grande dissabor. Porém, como bem se sabe, embora nunca mais no morro, agonizo, mas não morro. Prazer, meu nome é Samba.
Obs: O grande jornalista, escritor, biógrafo Ruy Castro defende a tese de que o samba não nasceu no morro, mas no asfalto. Respeito Ruy, os fatos, mas nesta crônica preferi não levá-los em consideração, até porque tomei conhecimento disso anos depois deste texto ter sido escrito.
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