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Paulo Freire, cem anos além

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publicado em 19/09/2021 às 17h15
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Há exatos cem anos, nascia no Recife, Pernambuco, um dos mais influentes pensadores brasileiros: Paulo Reglus Neves Freire.

Mundialmente conhecido, Paulo Freire, nordestino, o mais importante e revolucionário educador brasileiro, viveu a maior parte da sua vida e criou seus métodos e conceitos pedagógicos em uma realidade sem computador em larga escala, internet, jogos online ou redes sociais.

Paulo precisava apenas de quadro negro e do giz.

Patrono da Educação Brasileira, ganhou notoriedade nacional e internacional nos anos 1960, ao alfabetizar 300 cortadores de cana em 45 dias na cidade de Angicos (RN) a partir do conhecimento da realidade desses trabalhadores. A educação libertadora que sempre defendeu, porém, o levou ao exílio em 1964, durante a ditadura militar. Foi no Chile que escreveu “Pedagogia do Oprimido”, seu principal livro, traduzido para 20 idiomas.

“Nunca tivemos tanta chance de aprender juntos como agora”, avalia Jose Moran, pesquisador e professor de comunicação da USP, que enxerga na colaboração, na troca, na convivência virtual e no compartilhamento de saberes um dos princípios mais importantes de Paulo Freire, o de aprender junto. “Educador e educando aprendem em comunhão” é uma frase que resume a concepção freireana para a prática do aprendizado.

Ao rejeitar o que chamou de educação bancária, na qual o professor apenas transmitia conhecimentos aos alunos, o pensador valorizou a cultura e o conhecimento prévios dos estudantes e a ideia que se aprende na troca, seja entre professores e alunos, seja com outros professores, seja entre alunos, tijolo por tijolo

“A educação está na vida, no nosso cotidiano e na nossa formação como um todo. Não acontece só na escola, mas em qualquer ambiente”, explica a professora doutora da Unicamp Debora Cristina Jeffrey.

É possível pensar em projetos, mas não em projetos que vêm de cima para baixo. São projetos estabelecidos a partir de temas geradores. É preciso ouvir alunos, debater e fazer discussões que tragam sentido ou que sejam decididas em assembleias

Segundo ela, o mais importante para Paulo Freire é pensar a educação para a transformação humana e a autonomia do sujeito, o que ainda segundo a concepção do pernambucano se dá quando as pessoas se conscientizam de suas condições sociais, culturais, econômicas e políticas.

Dentro dessa visão humanista, para Moran, que pesquisa inovação em educação, é plenamente válido trabalhar os conceitos de Paulo Freire para entender uma educação mais conectada, que se utiliza de tecnologias móveis. O professor explica que a educação é um processo profundo de intercâmbio entre pessoas, que a tecnologia facilita e resolve uma parte dele sem que necessariamente educadores e educandos estejam presencialmente juntos.

Alguns projetos atuais de alfabetização de adultos têm utilizado como recurso o celular, por exemplo. Estimular relatos por email, ferramentas de bate-papo e redes sociais também são formas contemporâneas de usar o conhecimento que o aluno já tem. “É possível usar a tecnologia para conscientização, pesquisa, trocas culturais, que são necessárias para aprendizagem. Mas não adianta instrumentalizar o aluno; ele precisa ter consciência do porquê e como vai utilizar os instrumentos para sua vida”, diz Débora.

Moran vai ainda mais longe e acredita que o processo de personalização, realizado por plataformas educativas que permitem que cada um possa fazer seu percurso, em qualquer lugar, desde que esteja conectado, é uma nova forma de educar para a autonomia. “Os princípios (de Paulo Freire) valem, mas a forma de atualizá-los se alternam, na medida que há outras possibilidades. O acesso ao conteúdo, materiais e informações básicas ocorre sem o professor. A personalização é a possibilidade que temos hoje de alguém estar mais atento às minhas necessidades de conhecimento, mesmo dentro do grande grupo”, explica.

O homem, em sua formação, não é dividido, ele é integral, o conhecimento que vem de fora da escola é integral. Só se fragmenta na sala de aula

Já a professora da Unicamp pondera que a ideia de que o aluno aprende por si só e que o professor é apenas um mediador, presente em concepções pedagógicas posteriores, não está presente nas teorias de Paulo Freire. Para o educador, as pessoas não aprendem sozinhas e o professor tem uma autoridade a exercer. “O foco principal é o coletivo, as experiências, a vivência, a cultura, o entendimento da condição do ser humano em uma sociedade desigual e a superação dessa condição”.

