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Alaíde Costa canta a poesia de José Miguel Wisnik

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publicado em 23/01/2021 às 12h09
atualizado em 23/01/2021 às 13h01
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Kubitschek Pinheiro MaisPB

Fotos: Anita Abreu Solitrenick

A parceria da cantora carioca Alaíde Costa e do paulista José Miguel Wisnik vem de outubro de 1968. À época, integrante do time de intérpretes da primeira edição paulista do Festival Universitário da Canção Popular, exibido pela extinta TV Tupi, a cantora é escolhida por um jovem compositor de 20 anos para apresentar sua canção de estreia, “Outra Viagem”, escrita naquele ano. Agora, 52 anos depois, os dois reatam esse elo precioso e intacto para gravar essa e outras canções do cantor, compositor, pianista e escritor paulista.

Alaíde chega aos 85 anos como uma das maiores crooners da bossa nova. A interpretando em 10 canções, sendo duas inéditas, de Wisnik. O disco “Anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik” tem a direção artística e composições de José Miguel Wisnik. O selo é do Sesc São Paulo.

No repertório, a canção “O anel”, composta especialmente por Wisnik, relembra o encontro dos dois lá longe. Temos também as inéditas “Aparecida” e “Olhai os lírios do campo”, além de “Ilusão Real”, parceria de José Miguel com Guinga, “Por um fio”, “Saudade da saudade”, “Laser”, “Estranho jardim”.

Nunca antes gravada, “Aparecida” (1996) é a música que “agora, cantada por ela, parece feita para abrir o disco”, descreve o compositor em seu texto de apresentação. Wisnik canta em outras duas faixas: “Laser” (1989), composta em parceria com Ricardo Breim e que ele define como “a leveza capaz de cortar diamante ao meio” e em “Olhai os lírios do campo” (1966/2020), outra inédita e que fecha o disco em versão pout-pourri com “Onde está você” (1964-65), canção escrita por Oscar Castro Neves (1940-2013) e Luvercy Fiorini (1941-2007) e que se tornaria emblemática na carreira de Alaíde após sua interpretação no programa O Fino da Bossa, realizado no Teatro Paramount, estúdio da TV Record em São Paulo.

Na companhia de Alaíde está o trio de piano, contrabaixo e bateria formado por José Miguel Wisnik, Zeca Assumpção e Sérgio Reze, respectivamente, e as participações especiais de Jessé Sadoc (flughel), Shen Ribeiro (flautas), Swami Jr. (violão) e Alexandre Fontanetti (guitarra), além de Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Nailor Proveta (clarinete) com o seu grupo de sopros, formado por Douglas Braga (saxofone alto), Erick Ariga (fagote), Gabriela Machado (flauta em dó e flauta em sol) e José Luiz Braz (clarone alto). A produção musical é de Alê Siqueira.

Disponível nas plataformas digitais de streaming, incluindo no Sesc Digital que oferece o conteúdo de forma gratuita e sem necessidade de cadastro, o disco foi lançado em dezembro quando Alaíde Costa completou 85 aos. A versão física do álbum está prevista para sair entre maio e agosto deste ano, devido à interrupção da produção de CDs causada pela pandemia.

Confira a entrevista desses gigantes ao MaisPB

Alaíde Costa

MaisPB – A canção “Outra Viagem”, ( a nona faixa) de José Miguel Wisnik, que a senhora defendeu no Festival de 1968 seria uma nova viagem que chega com o disco O Anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik, com selo Selo Sesc ?

Alaíde Costa – Sim, acaba sendo pelo tempo que se passou e com ele eu muito aprendi.

MaisPB – Qual foi a sensação, a alegria de cantar com Wisnik a canção Anel, nesse disco?

Alaíde Costa – Foi uma sensação muito boa, tão boa que eu não consigo traduzir em palavras.

MaisPB – Agora Alaíde Costa canta um disco todo de José Miguel Wisnik. Isso celebra também seus 85 anos de vida. Qual a importância desse novo trabalho em sua vida?

Alaíde Costa – É um dos maiores presentes que já recebi musicalmente.

MaisPB – Como foi o lançamento de O Anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik, no canal YouTube do Sesc São Paulo e no Instagram do Sesc Ao Vivo?

Alaíde Costa – Eu creio ter sido muito bom, encantador.

MaisPB – Como vocês se reencontraram cinco décadas depois?

Alaíde Costa- Foi em uma reunião na casa do nosso amigo Rafael Moares e para minha surpresa lá estava ele. Foi como um encontro marcado pela música.

MaisPB – A senhora acredita que o Brasil vai melhorar, que vamos voltar aos shows presenciais, a vida será retomada com segurança?

Alaíde Costa- Tenho fé, acredito que Deus vai nos libertar de tudo isso que estamos passando e nos dar novas chances.

MaisPB – Já entrevistei várias vezes João Senise que gosta muito de seu trabalho. Como a senhora vê o trabalho desse jovem tão talentoso?

