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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Antônio no andar de cima

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publicado em 01/06/2021 às 07h00
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A vida é próspera para uns. Pouco complacente para outros. É claro que depende muito de onde fui nascer. Em que meio. Família. Comunidade. Tem também todas as adversidades. Com quem vivi. Quem amei. Com quem morei. Enfim, o que eu fiz da vida.
Uns trazem nomes. Sobrenomes, principalmente. Garantia de sucesso. 50%, pelo menos. Porque também há minha parte nessa. Sem sobrenome, já venho com obstáculos bem maiores a suplantar. Muitas incompreensões, discriminações. Um Modo off.
Jacaré era meu conterrâneo. Lembro muito dele molecote de rua. No salgadinho, onde se instituiu uma ação social através do CEMIC, serviço voluntariado, que atuava naquela comunidade, patrocinado pela Unicef
Voltei a vê-lo, quando meu filho, Matheus, começou a torcer pelo Botafogo e a acompanhar alguns jogos do Belo. Eu, nacionalino raiz, fui, aos poucos, também torcendo, porque me sentia mais seguro, acompanhando-o ao Almeidão. Como sempre, aonde vou, fui vendo os personagens que apareciam. Um sargento , com carro espalhafatoso, e roupa de Xerife. A vó do Belo. Mica do rádio.
Caroço de Pinha era o outro. Um novo nome para o mesmo homem: preto. pobre e sozinho. Mudara de nome. Como se houvesse uma invisibilidade, uma anomia substituída por apelidos, ao sabor da hora e do lugar. Para as torcidas jovens, pelo preto puro da sua cor, ficou Caroço de Pinha. Não gostava do nome. Incomodava-me. Pois o tinha como alguém conhecido, por conhecer lances de sua história, embora sem uma aproximação real consigo
Quando o via, o sentimento que me vinha, era seu desamparo; e de quanto tempo viveria, com a dependência de álcool que carregava. Seu jeito maltrapilho, traduzia uma solidão crônica; de onde, possivelmente, viera o caminho da embriagues.
Sem ele em campo, era como se faltasse o 12º jogador. Metade do estádio ficasse vazia. Fora dali, anomia e invisibilidade. Não se via família. Não tinha idade. De onde veio. Nem para onde ia. Foi preciso falecer para eu descobrir seu nome: Antônio Joaquim de Sousa. 63 anos. Patoense de origem como eu. Tudo que a vida lhe tirou, transformou em momentos de emoção junto ao seu Botafogo.
Vejam. Somente depois que a Covid o encontrou. Depois que a insana morte, que tanto nos tem rondado, veio buscá-lo, falou-se seu verdadeiro nome. Antônio, enfim, nasceu. Procurei mais, não encontrei. Para a distinta plateia, Antônio foi adereço, personagem folclórico, como o descreveram.
Prazer, Antônio Joaquim de Sousa, você foi mais que as aparições que fazia em campos de futebol. Você foi um brasileiro com poucas coisas, mas um símbolo de alegria, e um ser humano pacato. Ademais, um conterrâneo. Siga seu destino eterno, Antônio, que no andar de cima, todos voam como pássaros, e flutuam sobre as iniquidades, que nos dominam a todos, aqui no andar de baixo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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