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Antônio Colaço Martins Filho é chanceler do Centro Universitário Fametro – UNIFAMETRO (CE). Diretor Executivo de Ensino do Centro Universitário UNIESP (PB). Doutor em Ciências Jurídicas Gerais pela Universidade do Minho – UMINHO (Portugal), Mestre em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal), Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Autor das obras: “Da Comissão Nacional da Verdade: incidências epistemiológicas”; “Direitos Sociais: uma década de justiciabilidade no STF”. E-mail: colaco.martins@unifametro.edu.br

O Diogo

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publicado em 22/03/2021 às 07h09
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(Dedicado aos colegas de infância Silviomar (Poé) e Amaral, vítimas do COVID-19)

Na vila do Diogo, em Beberibe-CE, há muitos mares: Francimar, Silviomar, Amaral, Lucimar… A vila repousa, indiferente ao tempo, na encosta de falésias ocre, entre as dunas e o mar.

Do alto da vila, o mar se exibe, majestoso, infinita flâmula horizontal azul turquesa. As sombras das nuvens projetam imensos seres imaginários no leito marinho.

O trajeto dos pescadores até as embarcações e o passeio vespertino de Fernando “Cabeça” com seu pet são marcos temporais do cotidiano da comunidade.

Em vilarejos assim, as mínimas idiossincrasias são copiosamente celebradas. Assim, o jovem Silviomar, após ousar recitar um verso qualquer em uma roda de conversa, recebeu, de pronto, a alcunha de poeta. Em pouco tempo, convencionou-se abreviar a denominação para Poé, sem que ninguém se importasse com a irônica semelhança com o patronímico do poeta americano Edgar Allan.

Na praia, sob o leito em que descansam as jangadas, o vento maral estica a vela branca, que se espreguiça, leitosa. As parcas almas que atravessam o lençol arenoso, fazem pouco caso do caprichoso plissado que o vento cose e o pêndulo espumante do mar dissolve.

Ignorado pelas falésias e pelo mundo, um pescador lança o anzol ao mar. Seu sorriso e seus hábitos são frugais. Seu refúgio é maral. O rosto é largo e o olhar vivaz. O nome, Amaral.

Enquanto isso, o mar respira deitado, a expirar ondas, como claves de fá, sobre a praia. Ao se retrair, a maré subtrai o reboco sedimentar, abrindo veias e sulcos, por onde a solução salina se esvai. O recuo, por vezes, desenha mini arquipélagos no solo, onde nos corresponde pousar.

Emoldurada pela natureza, a gente simples e trabalhadora do Diogo observa o mundo das suas calçadas e alpendres. O olhar sereno e complacente dos seus moradores é um refrigério para a alma dos visitantes. Nesses tempos atribulados, rogo a Deus que aspirja suas bênçãos sobre os dioguenses e lhes preserve o espírito de comunidade.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB