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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

São João

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publicado em 24/06/2022 às 08h00

O dia de São João era muito especial. Começava cedo, quando minha mãe encomendava a Chico Grosso a madeira da fogueira.

Embora eu fosse muito medroso, ainda assim guardava uns traques, para enfeitar a festa. Ás oito horas, minha mãe já quebrara o milho, e madrinha Ivanete, sentada no meio da cozinha, com minhas irmãs em volta, separava as espigas de assar e as que serviriam para a pamonha e a canjica.

A carne do cabrito, abatido no dia anterior, repousava nas panelas. O sarapatel e a buchada já estavam prontos para o almoço. Nossas roupas já estavam engomadas. Dedé, minha irmã mais velha, bordava a colcha de cama. Catita e Ana de Veizé já tinham passado lá por casa e ficariam para o almoço. Onofre estava febril, mas Maroca, já teria dado os passes de cura. Bela de Chico Grosso, havia tirado uma fornalha de panelas. Cineta de José Lourenço, saltitava de alegria:

“(…) Danei a faca no tronco da bananeira

Não gostei da brincadeira

Santo Antônio me enganou

Saí correndo lá pra beira da fogueira

Vê meu rosto na bacia, a água se derramou…”

Ah, no meu tempo de criança, era tudo assim intenso. Até os pés de pereiros estavam em final de floração, e o perfume de suas flores exalava-se ali pela caatinga, porque tudo precisava ficar perfeito no dia de São João.

Até o mandacaru, que normalmente passava despercebido ali no monturo da minha casa, abria-se, naquela época, em uma flor grandona e excitada.

Chegara a noite. A fogueira fora acesa. O fogo muito alto mas ainda não havia brasa para assar o milho e a batata-doce. Eu soltara os traques. A rodada de apadrinhamento ainda não começara. Minha mãe não deixou as minhas irmãs irem ao baile em Fazenda Nova. Papai ainda contava os causos, ali sentado na rede grande. A festa nem começara ainda, mas o colo de Dedé era tão macio e dengoso, que eu adormecia lentamente.

A música sumindo, sumindo. Eu embalançado como um anjo muito feliz:

“Olha pro céu, meu amor

Vê como ele está lindo

Olha praquele balão multicor

Como no céu vai sumindo

(…)”

@professorchicoleite

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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