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MaisPB Entrevista: a história sobre os últimos anos de vida de Belchior

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publicado em 07/05/2022 às 12h08
atualizado em 07/05/2022 às 13h33
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Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos – Divulgação

Belchior, o caminho de volta. Antônio Carlos Belchior, músico e compositor cearense, certamente foi assim que ele viveu, com seu nome completo, ao decidir que passaria os últimos anos de sua vida em exílio e fora dos palcos.

“Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior, dos jornalistas e escritores Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, é um road book da Editora Sonora, que acompanha os locais por onde o artista passou, além de um retorno providencial às raízes do cantor na sua cidade natal, Sobral, Ceará. Um livro que traz explicações do exílio do cantor.

Sim, o livro deixa claro que existem vários motivos que levaram Belchior ao exílio. Pode ser na juventude, quando o jovem Antônio Carlos se tornou um seminarista, queria ser padre e passou três anos em um mosteiro em Guaramiranga, ou até na sua própria produção musical, quando mesmo emplacando canções na voz de Elis Regina e com o intitulado “Pessoal do Ceará”, um grupo de jovens artistas cearenses, entre eles, Fagner, Ednardo e Fausto Nilo, o artista seguiu sua vida sozinha.

Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti fazem um impecável trabalho de pesquisa, datando os locais, entrevistando os moradores das cidades onde o músico pedia ajuda. “Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior” pode ser definido como uma grande avalanche que Belchior criou a partir do momento que decidiu dar um tempo e parar de fazer os shows.

As dívidas vieram, as cobranças triplicaram e sua figura acabou se tornando motivo de chacota com os programas fazendo sensacionalismo com o seu nome. “Eu sou apenas um rapaz latino-americano”, dizia ele de forma simples, e nunca se considerando alguém famoso. Essa simplicidade acabou preparando sua queda e não tinha mais volta.

No próximo dia 26 de outubro, Belchior faria 76 anos. Um dos grandes bons da música popular brasileira, que deixou um legado artístico notável. Uma pena que não sabemos valorizar nossa cultura da forma correta, preferindo menosprezar do que valorizar.

O MaisPB conversou com a jornalista e a escritora Chris Fuscaldo sobre a pesquisa, por onde andaram, entrevistas, cidades, para reencontrar o Belchior, que não existe mais. O livro traz fotos do Mosteiro da Santíssima Trindade da Ordem de São Bento, onde Belchior ficou na volta ao Brasil, imagens do pijama dele, parte das pessoas que foram entrevistadas. Mestra e doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (PUC-Rio), a autora trabalhou nos jornais Extra e O Globo, e colaborou para diversas revistas brasileiras, entre elas MTV e Rolling Stone. Hoje, colabora para a Revista da UBC, é colunista no IMMuB, produz releases para artistas e gravadoras, coordena um curso de História da Música no Music Rio Academy e atua como mediadora de debates em eventos ligados à música, entre eles o Mimo Festival e o Rio Music Market.

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Chris estreou como escritora em “Discobiografia Legionária” (Ed. LeYa), em que conta a história da Legião Urbana através de seus álbuns. Em 2018, lançou no Brasil e nos EUA o livro bilíngue “Discobiografia Mutante: Álbuns que Revolucionaram a Música Brasileira” (troféu Prêmio Profissionais da Música) e, com ele, fundou sua própria editora, a Garota FM Books (editou “Jimmy Page no Brasil”, de Leandro Souto Maior, “Renato, o Russo”, de Julliany Mucury, e “1979: O ano que ressignificou a MPB”, organizado por Célio Albuquerque).

MaisPB – O livro de vocês traz uma imagem cruel dos últimos caminhos de Belchior – muito mais, conta praticamente a vida toda do artista. Como vocês conseguiram fazer tão importante obra?

Chris Fuscaldo – A ideia surgiu quando eu li uma matéria que o Marcelo Bortoloti havia escrito sobre o exílio de Belchior, para a revista onde ele trabalhava. Ali Marcelo já trazia a voz de alguns personagens que haviam cruzado com Belchior nessa trajetória que ele trilhou. Isso foi em 2013 e, em 2015, eu encontrei com Marcelo em uma aula de doutorado. Nós dois migrando do jornalismo para o mundo da pesquisa. E já naquela aula, o professor puxou o assunto “Belchior” para fazer uma brincadeira comigo e passamos a aula falando “Viver é melhor que sonhar”. Saí conversando com Marcelo e já fora da sala descobri que aquele colega novo era o mesmo que havia escrito a matéria. Pilhei ele ali mesmo para fazer esse livro comigo.

MaisPB – A gente percebe que bem antes do isolamento, as questões financeiras, o artista já estava exilado em seu próprio país. Estou certo?

Chris Fuscaldo – Também acho que sim. Ele tinha alguma liberdade financeira, mas não estava nas trilhas das novelas da Globo, como agora tem aparecido (Pantanal e a novela anterior, Um Lugar Ao Sol, estão com canções dele que nunca estiveram em novelas, quando ele era vivo). Também não estava nos grandes festivais ou grandes palcos. Vinha há muitos anos fazendo o mesmo show, em teatros. Tinha que rodar muito para ganhar o suficiente para manter seu padrão de vida. Era cansativo e ele se sentia pouco valorizado.

