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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

O apreço da amizade

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publicado em 16/01/2021 às 08h06
atualizado em 17/01/2021 às 13h04
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Meu pai dividia tudo com os outros. Como quem separa as folhas de um chá. Ele adorava as pessoas, eu também. Ninguém sabe nada sobre a importância de dividir. Quase ninguém.

Ele assobiava uma canção alegre quando eu chegava do litoral. Minha mãe sentada numa cadeira de ferro, coberta por fios de plásticos, também parecia contente – eu levava para ela “Pão Recife”. Eu nunca entendi porque aquele pão se chamava recife. Pouco importa.

Aprendi com meus pais, que somos mútuos, para poder explicar como bem entender o meu texto deste sábado. Uma lembrança boa, pai e mãe, ninho.

Meu filho Vítor vai fazer 20 anos em abril. Parece que ele saiu do meu útero. Pois bem, uma noite dessas, ele chegou pra mim e disse: “Pai, amanhã vou emprestar minha bicicleta a meu amigo Beto, tudo bem?” Eu não gostei muito da ideia, mas balancei com a cabeça que sim.

A que horas ele vem buscar? “Umas oito da manhã”. Isso dele dizer que ia emprestar a bicicleta, de imediato, me veio a imagem de meu pai.

Ué, eu não posso reclamar se vejo no discurso de meu filho uma recomendação de gratidão.

Paz, justiça social, vacina, escambau, tudo está no noticiário, porque eu teria que me preocupar com o fato de meu filho emprestar a bicicleta para seu amigo? Ele não tem bicicleta, insisti? Ele disse: “Não sei, não importa”.

Sozinho no quarto fiquei estalando os dedos, vendo o filme “O tempo e o vento”, (de Jayme Monjardim, 2013), que é baseado no livro de Érico Veríssimo, onde Fernanda Montenegro faz o papel de Bibiana (ela diz ao bisneto que toda guerra é a mesma guerra e que a Terra ficará sempre aí para receber as novas gerações) O filme foi indicação de minha amiga Fátima Freire.

Fiquei ali no meio do filme, entendendo como é o tempo da vida. Lembrei que a professora Zarinha havia me contado, que a minha procura pela palavra, a fez lembrar Drummond, versejando: “Lutar com as palavras a luta mais vã”.

Voltemos a bicicleta. Outro dia fui pedalar ouvindo Alanis Morissette, acho que “Such Pretty Forks In The Road”, oitavo disco de estúdio da cantora canadense, que está nas plataformas digitais. Quase um acerto de contas. Música pop, era de aquário, cabeças rolando e muita gente morrendo.

Se para Vítor emprestar a bicicleta a um amigo lhe traz alegria e a sensação de continuidade, não vejo porque minha preocupação. Bicicleta se empresta? Talvez pela aceitação episódica existente ao longo de nossa vida, nada é nosso, nada nos pertence, até que chego perto do Farol do Cabo Branco e volto pra casa, em mais uma pedalada.

Lembro que perguntei lá no inicio do papo: E se ele quebrar a sua bicicleta? “Pai, se ele quebrar, é o apreço da amizade”.

É isso, o apreço acarreta responsabilidade.

Kapetadas
1 – A pandemia, a aglomeração e o “E daí?” tá me assustando mais do que a Covid.
2 – Ei, Ford, vai tomar o Ka
3 – Som na caixa: “Eu choro de cara suja/ Meu papagaio o vento carregou/E lá se foi prá nunca mais/Linha nova que pai comprou…”, Beto Guedes

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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