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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

De peito lavado

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publicado em 20/11/2021 às 08h44
atualizado em 20/11/2021 às 06h06
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Eu já ia longe, quando escutei alguém gritar: “Seu Vicente”, exatamente como se fazia e se faz no sertão. Gritar o nome de pessoa em alto som nas calçadas.

Eu não me chamo Vicente. O único Vicente que conheço que caminha na praia todos os dias, é amigo de Marcos Pires, mas a gente não o chama de Seu Vicente.

Ouvi novamente e dessa vez assim: “Vicente Pinheiro” e a voz veio de um fio que parecia ter rasgado a garganta. Ué, alguém estava chamando a mim, pelo nome de meu pai? Ou eu estava doido, ouvindo vozes?

Eis a história contada, que deixou meu coração fogareiro. Olhei para trás e uma mão acenava, era Neto Domiciano,  (o amor de Nadma) um amigo de infância, que mora aqui em João Pessoa.

Acenei e segui caminhando, onde resplandecia a espuma  de um mar imenso, sob o tom vermelho do sol, eu e minha sombra e mais ninguém.

Numa sublime simetria, sob a luz que me conduz, a luz de uma flor inversa, pelo mais antigo aroma do mundo, ouvir alguém chamar o nome de meu pai tão cedo, foi como se ele estivesse ali, atravessando comigo a raiz da qual nascemos, ele no Brejo do Cruz e eu no Sertão.

Eu não sei inventar um cais, não tenho um navio, talvez o amor tardio e a vontade de ser feliz de novo. Em mim, não morre o sonhador.

Meu pai cuidava de mim, com o mesmo esmero que alguém cuidou dele, como se bebesse um copo de leite fresco ou ele, só ele, no Sertão, o leitor assíduo do infinito Gibran, que terminou dando nome a muitos garotos, o seu antenome, Kahlil. (1883 – 1931)

O fato do rapaz gritar seu nome, acho que duas vezes, Vicente Pinheiro, refez sem querer os laços mais profundos e a ideia de quem somos, ainda somos, e por que somos?

Eu não queria escrever sobre essa cena, mas meu pai era um artista, um homem que era guarda-fios dos Correios, pescava, consertava fiações elétricas e canos de plásticos, esses que fazem a água chegar até nossas casas.

Sabia dançar silenciosamente. Era um homem bonito, um mulato de olhos azuis.

Anos depois ainda o procuro, releio suas cartas, suas fotografias, a felicidade de ter ficado o tempo preciso ao seu lado, minhas gargalhadas, suas risadas, meu delírio, seu delírio, Seu Vicente, seu amor e compaixão.

Voltei para casa sonhando, como quem lavra uma oração ou de peito lavado, por mais um dia na vida, ter sido chamado atenção, pelo grito no ar, o seu nome. O nome do pai, em nome do pai, do filho e do espírito santo. E no amém, também.

Brilhar, acontecer, sobreviver, sonhar e ainda comer o pão de cada dia. Obrigado meu pai, por ter me feito no raso gozo de segundos, de 1959.

Kapetadas

1 – Para quem quiser ver completo esse texto, basta perguntar no sertão, quem foi Seu Vicente Pinheiro?

1 – Mudando de assunto, ser mulher é ter que provar em dobro que é capaz de fazer o que o homem sequer precisa provar que faz.

2 – Som na caixa: “Prepare o seu coração, Pras coisas que eu vou contar”, Geraldo Vandré

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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