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Paulo Galvão Júnior é economista, escritor, palestrante e professor de Economia e de Economia Brasileira no Uniesp

A pandemia da Covid-19 empobrece a classe C no Brasil

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publicado em 05/03/2021 às 06h12
atualizado em 05/03/2021 às 06h25
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Infelizmente, após um ano de pandemia da COVID-19 no Brasil, o segundo país com mais mortes no planeta, mais de 259 mil pessoas mortas (UNIVERSIDADE JOHNS HOPINKS, 2021), continuamos sofrendo com o novo coronavírus se alastrando nas cinco regiões do País e com o processo de empobrecimento. Hoje, decidimos analisar as classes sociais no Brasil, sobretudo, observar o comportamento e a saúde financeira da classe C.

Para entendermos melhor a classe C que iremos tratar nesse artigo, temos que entender, primeiramente, o que são as classes sociais. Chamamos de classe social uma divisão socioeconômica de acordo com a renda mensal, “bastante utilizado pelo mercado, que desenvolve suas pesquisas e produtos baseados nos hábitos e possibilidades de consumo de cada faixa de renda” (BETONI, 2014), ou seja, vai muito além de uma simples divisão, sendo útil para o mercado, podendo ajudar aos donos de empresas estudarem melhor sobre a clientela que deseja atingir e conquistar, além de nos permitir visualizar como caminha a economia do país, se estamos ficando cada vez mais pobres ou mais ricos.

É importante observar que temos uma divisão de cinco classes sociais (ou classes econômicas), indo de A à E. Observemos a renda familiar de cada classe no Brasil: classe E, com faixa de renda familiar de até dois salários mínimos (SMs); classe D, rendimentos de 2 SMs até 4 SMs; classe C, rendimentos de 4 SMs até 10 SMs; classe B, de 10 SMs até 20 SMs; e finalmente, classe A, com faixa de renda familiar acima de 20 SMs, segundo os critérios adotados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Observemos também que a classe A é a mais rica no Brasil, no extremo oposto, a classe E é a mais pobre no País. A classe D é a classe pobre, enquanto a classe B é a classe alta. Segundo o economista Paulo Sandroni (2014, p. 143), “costuma-se dividir a classe média em alta, média e baixa”, em outras palavras, a classe C subdivide-se em três grupos, baixa classe média, média classe média e alta classe média.

Lembremos que atualmente, o salário mínimo (SM) no Brasil é de R$ 1.100,00 por mês. Portanto, uma pessoa integrante da classe C tem rendimentos de R$ 4.400,00 (limite inferior) até R$ 11.100,00 (limite superior) por mês. Os rendimentos calculados pelo IBGE são quaisquer fonte de renda dos residentes do domicílio, por exemplos, salário, aluguel, benefícios do Governo, aposentadoria, etc.

De acordo com o professor Paulo Sandroni (2014, p. 143), “Nas pesquisas de mercado, as classes são identificadas pura e simplesmente por estarem dentro de certas faixas (A, B, C, D, etc.) construídas a partir de níveis de renda e de consumo dos indivíduos”. O número de pessoas das classes D e E (as mais pobres) cresceu com a chegada dos antigos integrantes da classe C, por causa da recessão econômica no Brasil, cuja taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi de -4,1% no ano de 2020 (IBGE).

Como dito anteriormente, nosso objeto de estudo será a classe C, ou seja, a popularmente conhecida como classe média (em inglês, middle class). Com o mortal, invisível e novo coronavírus e a ordem de ficarmos em casa, em isolamento social, veio uma crise econômica atingindo todas as classes sociais e trabalhadores de diferentes setores. Muitas empresas encerraram suas atividades econômicas, ou, numa tentativa de sobreviver, diminuíram os custos, logo, tiveram que demitir funcionários, com isso, vários ficaram desempregados. Lembremos que no Brasil o desemprego atingiu 11,6 milhões de pessoas em 2019 saltando para 14,1 milhões de pessoas em 2020 (IBGE). Lembremos também que no Brasil, absurdamente, vigora 92 tributos.

Podemos observar que no ano passado, dos integrantes da classe C, “35% ficaram sem rendimentos e 29% tiveram redução de metade ou mais de seus ganhos, dos quais 23% deixaram de pagar contas, além de se endividarem com crédito caro” (CAMPOS, 2020). Com a queda de 4,1% do PIB brasileiro em 2020, a maior desde 1996, o Brasil é agora a décima segunda economia do mundo e a classe C foi uma das mais prejudicadas com tamanha retração econômica no País.

O site do IBGE aponta que o contingente populacional integrante das classes A e B (no topo da pirâmide social brasileira) é de 30 milhões de habitantes. Na classe C temos 115,3 milhões de pessoas. Por fim, nas classes D e E (na base da pirâmide social) encontramos 63,2 milhões de habitantes (IBGE, 2018). Por percentual, as classes A e B representam 14,4% da população brasileira, a classe C com 55,3% do total, enquanto as classes D e E somam 30,3%.

É interessante ressaltar que em 9 de março de 2021, A Riqueza das Nações, completará 245 anos. Originalmente composta por cinco livros em dois volumes, a obra-prima do economista escocês Adam Smith (1996, p. 129) nos faz refletir que, “nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz, se a grande maioria de seus membros forem pobres e miseráveis”. No Brasil são mais de 51 milhões de pobres e mais de 13 milhões de miseráveis (IBGE, 2020). De acordo com o IBGE, uma pessoa pobre tem renda de até R$ 436 por mês, já uma pessoa miserável sobrevive com até R$ 151 mensais. Quando o auxílio emergencial retornar com um provável benefício de R$ 250,00 por mês, cerca de 44 milhões de pessoas deixarão a miséria por quatro meses consecutivos.

Em pleno século XVIII, Adam Smith (1996, p. 120) enfatizou que, “o homem sempre precisa viver de seu trabalho, e seu salário deve ser suficiente, no mínimo, para a sua manutenção”. Vale a pena lembrar que, para o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), em janeiro de 2021, o salário mínimo necessário (SMN) deveria ser de R$ 5.495,52 por mês, ou seja, o SM atual está defasado em quase cinco vezes menos em relação ao SMN no país.

Com essa pandemia do novo coronavírus vemos que, nem mesmo aqueles que desfrutam de certos luxos, estão livres de sofrerem uma queda econômica, atrasar alguma conta mensal ou contrair novas dívidas. Nenhum agente econômico privado está livre de uma possível inadimplência, uma futura falência, por isso a economia tem que continuar girando o mais normal possível, não só para que os empresários não sofram o tombo, mas para que estes consigam manter o máximo de empregados possíveis, dessa forma tentando amenizar a situação de todas as classes econômicas.

Em síntese, do ponto de vista econômico, a pandemia da COVID-19 empobrece a classe C, a população no meio da pirâmide social no Brasil. Finalizamos com uma reflexão no final da vida do célebre economista Celso Furtado: “Como que é possível um país tão rico como o Brasil tenha tantos pobres?”.

Nota: O texto artigo elaborado a quatro mãos, pelo professor de Economia do UNIESP e conselheiro do CORECON-PB, Paulo Galvão Júnior, e pela estudante do Curso de Administração do UNIESP e Licenciada em Letras pela UFPB, Gabriela Lyra Alves, sobre as classes econômicas no Brasil em plena pandemia da COVID-19.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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