Nesse contexto, a roda de conversa, o estudo do meio e a educação por projetos, práticas usadas em escolas inovadoras, são ações educativas que visam essa troca de olhares, de perspectivas e saberes. “É possível pensar em projetos, mas não em projetos que vêm de cima para baixo. São projetos estabelecidos a partir de temas geradores. É preciso ouvir alunos, debater e fazer discussões que tragam sentido ou que sejam decididas em assembleias”, explica.

Segundo a professora e pesquisadora de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e organizadora do livro Memorial Paulo Freire: Diálogo com a Educação (Expressão e Arte), Noêmia de Carvalho Garrido,  os projetos devem estar ligados à comunidade, trazer a história de vida dos educandos, para então trabalhar a sistematização dos conteúdos que a escola exige.  “O homem, em sua formação, não é dividido, ele é integral, o conhecimento que vem de fora da escola é integral. Só se fragmenta na sala de aula”, diz.

Neste ponto, ainda está o principal desafio para levar Paulo Freire para a escola, principalmente a pública, na opinião de Débora. “Para trabalhar na perspectiva de Freire, é preciso atuar de modo interdisciplinar.  Os temas têm que conversar entre eles, a partir de um eixo norteador”. Dentro dos ensinamentos de Freire, esse tema vai ser levantado a partir das necessidades e interesses dos educandos, ou até mesmo da troca de educador e educandos.

Não se pode segmentar conteúdos em disciplinas e dividir o dia dos alunos por matérias. Por exemplo, as manifestações de junho de 2013 podem se tornar um tema gerador para várias disciplinas. É possível discutir como esses movimentos surgiram, em matemática se estuda os indicadores sociais, em história, relembra passagens como a oposição à ditadura militar ou as caras pintadas, em geografia procura entender como as redes sociais interferem nas manifestações.

Uma das novidades da sua proposta era a utilização de palavras comuns ao cotidiano dos trabalhadores como ponto de partida para a alfabetização – por exemplo, “tijolo”.

O professor Adelino Francisco de Oliveira conta que ouviu falar em Freire pela primeira vez ao testemunhar essa construção na prática, anos depois.

“Eu era menino, morava na entrada do Grajaú, na periferia de São Paulo, e acompanhava minha irmã Márcia, que dava aulas de alfabetização para adultos à noite, em uma ação coordenada pelo Paulo Freire como secretário municipal de educação”, lembra Oliveira.

Freire exerceu o cargo na gestão de Luiza Erundina (então no PT, hoje no PSOL) na Prefeitura de São Paulo (1989-1992).

“Uma das primeiras coisas que me impactou foi o conceito de palavra geradora. Lembro como se fosse hoje: minha irmã escrevendo na lousa a palavra ‘trabalho’, e a partir dela dialogando sobre o seu sentido”, relata.

“Eu me recordo de uma senhora falando que trabalho, para ela, significava sofrimento. Então, as pessoas debatiam, contavam suas experiências, e ao mesmo tempo aprendiam a ler e escrever a realidade.”

Paulo Freire tem e terá  sempre esse poder exacerbado de criação, da formação inicial a realização de cada aluno, seja o operário ou a dona de casa, o virtuoso, o jovem aprendiz.

Formação e amadurecimento

Paulo Freire viveu com a família no Recife até os dez anos. O pai, Joaquim Temístocles Freire, era capitão da Polícia Militar. A mãe, Edeltrudes Neves Freire, fazia trabalhos domésticos, bordava e tocava piano.

Embora fizessem parte da classe média, os Freire chegaram a passar fome em meio à crise do final da década de 1920. Paulo só conseguiu estudar, porque os irmãos Stela e Temístocles ajudaram desde cedo com as despesas da casa.

Em 1931, a família se mudou para o município vizinho, Jaboatão dos Guararapes (PE).

Paulo cursou o ginásio no Colégio 14 de Julho, no centro do Recife. Depois de perder o pai, aos 13 anos, mudou para o Colégio Oswaldo Cruz. Em troca da gratuidade na matrícula, trabalhou como auxiliar de disciplina.

Aos 22, ele ingressou na Faculdade de Direito do Recife (FDR), que hoje faz parte da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Durante e após a graduação, Freire foi professor de Língua Portuguesa no Oswaldo Cruz. Com o diploma em mãos, também passou a dar aulas de Filosofia na Escola de Belas Artes da UFPE.

Em 1944, casou-se com a funcionária pública Elza Maia Costa de Oliveira, que também se formou em direito e dedicou a vida à pedagogia. Ela foi uma das pioneiras em arte-educação no Brasil e faleceu em 1986.

Kubitschek Pinheiro MaisPB com texto de Tatiana Klix e pesquisas

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