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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertopoesia@gmail.com

O corpo e seus símbolos

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publicado em 05/05/2021 às 07h43
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Conclusão dos exames: tendinopatia calcárea do subescapular e incipiente do supraespinhal e infraespial. O ortopedista me recomenda sessões de fisioterapia, mas vai logo adiantando: “Talvez não resolva. É caso para intervenção cirúrgica”.
De novo? Já me cortaram duas vezes. Uma, por ocasião de uma operação de catarata, feita com assepsia, rapidez, leveza e conforto, não fora a delicadeza incômoda do pós-operatório, com sua coleção de colírios vários que até me deu um arremedo de poema calcado tão somente na matéria lúdica das palavras, ou seja, ainda distante da autêntica poesia. A outra, quando me arrancaram um sinalzinho maligno do ombro esquerdo, e me fez a dermatologista afirmar, lacônica e decididamente: “Sua taxa de sol acabou”.
Cá, com meus botões, reflito. Começou a PVC, isto é, a porra da velhice chegando! Já me habituara com os problemas da alma desde a mais tenra infância. O corpo, sob os auspícios solares dos céus azuis de meu Cariri, habituado a lombo de cavalo, nunca dera sinais de cansaço ou de decrepitude. Sempre me correspondeu nas horas de perigo, que foram muitas na vida, e nas horas memoráveis dos enormes prazeres carnais. Passando a casa dos 60, já não se garante e não parece ser a “grande razão” da existência, como pensava Nietzsche e seus alongados bigodes prussianos.
Mas o corpo não é só corpo não é só o corpo não é só o corpo! Teimo com meu velho Augusto e não aceito a premissa de sua “mecânica nefasta” enquanto “agregado infeliz de sangue e cal”. Mesmo doente e doendo, há qualquer coisa no corpo que o notabiliza nas solicitações do ser. Há qualquer filigrana no corpo que o faz sublime, sobretudo quando o corpo vive, ou seja, se movimenta, se aquece, treme em suas ações ao mesmo tempo instintivas e transcendentais. Por exemplo: sorrir, chorar, gozar…
Às vezes chego a pensar que o corpo, sem ser alma, sem ser espírito, é mais uma metafísica do que um organismo sólido e composto de nervos, vísceras, músculos, ossos e outros ingredientes químicos e biológicos por onde ressoa a casca reimosa da vida. No corpo existe, sim, um mistério, e se o corpo é terra, como diz o mito bíblico, também contém fogo, ar e água, em sua composição sagrada.
Admito ainda que o corpo é uma linguagem, é um símbolo, é uma mitografia, em seu mapa de espantos, carências e sabores. Talvez seja por isto que falamos sempre do corpo nas mais diversas possibilidades semânticas imagináveis.
Se na ciência topamos com a luz dos corpos celestes, com a cópula dos astros no corpo galáctico, na religião temos a metáfora do corpo de Cristo, do corpo crucificado e da ressurreição dos corpos. A filosofia nos oferta o corpo do pensamento, assim como a política intenta construir o corpo social; a mitologia, o corpo das lendas, a divindade do universo, e a arte, por sua vez, com seus sortilégios e armadilhas, procura elaborar a malha translúcida dos enigmas do corpo estético que transfigura os limites materiais do corpo humano.
Somente assim, posso entender a fascinação de Dostoiévski pelo “Cristo morto”, de Holbein, e a minha mesmo por estes versos de Dante, ao final do Canto V do “Inferno”, na tradução de Augusto de Campos: “e caí como corpo morto cai”.

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