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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

Carta para um trabalhador

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publicado em 19/02/2021 às 07h00
atualizado em 19/02/2021 às 06h28
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Olá, astronauta!

Como andas por aí? Lembro-me de ti na rede do teu velho pai. Ouvias causos por ele contados. Tu mal balbuciavas as palavras, mas, à pergunta do que querias ser, quando crescesse, tua resposta dava a exata dimensão da simplicidade das circunstâncias em que vivias: “trabalhador”! Não. Não era assim tão bem pronunciado. Engolias o “r” e o “lh” trocavas por um “i”: “tabaiador”.

Não, não era verdade, e, se fosse, não tinhas consciência do que isso significava, estou certo? Respondias mecanicamente, porque sabias que teu velho pai abriria um sorriso grato e se orgulhava, porque, para o tempo e história dele, isso bastava e era honroso por demais.

Depois, dentro de uma inocência própria dos teus nove anos, ainda com essa resposta pronta, começaste a soletrar as primeiras palavras, mas, no meio do caminho, tinha uma pedra, uma pedra muito mal soletrada.

Uma lata grande de querosene… uma palavra esquisita “LTDA”. O que significava aquilo? Não te haviam ensinado juntar consoante com consoante, e tu não tinhas por perto qualquer pessoa alfabetizada, para te responder… Foi longa a tua espera, não foi? Já homem feito, barba talvez. Triste! Mas, voltemos ao fio da meada.

Olá, astronauta!

Lembras disso? Como, decerto, astronauta era algo maior do que trabalhador, mudaste de planos sem combinar com teu pai, que não acreditava nesse negócio de homem ir à lua. Lembras, quando isso aconteceu?

Tu tinhas 14 nos. Saído da zona rural, vestido em calças azul-ferrete, uma camisa branca, o símbolo do colégio estadual no bolso. Um ki chute feito de aço e vento. O primeiro dia de aula, um sonho, depois da formação de dois anos no Grupo Escolar Jovelina Gomes.

Tu estavas dentro de um colégio de verdade, do mesmo tamanho e importância da tua adolescência. Sim, de verdade: Colégio Estadual de Uiraúna. Fora aprovado no exame de admissão, lembras? O primeiro dia de aula. Aula de Português. Tu eras um matuto, sentado ao fundo da sala, com vergonha de tudo. Como os camponeses sofrem na cidade e como a cidade é ruim para o matuto!

Uma caderneta. Sim, nela, teu nome! Que orgulho! O teu nome ali! Quando a professora venceu todos os nomes que começavam pela letra “E”, e alguns outros anteriores ao teu da letra “F”, chegou ao teu e perguntou: quem é você? De onde vem? O que quer ser, quando crescer?

Um mundo de silêncio entorpeceu tua mente, travaste a tua língua, e teus ouvidos só foram sensíveis à última pergunta da professora Inês Vieira. Respondeste, balbuciando bem fininho, não se sabe por qual motivo, a palavra “astronauta”.

A professora tinha todos os motivos para rir, sim, rir muito, afinal, as evidências do fracasso quase sempre são herdadas, e a experiência de vida era testemunha de que os sonhos dos pequenos são mesmo miudinhos! Mas, não. Decerto fechou os olhos e acreditou nos sonhos do menino.

Astronauta, um moleque beradeiro, das brenhas de uma serra no alto sertão da Paraíba… Astronauta… Mas, tu mentiste para ela, não foi? Tu nem sabias o que era aquilo… Foi o nome bonito, bem mais bonito do que a palavra“ trabalhador”, que se punha ali para te salvar da vergonha de falar ao público.

Então, mais uma vez, caiu a seca no sertão, carências exponenciadas, a terra seca no nariz, canafístulas mal floridas, as frentes de trabalho calejando tuas mãos, trabalhador, trabalhador das secas, dos açudes, trabalhador fazendo estradas, trabalhador, teu pai, na inocência do analfabetismo, sorrindo do céu, trabalhador… Interrupção dos estudos, a sina de volta a tua vida: trabalhador…

Olá, trabalhador, como estás?

Tua resposta é sincera: tenho 21 anos. Sou servidor público federal concursado. Agora, sim, dono do meu destino, pronto para sonhar a vida: trabalhador, sim, da minha sina. E tu, meu velho, que me dizes do teu tempo aí?

Eu, calejado pela idade das tartarugas, aliso as minhas rugas e fito o meu presente. Vejo nele a mansidão do tempo: trabalhador das leis, trabalhado das salas de aulas, trabalhador das letras e dos livros. Como não dizer que os pais têm sempre razão? Sim, trabalhador!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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