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ENTREVISTA MAISPB

80 anos do rei: a trajetória de Roberto Carlos

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publicado em 17/04/2021 às 14h00
atualizado em 17/04/2021 às 14h07
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Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Nesta segunda-feira (19), quando o rei Roberto Carlos completa 80 anos, o jovem escritor niteroiense Tito Guedes já tem lançado seu livro “Querem acabar comigo”, com selo da editora Máquina de Livros. O autor apresenta a trajetória de Roberto Carlos sob a ótica da crítica musical, como uma homenagem ao rei. O prefácio é de Arthur Dapieve, que conhece muito a crítica musical, e o projeto gráfico é de Bruno Drummond, que durante 15 anos fez o cartum “Gente Fina”, no Globo. A propósito, Tito é filho de Octavio Guedes, comentarista da GloboNews.

Além do livro impresso, no site da editora e na Amazon, e que chega às livrarias, o e-book também está disponível em 20 plataformas digitais, como Google Books, Kobo, Apple Books e por aí vai. Tito Guedes nasceu em Niterói, Rio de Janeiro em 1997, é formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, onde começou a desenvolver a pesquisa sobre Roberto Carlos. Ele trabalha atualmente no Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB).

A crítica detonava o rei. “Trabalho muito duro de aturar”, escreveu Antônio Carlos Miguel; “pulável” e “monótono”, descreveu Carlos Albuquerque; “tudo soa repetitivo”, resumiu Mauro Ferreira. O que chama a atenção não é o aspecto negativo da análise, algo que acompanha Roberto desde o início da carreira, mas o fato dos três textos que, exceto um detalhe ou outro, diziam a mesma coisa, dividiram a mesma página, uma capa do Caderno de cultura do jornal “O Globo”.

Capa do livro “Querem Acabar Comigo”

Em 1966, o rei lançou “Roberto Carlos”, primeiro dos discos que, a partir de então, passaram a ter somente seu nome no título. No repertório estava “Querem acabar comigo”, composição que assina sozinho. É esse o título do livro que trata, sob um viés inédito, a obra do Rei. O trabalho de pesquisa de Tito Guedes é rico em detalhes.

Se a música brasileira tivesse uma voz para o mundo seria a de Roberto Carlos, maior artista do país, que nesse aniversário abre mais um ano ininterrupto de carreira. Basta olhar nas retrospectivas todas as conquistas que o Rei alcançou desde que, em 1959, registrou sua primeira gravação, um compacto em 78rpm com “João e Maria” e “Fora do Tom”.

A crítica musical demorou a lhe estender o tapete vermelho. A maior parte do tempo o rei foi visto como um cantor brega e acomodado. Para contar essa história, o pesquisador Tito Guedes garimpou centenas de resenhas publicadas desde os anos 60 até hoje.

Desde a Jovem Guarda, Roberto Carlos é um sucesso de público e fenômeno de vendas. O livro de Tito vai além das curvas da estrada de Santos.

O autor conversou com o MaisPB e releva sua paixão pela obra do Rei, comenta as críticas veementes ao artista e nos mostra um rei fortalecido, afinal, Roberto Carlos chega aos 80 anos cantando, compondo, o que ele melhor sabe fazer, o rei e sua orquestra. Como diz Eduardo Lages, o maestro do rei: “com vocês, Roberto Carlos” – pela sacada de Tito Guedes.

Tito Guedes, autor do livro Querem Acabar Comigo

MaisPB – O livro “Querem acabar comigo” está sendo lançado neste ano em que o Roberto chega aos 80 anos. A ideia era essa?

Tito Guedes – Sim, eu já vinha desenvolvendo a pesquisa desde 2018, quando estava na universidade. A decisão de publicar agora foi justamente para celebrar os 80 anos do artista.

MaisPB – Aliás, seu livro é resultado de um trabalho de conclusão de curso da graduação em Estudos de Mídia, na Universidade Federal Fluminense. Foi uma longa pesquisa?

Tito Guedes – Sim. Como meu interesse pelo tema era muito grande, não me limitei a cumprir apenas os requisitos e o volume de material para o TCC, fui além. Tanto é que o livro é uma versão revisada e ampliada do trabalho acadêmico.

MaisPB – Na obra a gente vislumbra uma análise esmiuçada da relação de Rei com a crítica musical de veículos de grande porte. Naquela época consagrada Roberto lidava bem com as críticas?

Tito Guedes – Durante o período da Jovem Guarda, as críticas a ele eram bem mais veementes – não só por parte da crítica musical, como de diversos outros setores que defendiam a MPB ou a música popular “tradicional”. Tanto que em 1966 ele chegou a compor a música “Querem acabar comigo”, que dá nome ao livro e retrata como ele era vilanizada naquela época. Com o tempo, no entanto, as críticas se tornaram menos passionais, mais limitadas ao conteúdo de cada disco. E a preocupação de Roberto sempre foi com seu público e os seus fãs.

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MaisPB – Roberto cresceu, cresceu e se transformou no cantor das multidões. Você acha que a critica teve peso nisso?

Tito Guedes – Não. Pelo contrário: a crítica nunca concordou que Roberto tivesse tanto talento. O que fez com que ele se tornasse um cantor das multidões foi seu apelo popular, sua capacidade de se comunicar com o público e o apoio de seus fãs.

MaisPB – O fato de você trabalhar no Instituto Memória Musical Brasileira ajudou muito na pesquisa?