MaisPB – Belchior era dono de um repertório destacado, até hoje sua produção embora pouca, vem sendo ampliado na voz dos outros. O ano passado entrevistamos Ana Cânas, que lançou um disco com a obra dele e isso mostra que a produção do artista perdura. Vamos falar sobre isso?

Chris Fuscaldo – Por muito tempo, ele ficou esquecido, com eventuais lembranças puxadas por artistas que conhecem o que é bom. Ali por 2015, Ana Carolina gravou “Coração Selvagem”. Mas eram grandes os intervalos. Ana Cañas fez um belíssimo trabalho, acho um dos shows mais bonitos da atualidade. E as gravações de Sandra Pêra também são muito bonitas, assim como os shows que a Vannick Belchior, filha dele, tem feito. Antes de ele morrer, havia também um belo show da Daíra em cartaz por aí. E eu destaco o show e o disco da Amelinha em homenagem ao conterrâneo, lindo demais e com muita intimidade, afinal, ela conheceu bem Belchior. E Emicida conseguiu levar os versos de Zé Limeira, que acabaram conhecidos como versos do Belchior, a um público que talvez não conhecesse essa obra tão grandiosa.

MaisPB – A propósito, entrevistamos também Sandra Pêra, a primeira a se manifestar nesse sentido, que nos confessou que em respeito a Elis não gravou “Como Nossos Pais” Ok, mas fez um bonito trabalho. Podemos acreditar que a obra de Belchior renasça depois da sua morte?

Chris Fuscaldo – Nascer, ela nasceu em 1974, com o primeiro disco. Só que só foram dar valor quando Elis Regina o alçou à fama. Aí, foram anos de sucesso até, nos anos 1990, sua obra ir sumindo da mídia e ficando só entre os fãs. De fato, a obra dele renasceu após sua morte. Acho uma pena, porque eu credito a esse desinteresse essa escolha de ir para um retiro.

MaisPB – Vocês andaram por muitos lugares e realizaram diversas entrevistas, poderia falar algo marcante?

Chris Fuscaldo –Tudo foi muito marcante. Passar pelos lugares onde Belchior esteve, dormir na cama onde ele dormiu (no caso, fui eu que dormi, em um chalé na pousada de San Gregorio de Polanco) foi emocionante demais. Nessa noite de Polanco, eu tive até insônia. Rs. As entrevistas com os vizinhos da última casa onde ele morou foi bonita, pois pudemos conhecer um Belchior simples, amigo, vizinho.

MaisPB – O que vocês viram ou ouviram entre Montevideo e o Brasil, que possa ter ficado fora do livro, por questões reservadas?

Chris Fuscaldo – Sempre ficam coisas de fora. Para fazer a narrativa funcionar, às vezes algumas coisas sobram por não terem tanta importância. Não lembro de nada que tenha ficado de fora por reserva…

MaisPB – Edna sua última mulher aparece como a Yoko Ono de Belchior. Isso tem sentido?

Chris Fuscaldo – A gente faz esse paralelo, porque a uma certa altura achamos que estavam pegando pesado demais no tratamento a Edna. Ela não é uma pessoa fácil, isso a gente percebe na maioria dos depoimentos sobre ela. Mas talvez ela não fosse o monstro que alguns pintaram. Entendemos que Edna fez o papel de leão da chácara do Belchior. Sabe aquela assessora de imprensa que não deixa o jornalista chegar perto do artista? Era algo parecido com isso. Sendo que todo mundo sabe que, quando isso acontece, é por escolha do artista.

MaisPB – Nas páginas deste Road Book a gente tem um retrato fiel do artista quase plástico, do cara que andava com muitos livros, desde quando largou o convento. Belchior era mesmo um homem que poderia ter feito muito mais pelo seu público?

Chris Fuscaldo – Acho que o público poderia ter feito muito mais pelo Belchior. Mais pedidos nas rádios, mais cartas para as emissoras pedindo Belchior nos programas, mais compras de discos, mais filas em shows… Certamente isso teria elevado o padrão de artista que ele acabou se tornando com o tempo.

MaisPB – Será que realmente viver é melhor que sonhar?

Chris Fuscaldo – Como boa virginiana que sou, signo de Terra, pé no chão, eu prefiro viver e experimentar do que só sonhar, planejar. Acho que Belchior, escorpiano, signo de Água, também partiu para a vida real. Não podemos dizer que ele não experimentou de tudo nessa estrada, né?

MaisPB – Como se deu o contato com as filhas de Belchior?

Chris Fuscaldo – Só não falamos com a filha do interior de SP. Mas Vannick foi um doce com a gente. E os filhos do casamento oficial, Camila e Mikael, foram muito respeitosos com o projeto e contribuíram muito, encontrando a gente duas vezes, em São Paulo, e nos contando como era a vida com o paizão que tiveram enquanto ele estava entre eles.

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