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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

Soluços para que te quero

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publicado em 16/07/2021 às 07h42
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Soluços, quem não os tem? Até o presidente da República! Soluços no presidente da República é coisa fora de propósitos, não pelo soluço em si, essa contração involuntária do diafragma, já vivida por todos, mas pelo que pode sair de dentro dele, algum comando mais ressentido e virulento, principalmente nesses dias em que o país parece uma urupemba vazando água e outros resíduos nefastos por todos os lados.

Temos sorte. Poderia ser algo bem pior do que soluços, alguma coisa fedorenta e de ruído característico, mas, como estamos em um tempo das narrativas mais estapafúrdias, todos sabemos que os países não soltam pum, mormente o Brasil, uma republiqueta de instituições saudáveis e ungidas pelo Senhor, pátria amada Brasiiiil.

O soluço presidencial talvez seja apenas o refluxo de um dos pequenos buracos institucionais que o país esteja buscando tapar em suas últimas preleções em busca da felicidade total, coisa que certamente acontecerá, quando tivermos, no STF, esse empecilho de uma figa filho, alguém terrivelmente evangélico, se o Senado Federal, esse lambe-botas, deixar.

Ser presidente é coisa séria e, quando o corpo que carrega a instituição está avariado, dado o excesso de motociatas, trabalho árduo e discursos laborados em escorreita linguagem, na medida certa exigida pelo ritual da função, ele apita por todos os poros, como se fosse um pedido de socorro, principalmente se o que sai de dentro da presidência é o mais puro desejo de proteção dos vulneráveis, das mulheres, dos pretos, indígenas e da turma LGBT+, uma gente trabalhosa e cheia de direitos.

Essa contradição entre o corpo que fala e a fala que se corporifica na expressão presidencial provoca uma hecatombe, o bater de placas tectônicas, forçando o diafragma do poder em direção ao cérebro, soluço na certa, afinal, as contradições existem para expor seus portadores a algum tipo de desconforto. Ou elas, as contradições, ou os anéis. Ficam os dedos ou o soluço.
Soluço é bem melhor do que impeachment, todos sabem isso, ou de outras reprimendas mais certeiras, mas isso é para quem não soluça. O soluço é libertador, uma liberdade intermitente, manca, pulsar anárquico das coisas desorganizadas, subproduto da fé profunda que vai de encontro a um povo idiota que pugna por democracia e vacinas.

Dizem que não há remédio para soluços. Um susto grande, comer um torrão de açúcar, fio molhado de cuspe na testa, oração do padre-nosso em meio a alguma entrevista. Nada. Nem a ciência cura. Também pudera! Essa coisa fora de moda, fabricada nas universidades públicas lotadas de maconheiros…

Acho um absurdo a falta de empatia desse povo que brinca com a saúde de uma pessoa e não é isto que se faz aqui, mas tenho que admitir: contra soluços e outros medos presidenciais, beber água em copo virado é a santa solução. Está aí uma receita que eu não sabia!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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