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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

O primeiro amor

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publicado em 21/03/2022 às 16h05
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Tudo que chega primeiro tem um sabor diferente. É a sensação da inexperiência. É o medo de quem nunca experimentou, mas sempre alimentou a vontade de fazê-lo. É o sentimento de insegurança, de dúvida, será que vai dar certo? Não?  Mas o maior remorso é o tempo mostrar o não ter tomado a decisão. Porque a dúvida irá permanecer e a resposta continuará a mesma. A incógnita perdura. Se fosse diferente como seria?

Uma família humilde vivia no interior do Rio Grande do Norte, na cidade Jardim do Seridó. O casal Maria da Penha e José, Pedreiro nas horas vagas fazia salgados para complementar a renda.  Tinha duas filhas: Priscila e Eduarda. No interior todos da família eram vizinhos, viviam juntos primos e primas, mantinham convivência saudável e inventavam brincadeiras como acontece com todas as crianças que lá vivem. Eduarda era motivo de piadas e chacotas dos primos, por ser feiosa e ter um cabelo ondulado Mega Hair, no comum se diz pixa-in, motivo para sofrer bullying e rotina repetitiva de violência psicológica.

Naquela época, era normal entre as crianças. Havia um primo chamado Miguel que era quem mais a chateava. Por coincidência, era o que ela mais gostava e isso a magoava e a deixava triste e desolada. Com a humilhação sofrida reprimia-se perante as outras crianças, sentindo-se inferior.  A situação financeira dos pais era precária e agravou-se com a morte do pai, havendo muito esforço de Maria da Penha para manter as despesas básicas da casa, e essa problemática cada vez mais se acentuava. Foi quando a tia Alice, madrinha de Eduarda, também passando pela mesma carência, resolveu tentar a vida no Rio de janeiro, pois, no seu imaginário, contando com sua coragem e determinação poderia mudar de vida e de situação. Esta postura foi seguida por muitas pessoas e famílias pobres do Nordeste. Vislumbravam um futuro promissor e mantinham essa ilusão. E assim o fez, viajou carregando sua afilhada, que na época tinha treze anos. Com o passar do tempo Eduarda cursou o antigo primário e aos 17 anos casou, constituiu família, teve dois filhos, José e Marilia.

No desenvolver da vida Eduarda foi morar em barraco numa zona perigosa e violenta. Mesmo com dificuldade procurou educar os filhos encaminhando-os para a escola. A filha, com quinze anos, alimentava o sonho de ser médica ou enfermeira, pois dizia que tinha muita vontade de ajudar as pessoas e via nessas profissões essa oportunidade. Um dia, pela manhã, quando voltava do Colégio com o seu irmão estava acontecendo uma operação caça traficantes na favela, nessa zona do Rio, quando Marilia foi atingida no peito por uma bala perdida, resultante do tiroteio no confronto entre policiais e traficantes.

Marilia caiu e ficou agonizando, enquanto o irmão correu para casa para chamar a mãe pois estavam bem próximos de sua morada. Sua mãe e vizinhos procuraram ajudar levando-a para um hospital, mas lá foi constatado que chegou sem vida. Para Eduarda, o mundo desabou e sua vida desmoronou. Ela fala: “até hoje eu não a esqueço um só momento. Curtia o sonho de vê-la formada como sempre dizia, quando estava conosco. Com a morte de minha filha entrei em profunda depressão. Perdi a razão do meu viver. O meu esposo, para afogar a tristeza começou desbragadamente a beber, passava dias desaparecido da casa e do trabalho. O que ficou complicado. Era serviçal em uma empresa e diante da situação e da irresponsabilidade, foi demitido, ficando desempregado”. Este momento para Eduarda não foi fácil, muito sofrimento, necessidades. Faltava-lhe tudo em casa. O básico para comer e manter os pagamentos das despesas, luz e água. Alguma coisa que conseguia era com a tia, que mesmo assim também não tinha recursos suficientes para ajudá-la, foi quando entrou em contato com os familiares da Paraíba, que enviaram dinheiro e palavras de ordem para que viesse, pois aqui era o seu lugar.

