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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

A geometria do prazer

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publicado em 01/06/2021 às 07h24
atualizado em 01/06/2021 às 10h50
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Tive e tenho alguma coisa de cavaleiro andante, desde a infância. Quando morava no Sertão (Jatobá), adorava ir aos bairros de Santo Antônio e São Sebastião, (este, para olhar sua Capela) e, por ali, tinha uma estrada que nos levava para o Sitio Galante de Antônio Faustino. Antes, passávamos pelo “Soinho”, se não estou enganado. Tempos das moagens.

Eu gostava também de ir ao bairro Alto da Boa Vista, onde moravam os negros. Esse era o caminho que levava os mortos para o cemitério. Eu gostava de acompanhar os enterros e só depois fui entender porquê, lendo o poema “Momento num café”, do livro “Estrela da manhã”, de Manuel Bandeira e o livro “Meu Último Suspiro”, de Luis Buñuel. Leiam.
Dona Maria Eulália, mãe de Vandinha Neves, rezava o terço e o Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo tem piedade de nós, sempre em voz alta, que dava para ouvir lá da Barraginha, – de Jatobá.

Antes de tomar o rumo do texto de hoje, antes de querer transformar o mundo e a vida e pôr a minha arte ao serviço disso, lembrei de uma paixão do risco pelo risco. Era uma moça linda de cabelos loiros, a mãe velha dela a chamava de Breja. Tomávamos banhos no açude sangrando e eu pensava como Gonzaguinha, desvirginar a madrugada. Eu não era nada.
Eu penso que sou um homem cordial. Sou um homem de aventuras, do ato afoito e atrevido. Beijei a boca de uma moça, Auxiliadora Gomes, e sai correndo até hoje com medo do noivo. Muita coisa ficou para trás.

Tempo, tempo, tempo. O tempo é mesmo o grande inimigo. Corrompe os sentimentos, afasta as pessoas, degrada-os, especialmente o amor. No mundo perdi tantos amores… Culpa do liseu. Isso mesmo, um homem sem dinheiro, é quase nada. Até que eu me casei com uma menina bonita, de olhos verdes e cabelos encaracolados.

Tempo, tempo, tempo. O tempo faz apodrecer tudo, inclusive o amor. É triste. Mas o tempo também traz outros verões: amigos, sabedoria, um conhecimento a mais, cada vez mais aprofundado naquilo que chamamos de humano.

Se eu pudesse plantaria o trigo para comer o pão de cada dia, mas não sou Milton Nascimento, muito embora o virtuosismo da narração e da linguagem, me perseguem.
Estamos sempre morrendo. Ultimamente esquecemos até de quem morreu ontem, quando tal pessoa era conhecida ou amiga, vítima da Covid. Há uma revolta contra esse mal que não vai terminar bem.

Na adolescência, quando a existência parece prometer-nos tudo, isso não aconteceu comigo, porque já nasci velho.
O escritor Albert Camus (foto) dá muito bem isso na obra dele; esse sentimento de que a vida nos promete tudo e o que nos dá realmente é a condenação à morte. Peço desculpas, não a Camus, que é o Estrangeiro.

Todos os dias quando saio para pedalar, namoro com duas casas, (na beira mar do Cabo Branco), uma de tijolinho e outra que tem uns indiscretos cobongois que deixam o sol entrar na minúscula varanda. Às vezes eu traio a primeira, com a segunda, numa sequencia geográfica, é claro.
Pois bem, meus pés ainda pisam a geometria do prazer.

Kapetadas
1 – Estamos na idade da pátria lascada, é? Deu a bexiga!
2 – Lembrando que hoje não é o último dia pra se declarar. Foi ontem.
3 – Som na caixa: “Aquela esperança de tudo se ajeitar/ Pode esquecer”, Chico B

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB