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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Caligrafia das vertigens

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publicado em 15/05/2021 às 08h27
atualizado em 16/05/2021 às 08h44
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Um leitor, Seu Francisco, que mora no Planalto Central, mandou um imêio, comentando um texto meu e disse que o pior da solidão não é a falta do outro, mas o excesso de nós. Faz sentido. Isso porque ele não viu meu outro retrato.

Porventura ou aventuras mil, a vida não é um romance, nem de longe. Assistir ao limite da solidão, da sobrevivência em fim de linha, as geladeiras vazias, é um visual nada astral. Cantar uma canção, já é um pouco de saúde. “A fome tem que ter raiva pra interromper”, saudades de Aldir Blanc.

Os limites do humano, mesmo que a pose fale mais alto ou mande esquecer que se só há baratas por aí ou se continua a beber chá às cinco, não pode ser tão simples assim. Já faz tempo que muitos se mandaram sem perguntar onde ficava a estrada.

As cidades agora me parecem literariamente imaginárias, sem os narradores das quedas. De longe, lembram povoados, estão repletas de corações partidos. Eram tão lindas.

Voltava de um braço de mar, do mar de Tambaú, com uma senhora de quase 80 anos, que apontou para as fileiras imensas dos prédios, quilómetros de prédios, do que mais cedo não se esperava. Tive vertigens. Mas a senhora H tem razão. Esse não é o caminho de volta.

Estou ainda a ouvir Elis a costurar a minha vida, a dela e a de Renato Teixeira, em alguma distância do começo a subir a cordilheira abaixo. Daqui avisto ao longe o que parece ser uma imagem distorcida. Eu sou um sentimental, um careta, um bicho cansado.

Brilho sobre opacos projetos, paredes e telhados e um generoso arvoredo, a cúpula reunida, do que poderia ser um Templo. Não, um Templo não, Jesus está longe disso tudo.

A senhora que voltava comigo de Tambaú, não sabe onde mora a interminável quietude dessa confusão, da solidão que o leitor percebeu antes que eu respondesse seu imêio, exatamente como tinha sido no tempo das asas da Panair, ao longo de muitas horas de voo.

Mãe, cadê o menino?

Quando eu era pequeno não existia essa coisa de mãe matar filho, se existia eu não sabia, de mãe enlouquecer num solo nada oceano de terra quente, a imensidão do sertão. Eu só sei de mim, só sei de mim.

A capacidade de sedução, a elegância com que ao longo dos dias a gente vai perdendo, intercalando cenas do mais absurdo balé sem pé nem cabeça, sempre voltando ao ponto de partida, esbarro na caligrafia das vertigens.

Reparada a falha, respondi o imêio do leitor e vi que não cabia em lugar nenhum as desculpas para não desconhecer melhor da solidão da geral, que explode na televisão.

Faz sentido o excesso de nós, roupas, roupões, lençóis, perfumes, automóveis, apartamentos, vastas mesas postas, a sobremesa preferida, o cartão uma navalha, sei lá.

Eu prefiro ser Durango Kid, o fantasma do Sertão!

Kapetadas

1 – Segundo o depoimento de Fábio Wajngarten na CPI da Covid, no dia 17/11/2020 houve uma reunião com o CEO da Pfizer sobre vacinas. O presidente Bolsonaro não participou. Ele optou por comparecer a um evento com o cantor Amado Batista. É muito amado, o Batista!

2 – É claro que tem algo muito errado no país. E se você não enxerga isso, você é parte do erro.

3 – Som na caixa – “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, Jobim e Vinicius de Moraes

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB