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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

O sol da manhã

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publicado em 22/09/2020 às 06h42
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givaldomedeiros@uol.com.br

A pergunta imprevisível foi feita de súbito: – Por que eu não posso me matar?  De súbito, eu responderia: – Por que você não me deixa lhe ajudar? A pergunta, desconcertante, dirigida por uma jovem paciente a meu filho Matheus, residente de Psiquiatria do IPq-USP, calaria a muitos . Verdade que nem sempre é assim tão explícito. Mais do que o desejo de morrer dessa jovem; possivelmente,  estão os traços impulsivos de personalidade.

Alguns são muito discretos, surpreendem a todos, porque ninguém,  nem mesmo na família, poderia esperar por aquela atitude. Outros anunciam, não o desejo de se auto aniquilar; anunciam que a vida não tem mais sentido. Os depressivos dão sinais de tristeza,  falta de energia e nenhum alumbramento pela vida. Um alento: nem toda pessoa com depressão pensa em morte ou morrer, embora seja essa  a grande preocupação de familiares. Pensamentos suicidas aparecem como um sintoma de algumas depressões.

Vejo que há uma certa distorção do setembro amarelo, quando ao invés de se discutir sobre o suicídio, facilmente se deriva a discussão para as depressões.  De outra forma, sou um tanto pessimista com o efeito positivo da campanha, porque a conscientização da população é apenas uma das tantas medidas a serem adotadas. A prevenção passa pela detecção e tratamento das depressões, sim; mas também pela atenção a quem usa álcool e drogas. Atenção a quem sofre de doenças incapacitantes e dor crônica. Acesso a serviços de saúde mental. Apoio emocional a pessoas em luto. Políticas voltadas para a qualidade do trabalho e o desemprego. Então, imaginem que estamos num período favorável ao aumento de casos. Quase 130 mil mortos, apenas pelo vírus, desemprego em alta,  trabalhos precários e baixo poder aquisitivo.

Além dessas ações, há uma mais relevante: o treinamento do pessoal da saúde para lidar com a situação que envolva ameaças, atos ou tentativas de suicídio.  Não temos nada disso. Ainda não temos , no Brasil, um plano; temos intenções que, em si, não são capazes de reduzir esses tristes episódios. Em duas coisas, cada um, isoladamente, pode ajudar. Uma, é convencer qualquer familiar/amigo a buscar ajuda. Levá-lo, se for o caso, oferecer-se para ir junto. Outra, é a capacidade dos profissionais de saúde mental, oxalá de todos,  para avaliarem os riscos suicidas de um paciente, e iniciar intervenções corretas de proteção, medicação, ajuda psicoterápica ou internação.

Outra vez, volto a falar das cores. Branco, roxo, azul, cor de rosa, vermelho, verde, preto, cada uma com seu recado, para que lembremos de olhar para algumas doenças e, essencialmente, para os outros que nos rodeiam. Perceber seus sofrimentos. Reacender sua esperança quando vê-la em fogo baixo.   Sair por aí outra vez e voltar a tudo que nos espera. De preferência, num mundo mais justo e pintado de amarelo pelo sol da manhã.

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