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Bandolim e orquestra sinfônica no mesmo som

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publicado em 30/01/2021 às 12h03
atualizado em 30/01/2021 às 11h38
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Kubitschek Pinheiro MaisPB

fotos: Pedro Abude

Uma maravilha. A Orquestra Sinfônica de Santo André (Ossa) realizou há cerca de um ano um concerto com o bandolinista Hamilton de Holanda. A apresentação gravada foi no Teatro do Sesc Santo André e agora lançada em formato de álbum digital ‘Sessões Selo Sesc #11: Orquestra Sinfônica de Santo André + Hamilton de Holanda’ pelo Selo Sesc, disponível na plataforma Sesc Digital. Nas demais plataformas de streaming de música (Deezer, iTunes e Spotify) o trabalho também está disponível.

A apresentação marcou a estreia mundial do Concerto Brasileiro para Bandolim de Orquestra, do bandolinista Hamilton de Holanda, uma das referências no instrumento. A obra é composta por três movimentos (I. Natureza Divina, II. Povo Solidário e III. Reconstruindo o Futuro) inspirado no Brasil de problemas e soluções, e que requer os solos do tradicional bandolim de oito cordas do autor.

O repertório mescla música clássica e música popular brasileira, e que agora pode ser conferido no álbum digital, que contou ainda com um pout-pourri, com arranjo de Guga Petri, com as canções ‘Como Nossos Pais’, ‘La Belle de Jour’, ‘Domingo no Parque’ e ‘Alegria Alegria’, respectivamente de Belchior, Alceu Valença, Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Outras faixas são Último Capricho (Capricho 24) para Bandolim e Orquestra, de Hamilton de Holanda, Salmos, de João Guilherme Ripper e as suítes retratos Pixinguinha (choro), Ernesto Nazareth (valsa), Anacleto de Medeiros (schotitish) e Chiquinha Gonzaga, de Radamés Gnatalli. Fecham o álbum a canção Guerra e Paz I, de Hamilton de Holanda, e Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Além dos músicos da Ossa e do bandolinista Hamilton de Holanda, participaram do concerto os músicos Fernando César (violão de 7 cordas), Rafael Toledo (pandeiro) e Henrique Araújo (Cavaquinho).

O Portal MaisPB conversou com Hamilton de Holanda e o maestro Abel Rocha, que contam em detalhes sobre essa novidade que une musica instrumental e erudita. Confiram as entrevistas.

MaisPB – O concerto gravado em novembro de 2019, com você e orquestra sinfônica de Santo André é um marco. Vamos falar desse momento antes da pandemia?
Hamilton de Holanda – Esse momento antes da pandemia, especialmente, o concerto foi muito especial, porque trabalhar com orquestra é algo grandioso e dá muito trabalho, demanda muito tempo e eu gosto muito. Além disse, no dia da apresentação foi o dia da final da Libertadores, quando o Flamengo foi campeão, eu sou flamenguista e foi um dia inesquecível e ninguém imaginava o que estamos passado. Eu me lembro com muita alegria desse momento – tanto da preparação do concerto, como a proporia apresentação no dia e a preparação disco, mixagem. Ainda bem que foi registrado esse momento tão especial, em novembro de 2019.

MaisPB- À época, estreia mundial de “Concerto Brasileiro para Bandolim e Orquestra” de Hamilton de Holanda, (obra em três movimentos I. Natureza Divina, II. Povo Solidário e III. Reconstruindo o Futuro) foi inspirado no Brasil de ontem, mas parece com o Brasil, o Brasil de sempre, concorda?
Hamilton de Holanda – Na verdade foi inspirado no Brasil de sempre, porque eu me lembro quando era criança de ouvir que o Brasil é o pais do futuro e esse futuro daquele projeto chegou, mas não chegou como a gente imaginava. Então, na realidade eu me baseio e firmo nas minhas convicções nos dois primeiros movimentos que é A Natureza é Divina e Povo é Solidário e eu acredito que povo brasileiro é solidário e guerreiro. O terceiro movimento representa um a reconstrução e uma construção constante do futuro, porque tenho filhos e me preocupa com o Brasil que eles vão viver. Então, de minha parte fazer uma música dessa, é como que fortalecer o que tempos de positivo, num pais grande, com um povo maravilhoso, uma natureza ímpar, mas que se perdeu, se perde no meio do caminho, mas precisamos estar sempre atentos a isso.

MaisPB – Como aconteceu o convite, você lembra?
Hamilton de Holanda – Na verdade eu fiz um concerto no começo de 2019, com o maestro Abel Rocha e contei a ele que estava finalizando essa composição. Tocamos nesse concerta em Curitiba e tocamos a suíte Retratos do Radamés. Uns três meses depois ele me convidou, dizendo que tinha ficado interessado no concerto e se eu estava interessado em gravar com a Orquestra de Santo André.