Tito Guedes – Com certeza. Não só pela facilidade de consultas à discografia de Roberto, como pelo contato mais próximo com a memória musical brasileira e sua história, que me deu mais conteúdo para pensar no cenário geral em que a história de Roberto Carlos está inserida.

MaisPB – Está bem distribuído nos capítulos informações de textos assinados Sérgio Cabral, Flavio Marinho, Augusto de Campos, Fausto Wolff, José Miguel Wisnik, Antonio Carlos Miguel, Tárik de Souza, Jotabê Medeiros, Mauro Ferreira e Carlos Calado. Como você analisa esse vasto material?

Tito Guedes – A quantidade de textos de nomes importantes como esses sobre Roberto Carlos ao longo dos anos mostra justamente a relevância de Roberto no âmbito da música brasileira. Décadas se passaram e ele nunca deixou de ganhar análises na imprensa especializada – mesmo que fossem análises críticas.

MaisPB – Querem acabar comigo é um trabalho acadêmico, ok, mas em se tratando do Reio, seu livro desperta milhares de interesses dos fãs e pesquisadores. Vamos falar sobre isso?

Tito Guedes – Com certeza. A decisão de transformar o trabalho acadêmico em livro veio justamente dessa constatação – de uma consciência da importância de expandir essa história e as muitas discussões que ela suscita para fora dos muros universitários, de uma forma que pudesse abranger um público cada vez maior.

MaisPB – Roberto Carlos já tem seu livro em mãos?

Tito Guedes – Não que eu saiba. Mas caso ele possua interesse em ler, será um prazer.

MaisPB -Você dividiu os capítulos com frases de musicas do Rei e isso leva uma indicação que torna apaixonante a leitura, estou certo?

Tito Guedes – A ideia era essa. São muitas as músicas de Roberto que moram no imaginário coletivo dos brasileiros. Essas frases na abertura dos capítulos servem como espécie síntese do que será apresentado ali, mas despertam essa memória afetiva para as canções, certamente conhecidas pela maioria dos leitores do livro.

MaisPB – Grande parte do tempo ele foi visto como um cantor alienado, brega. Isso não parece ser verdade, né?

Tito Guedes – Essas conceituações de “brega”, “alienado” ou “de mau gosto” são subjetivas e respeitam padrões avaliativos que mudam ao longo dos anos, de acordo com a particularidade de cada período histórico. Nos anos 60, por exemplo, sua obra era vista como “alienada”. Já nos anos 90, essa mesma obra passa a ser enxergada, anos depois, como “obra prima” ou “clássicos da MPB”. O mesmo acontece com músicas e outros artistas chamados de “brega” – basta que a régua avaliativa mude para que os conceitos mudem também.

MaisPB – “Querem acabar comigo” vai além e mostra, até quando grandes artistas da MPB como Caetano Veloso, Nara Leão que gravou um LP com canções do repertório do cantor no fim dos anos 70; ou quando Maria Bethânia gravou um aplaudido tributo ao Rei. Isso também foi fundamental, né?

Tito Guedes – Com certeza. A chancela desses e outros artistas foi fundamental, em muitos momentos, para que a crítica lançasse um novo olhar sobre a obra de Roberto. Quando Caetano e os outros tropicalistas o defenderam nos anos 60, por exemplo, muitos repensaram sua postura radical anti-Roberto ou anti-Jovem Guarda naquele momento. Coisa parecida aconteceu quando Bethânia lançou o disco “As canções que você fez pra mim”. Muitos que consideravam o repertório romântico de Roberto como “cafona” repensaram sua posição depois do aval da “Abelha Rainha”. Ou seja, em muitos casos, o apoio desses artistas de prestígio ajudou a legitimar a obra de Roberto junto à crítica.

MaisPB – Ficou muita coisa de fora, no seu livro?

Tito Guedes – O livro possui um recorte temático específico: as críticas musicais sobre Roberto produzidas nos jornais de grande circulação do eixo Rio-São Paulo. Desse âmbito eu incluí a maior parte do material que julguei mais representativo do processo analisado. Mas Roberto Carlos é um artista de muito destaque e repercussão, e sempre há muito mais a se acrescentar.

MaisPB – O que mais lhe tocou ao escrever esse livro, já que você é tão jovem e Roberto nunca foi coisa do passado?

Tito Guedes – Foi justamente perceber a permanência de Roberto no “trono” ao longo de tanto tempo. Ele soube envelhecer com seus fãs e conquistar novos admiradores ao longo dos anos, sem jamais perder a comunicação tão penetrante com o público, que é sua característica mais marcante. E em um país de memória fraca, ele conseguiu um fato raro: atravessou todas essas décadas sem viver um período sequer de ostracismo.

MaisPB – Tem uma coisa lá no livro, que seus amigos não gostavam de ouvir Roberto Carlos…

Tito Guedes – Nos agradecimentos finais, fiz uma brincadeira carinhosa com os amigos que não gostam quando eu coloco Roberto pra tocar nas festas. Essa recusa me deu ainda mais vontade de continuar a pesquisa.

MaisPB – Como a obra de Roberto entrou em sua vida?

Tito Guedes – Desde criança ouço muita música brasileira em casa, por causa dos meus pais. Os discos de Roberto nunca deixaram de fazer parte dessa seleção. Conforme fui ficando mais velho, fui conhecendo melhor sua discografia e entendendo mais sobre sua trajetória. Depois que entrei na faculdade passei a me interessar não somente por sua obra, mas pelo papel que ele desempenhou na cultura brasileira, e por isso o elegi como objeto de estudo. Foi uma escolha ao mesmo tempo pessoal e intelectual.

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