Alaíde Costa – Vejo que o João Senise segue o caminho que nós da Musica Popular Brasileira admiramos.

Perguntas para José Miguel Wisnik

MaisPB – Rapaz, que disco bonito. Como aconteceu esse reencontro magnifico com Alaíde Costa?

José Miguel Wisnik – Muito obrigado! Fiquei muito feliz com o reencontro e com o resultado. O reencontro se deve ao fato de que nunca nos esquecemos, nem eu nem Alaíde, o nosso primeiro encontro musical, que era minha estreia na canção, quando ela cantou “Outra viagem” no Festival Universitário da TV Tupi, em 1968. Naquela ocasião ela me deu um anel que estava na mão dela, e esse gesto ficou sendo um símbolo desse vínculo e dessa memória. Quando nos encontramos ano passado, na casa de um amigo dela, ela logo lembrou o anel e me perguntou dele. Acalentamos a ideia de um show juntos, que logo evoluiu para a ideia do disco, que o selo Sesc abraçou.

MaisPB – Essas canções estavam guardadas no seu baú?

José Miguel Wisnik – Algumas estavam num baú muito antigo, como a própria “Outra viagem”, que a Alaíde nunca tinha gravado até agora. “Aparecida” estava guardada, e foi gravada pela primeira vez, abrindo o disco. “O anel”, que dá nome ao álbum, foi composta especialmente para esse reencontro. “Olhai os lírios do campo” é de um baú mais antigo ainda – uma música que eu fiz quando estava no colegial, ouvindo os primeiros sucessos de Alaíde, e que eu nunca imaginei mostrar publicamente, mas que agora ganhou uma razão de ser. Outras já tiveram gravações anteriores. “Assum branco”, por exemplo, já foi cantada por Gal Costa, Caetano Veloso, Monica Salmaso, Zizi Possi, Elba Ramalho, e recebe uma interpretação muito original de Alaíde.

MaisPB – Você lembra bem como aconteceu o convite para Alaíde defender sua canção “Outra Viagem”, no Festival de 1968?

José Miguel Wisnik – A produção do festival me apresentou uma lista de intérpretes cheia de nomes maravilhosos. E eu escolhi imediatamente Alaíde, porque já sentia uma grande identificação com ela.

MaisPB – A sexta faixa “Assum branco”, tem uma ligação com Assum Preto de Luiz Gonzaga? Que canção linda. Vamos falar dessa maravilha?

José Miguel Wisnik – Sim, “Assum branco” conversa com “Assum preto”. Fico muito feliz de que você goste, de que ela volte ao nordeste de onde partiu a inspiração. Fiz a música quando estava compondo a trilha do balé “Parabelo” para o grupo Corpo, em colaboração com o Tom Zé. Mas essa parte acabou sendo uma coisa bem minha. Acho que está ligada ao fato de que ouvi muito Luiz Gonzaga quando era bem criança.

MaisPB – Olhai os Lírios do Campo é uma canção linda, parece uma oração, um lamento. Vamos falar dessa letra, que emenda com “Onde está você” (Oscar Castro Neves/Luvercy Fiorini) – em versão pouti-porri ?

José Miguel Wisnik – Também fico feliz com a sua escuta! Acho sim que é uma oração e um lamento. Compus aos 16 anos para uma peça de teatro colegial na escola pública de minha cidade, em São Vicente. A peça foi escrita por Flávio Rezende, que fez a letra. A gente ouvia muito a bossa nova, estava antenado nas novidades de São Paulo e do Rio, e acompanhei o sucesso de Alaíde com “Onde está você”. Acho que foi feita naquele clima, e sob a influência de compositores como Oscar Castro Neves, que imprimiam às vezes um estilo algo bachiano em suas canções. Por isso me deu a vontade de colocar as duas juntas, tendo Alaíde como a ponte. Mas eu não me lembrava mais da letra inteira, e não podia recorrer ao Flávio meu parceiro, que morreu muito jovem. Por isso, procurei completar a letra agora, sendo fiel ao mesmo espírito. Que bom que ela passa o recado.

MaisPB – O compositor e violonista Guinga divide com você a autoria de “Ilusão real” Vamos falar dessa boa parceria?

José Miguel Wisnik – Entre as músicas do meu repertório, essa foi uma das que foi escolhida pela própria Alaíde. Ela adora o Guinga, e eu também. Gosta de melodias construídas, bem desenhadas, com densidade e riqueza harmônica. Por uma coincidência significativa, Alaíde foi a primeira cantora a cantar uma música do Guinga e uma música minha.

MaisPB – Como o senhor tem visto o nosso país, atolado nessa guerra biológica, tanta gente morrendo e muita gente sem usar máscaras?

José Miguel Wisnik – Nosso país está atolado em muitas guerras e em muitos brejos de estupidez. Para atravessarmos isso é preciso pensar no bem comum, é preciso pensar no outro, é preciso ouvir a voz da razão, da ciência e da arte.

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