MaisPB – Você já tinha se apresentado com uma Orquestra grande assim?
Hamilton de Holanda – Algumas vezes. Eu já tinha me apresentado com a orquestra de Brasília, a orquestra Montpellie na França, no Canadá, a Orquestra Sinfônica Brasileira Brasil e já tive alegria de tocar com uma orquestra especial: uma coisa é uma pessoa tocar uma música bonita e as pessoais gostarem, outra coisa são várias pessoais tocando juntas. A energia que isso tem é incrível. O processo não é fácil, colocar tudo no lugar, mas quando o trem entra encarrilha nos trilhos e pela velocidade é impressionante como a gente se emociona.

MaisPB – Vocês tocam obras suas – de Radamés Gnattali, João Guilherme Ripper e passam pelo universo popular brasileiro com Quadros do Nordeste (Como Nossos Pais / La Belle de Jour / Domingo no Parque / Alegria Alegria – versão pout-pourrit de Belchior, Alceu Valença, Gilberto Gil e Caetano Veloso entre outros. Conta aí sobre essa mistura de sons?
Hamilton de Holanda – Bom, eu propus o concerto, na realidade quando ele me convidou e eu adorei a ideia, da gente fazer a suíte Retratos de Radamés, que eu toco e é uma das coisas mais bonitas que um brasileiro já fez, na minha opinião. Ele propôs os quadros do Nordeste e eu achei máximo, porque tem meu sangue nordestino. Adoro todos os esses compositores que fazem parte do pout-pourrit e, acima de tudo acho que combinou demais com o concerto, mostra a força do Brasil, tem toda uma mística, desses compositores do Nordeste e tocada por uma orquestra sinfônica em outro ambiente, a música mostrando a força e a ausência das fronteiras. Os arranjo dos quadros do Nordeste mostra, que música que emociona não tem fronteira. Ou ela emociona ou não emociona, pode ser popular ou erudita. Ficou muito bom a misturar com Radamés, um registro excelente desses compositores que a gente gosta muito.

MaisPB – Quando você compôs essa obra prima – Concerto Brasileiro para Bandolim e Orquestra – I. Natureza Divina, II. Povo Solidário e Concerto Brasileiro para Bandolim e Orquestra – III. Reconstruindo o Futuro?
Hamilton de Holanda – Na realidade eu compus há muitos anos. A minha atividade como compositor tem sido bem intensa e ai em 2018 eu falei, quando aconteceu a virada do ano, escreverei os projetos, pensei já que eu consigo compor uma música a cada dois dias, se eu tirar um pouco do dia para escrever uma música de um concerto grande, pensando no Brasil eu acho que devo em seis meses realizar. O concerto de tem uma dificuldade de ser uma obra muito grande de vários instrumentos Tenho que escrever para dois violinos diferentes, para violoncelo, para contra baixo, para oboé, pra clarinete, trompa, viola, enfim, isso demanda muito tempo. Ai fui escrevendo todos os dias, no ano de 2018. Chequei a escrever nos hotéis e aviões, na estrada

MaisPB – Sempre de surpresa, vez em quando, assistimos suas pequenas lives em casa e o público interagindo. Tem sido bom isso não, é?
Hamilton de Holanda – Tem sido um escape, porque o mais difícil de ficar preso em casa é não poder ver as pessoas, abraçar as pessoas e pra mim como profissional, como musico, fazer shows, ver as pessoas se emocionarem e me emocionar também. Isso está fazendo muita falta. Essas lives como escape, não vou dizer que é igual a um show, claro que não é. De alguma maneira positiva, me alimenta, alimenta muita gente também, é uma maneira da gente se encontrar e ficar aliviando essa distância. Sinto as interações e os coraçãozinhos, eu vejo como aplausos, um alimento para a minha alma. Vou continuar fazendo essas lives porque fazem bem a mim e a todo mundo.

MaisPB – Podemos contar com um projeto novo para 2021?
Hamilton de Holanda – Eu estou com alguns projetos de cabeça que eu vou fazer. Eu posso dizer dois: um é um projeto de novo autoral, porque eu acabei fazendo o disco autoral em 2019 – que foi o Harmonizi-se, mas por conta da pandemia não consigo fazer nada com ele. Como eu fiz o ano passado 365 dias músicas, uma a cada dia, eu conto com muito repertório para um trabalho autoral então, vai sair. E provavelmente, um trabalho com música de Tom Jobim que fico cada dia muito empolgado. Além disso continua com minha saga de dentro da educação também. Vou continuar melhorando e perfeiçoando meu curso Princípios da Introdução da Musica Brasileira. Minhas atividades relacionadas a educação vão continuar intensas, porque esse período da pandemia me reaproximou de verdade, estamos firme nessa atividade educacional que é tão importante.