Veio para a Paraíba trazendo seu filho sendo abrigados em casa dos pais que tinham posses para sustentá-los. Os pais idosos viram na sua vinda uma companhia, recebendo-os com alegria. Na convivência familiar, Eduarda sentia-se bem e o filho entrosado com os parentes retomando os estudos. Depois de algum tempo, durante o carnaval, foram à casa de um parente na Praia Formosa que estava reunindo a família para festejar o seu aniversário. Eduarda compareceu com seus pais. Era a primeira vez que saia para se distrair. Chegando na festa todos a cumprimentaram. Alguns  foram surpreendidos pois não sabiam que Eduarda estava entre eles.

Há 20 anos que se encontrava ausente. Muita coisa havia mudado. Seus parentes crianças eram hoje rapazes e moças, cada um com seu destino. Na ocasião, avistou Miguel, que se tornou homem bonito, chamando sua atenção. Ele a olhou também espantado, “como está bonita! Diferente daquela menina feia e franzina.” Os olhos dos dois cruzaram-se e os corações aceleraram, comunicando a química do amor, a ocitocina que é conhecida como hormônio do amor, que reforça o sentimento de carinho, de doação ao outro etc. Miguel ficou aqui na Paraíba e enveredou no comércio, tornando-se empresário dono de supermercado e está muito bem sucedido. Não casou, namorou muito, paquerou e como disse ele: “não encontrei nenhuma mulher a quem me sentisse atraído.  Mantinha as lembranças da menina feinha que lhe chamava a atenção, mas que a guardava no fundo do coração. Acrescentou: Acho que eu estava reservado para Eduarda.” A partir desse encontro outros se sucederam sobre o olhar atento do pai, que era conservador, mesmo com Eduarda tendo sido casada e com filho não admitia certas liberdades. Até que chega o dia de Miguel comunicar-se com ele mostrando e declarando suas intenções. Na conversa, o pai esboçou os princípios que deveriam ser seguidos. Depois de alguns meses a casa que estava construindo ficou pronta e o casamento aconteceu.

Conheci o casal em uma aula de hidroginástica. Deu-me a impressão de serem felizes e muito unidos. Eduarda acalentava um sonho de estudar e ter uma profissão em que pudesse ajudar as pessoas. Como era o de sua filha. Sentia um prazer imenso em se doar e prestar serviços em prol dos outros. Disse-me: “fazendo assim, penso que estou trazendo de volta os ideais traçados por Marilia enquanto viva”. Eduarda com o casamento teve oportunidade de voltar a estudar e encontrou apoio em Miguel que assumiu a paternidade de seu filho, como disse-me: “professora, eu me dediquei ao comércio, tenho só o básico para desenrolar, mas hoje eu quero que Eduarda evolua, tanto que procurei realizar o seu sonho de exercer uma profissão na área de saúde. Paguei o Curso de Enfermagem e continuo pagando.

O mês passado ela foi fazer um Curso de Especialização em feridas, em São Paulo. Hoje é especialista em feridas e curativos. Quero que cresça. Percebo que está feliz e a sua felicidade é a minha.” Conversando com os dois, cheguei a emocionar-me. Constatei naquele depoimento o sentido do verdadeiro amor que um nutria pelo outro. Eduarda atua como voluntária em programas de instituições beneficentes. Expressa: “Agindo assim, eu vejo minha filha através de mim. Sinto-me realizada como pessoa e profissional. Cada paciente em que faço o curativo, que ajudo e cuido, eu vejo minha filha. Dedico-me com o maior amor. Agradeço a Deus a oportunidade desse encontro com o meu primeiro e único amor de minha vida, Miguel. Se não fosse isso não poderia estar falando assim.” Ambos têm muita história para contar. A de Eduarda, muito sofrida, no momento é a de superação. Do lado de Miguel, sua labuta para vencer na vida, no que foi bem sucedido, logrou êxito.  Hoje, vivem bem tendo sua vida confortável. O amor prevaleceu!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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