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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

De Uiraúna a Sousa, a peleja

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publicado em 06/08/2021 às 07h38
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Tínhamos deixado a zona rural de Uiraúna e chegamos a Sousa, eu e Flaviana, em um sábado, 6 de setembro de 1979. Chegamos cedo, por volta das onze horas da manhã. A casa era de uma simplicidade estonteante, mas o sonho, do tamanho de um horizonte aberto e resplandecente como rabo de pavão. Uma sala, dois pequenos quartos e a cozinha. O muro dava para o Rio do Peixe, que, ao nos ver tão vulneráveis, preparou sua baforada d’água barrenta com a promessa de que iria nos lamber e nos engolir em cada enxurrada desaforada.

Prometeu e tentou por várias vezes, mas não cumpriu o prometido, afinal, éramos filhos de Pedro Leite, o protegido de Santa Luzia. Não seria o Rio do Peixe e sua bocarra ameaçadora que iriam nos afugentar do único lugar que nos cabia no momento em que plantávamos o nosso futuro.

Demais disso, se nossa mãe não tinha mais vista para enxergar o mundo, ela, lá de longe, do Sítio Saco Senhorinha, onde ficara com papai e minhas outras duas irmãs, fazia orações fortíssimas, que amarravam, com nós cegos, os cabelos das águas daquele riachão, que se debatia esbaforido na entrada da porta da nova casa e de lá não passava, encalacrado pelo poder da inocência.
Éramos dois jovens. Eu, com dezoitos anos; Flaviana, com vinte e um. Para quem deixava a zona rural de uma cidade do tamanho de um grão de areia ou menor do que a semente de mostarda, Sousa era uma metrópole, o palco da nossa nova morada, no bairro da Estação, em uma ruela de quatro casas muito simples, por trás da rua que concentrava muitos cabarés, que, posteriormente, frequentei muitas vezes, aplicando injeções nas moradoras do lugar.

A camionete que nos levou até a cidade de Sousa não veio tão pesada. Não tínhamos quase nada. De valor, a velha máquina de costura, da marca Singer, pertencente a Flaviana. Uma mesa pequena, quatro cadeiras, uma cristaleira ou um armário, não lembro, uma única mala com nossas roupas, pouquíssimos utensílios de cozinha, um saco grande de feijão e uns cinco quilos de arroz. Duas redes de dormir. Pronto! Estávamos instalados e preparados para a aventura.

Sousa, a cidade sorriso, alto sertão da Paraíba. Para justificar a alcunha de cidade que rir das suas alegrias e intempéries, deu-nos, à nossa chegada, uma gargalhada agridoce, ofertando esperança e dentes afiados em nossa direção. Mas, foi-nos simpática e muito útil por sete anos, quando de lá nos despachamos para outras peripécias da vida, novas necessidades ressignificadas em outro nível.

Estávamos instalados, enfim. Antenor Árabe, o motorista, zarpou de volta à terra seca que deixávamos com saudade. Nós dois ficamos ali, no meio da sala, os cacarecos ainda sendo distribuídos pelos vãos da casa; nossos ideais em alentado estágio de embriaguez. Os nossos sonhos não tinham a data certeira das coisas concretas, apenas a miragem abstrata que tomara as formas verbais “estudar e trabalhar”.

Olhamos um para o outro. Era verdade! Nós estávamos em Sousa, a terra dos dinossauros, que, naquele tempo, ainda estavam escondidos debaixo da terra, por falta de descobrimento. Nada importava naquele momento. Sousa arreganhara todas as suas portas, e nós entramos com mala e cuia (foto). Que fosse assim!

E foi, mas, para os meus estudos, dado o avançar dos meses, o ano todo foi perdido. Sem problema algum. Como se dizia lá em nossa terra, o que era bom estava guardado. Pelo contrário, Flaviana começaria a trabalhar na fábrica de costura em quinze dias, e, para isso, já obtivera a palavra de Yolanda, uma velha conhecida que, há tempo, morava na cidade e que já cuidara, junto ao gerente da fábrica de costura, de uma promessa de emprego. Como a vida das pessoas simples é solidária…

O outro dia foi um domingo nublado, de sol preguiçoso. Data cívica. 7 de setembro e seus desfiles. Depois do almoço, baião de dois e ovos estrelados, fui conhecer a cidade, ver o desfile. Pelos locais que passava, marcava em minha mente a rua cruzada, para não esquecer o caminho da volta. Todo matuto é desconfiado e muito cauteloso. Eu poderia me perder, afinal, a coisa mais sem compostura que poderia acontecer ao sertanejo era, por necessidade, fugir da terra de sua nascença, e eu, por esse motivo e sonho, fugira…

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Essa crônica inaugura uma nova fase: a da nossa estada na cidade de Sousa. Para conhecer a fase anterior, leia nosso livro “Os longos olhos da espera”, disponível na Amazon ou diretamente com o autor. Siga-nos no instagram: @professorchicoleite

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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