Maestro Abel Rocha

MaisPB – A música instrumental se expandiu muito, né maestro?
Abel Rocha – Sim, as pessoas não estão mais ligadas no erudito ou no popular. Acho que isso acontecia há uns trinta atrás. Na segunda metade do século XX se diferenciou o que era música popular e erudita, mas a música de concerto, a música instrumental, ela sempre fez parte de todas as culturas. Desde os compositores tradicionais, como Mozart, Beethoven, eles têm um música instrumental de determinado momento da história. Ou Litz que tocava piano. A música instrumental do século vinte, tem outro tipo de abrangência. Muitas das orquestras hoje em dia têm um repertorio que abrange a música instrumental, que a gente chama de música de concerto, que é uma música brasileira moderna. Um concerto para piano e para bandolim é quase a mesma coisa e a gente está sempre mostrando essa produção moderna brasileira.

MaisPB – Como o Hamilton entrou nessa história?
Abel Rocha – Eu o conheci em 2019, quando o convidei para fazer um concerto na abertura da Oficina de Música de Curitiba, que eu sou diretor artístico da oficina.

MaisPB – Dai veio a ideia de chama-lo para a agravação desse projeto?
Abel Rocha – Então, no começo daquele ano nós fizemos Beethoven com Hamilton de Holanda. Como tínhamos feito as peças de Radamés, a Suíte Retratos, quando conversamos ele me contou que estava terminando um concerto para bandolim e orquestra. Já naquele momento o convidei para fazer a estreia desse concerto com a Orquestra de Santo André.

MaisPB – A obra da Radamés Gnattali casou bem com a proposta de Hamilton, né?
Abel Rocha – Isso. Veio a ideia de fazer um programão de música instrumental. Já tínhamos essa Suíte de Radames com Jacob do Bandolim que é um concerto em quatro movimentos para bandolim e orquestra. E Hamilton topou, ele tinha uma série de prelúdios para bandolim e incluímos duas peças, Guerra e Paz do Hamilton que e fomos conversando e seguimos o programa. Ai aparecem os quadros do Nordeste, são super tradicionais, numa única música, “Como nossos pais”, La Belle de Jour,, Alegria, alegria” e Domingo no Parque. Isso com a auxílio do Petri (maestro Luis Gustavo Petri regente da orquestra de santos). E pra juntar, contamos com outro compositor brasileiro vivo, João Guilherme Ripper, super moderno.

MaisPB – O senhor é diretor musical e maestro titular da Orquestra de Santo André. Qual a satisfação de comandar um equipe gigante de músicos?
Abel – A orquestra não é mais tão jovem, já foi na vida, mas é uma orquestra profissional. Eu sempre brinco de fazer música de concerto, fazer a obra, fazer música sinfônica é uma linha de produção, é uma estrutura de guerra, uma vez por semana. É sempre a mesma coisa, mas diferente de uma fábrica que a pessoa passa dez meses trabalhando todo dia, fabricando o mesmo tipo de carro. Para nós não. Eu subo no palco e a cada momento é um repertorio diferente, um concerto diferente – óperas instrumental

MaisPB – Desde 2014 a Orquestra é dirigida pelo senhor Abel e em 2020 teve um destaque especial no meio musical brasileiro com o lançamento de sua produções durante a pandemia. Foram bons os resultados?
Abel Rocha – Com certeza. Essa foi mais uma preocupação sempre minha, da gente estar sempre ligado, o que é nosso trabalho para nosso público. A gente entende como público as pessoas que vão ao teatro assistir aos nossos concertos. Nomeio do caminho perdemos a relação física. Mas ganhamos outra, o nosso público, que não precisa estar geograficamente próximo, ele não precisa estar num determinado dia para assistir um evento. Os eventos passam a ser agora virtual, mas pensando sempre no conteúdo. Nas telas de computadores, celulares, pensamos nos parâmetros e o retorno foi grande.

MaisPB – Esses eventos vão continuar em 2021?
Abel Rocha – Sim, com certeza. Tivemos que reinventar esses conceitos. Isso vai durar por um tempo. E mesmo quando a gente voltar ao vivo, vamos estar mais inda nas redes sociais, nos concertos virtuais

MaisPB – A obra de Radamés Gnattali traz uma luz intensa para o concerto. Foi uma escolha sua?
Abel Rocha – Então, como eu falei, convidamos o Hamilton para juntarmos esses dois lados. Grandes virtuosos, populares e eruditos. Como já tínhamos o material de Radamés para bandolim e orquestra. Juntamos essa bela composição

MaisPB – Como o senhor tem visto essa pandemia sem fim?

Abel Rocha – Uma coisa que aconteceu muito forte, em todas as áreas artísticas, aprendemos que precisamos compartilhar, que temos que dividir, contar uns com as outros. Nesses momentos nossos públicos geográficos, discutimos isso juntos, todas as orquestras brasileiras, para conseguimos avançar. Apesar da distância, estamos super perto. A internet tem nos ajudado muito. Como subiu a música de concertos, isso a gente tem visto no Google.

MaisPB – O senhor conhece a Paraíba?
Abel Rocha – Sim. Já estive ai quatro vezes, em João Pessoa, em momento bem separados, dois quando eu era adolescente, outra no meio do caminho e quando a gente em 2010, circulou o pais com o projeto de óperas nacional e passamos pela Paraíba.

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