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Jornalista. Ex-repórter do Portal MaisPB e de outros sites de João Pessoa-PB. Pessoense residente em São Paulo. Observadora da vida, gosta de contar histórias em primeira pessoa. Contato: naira.di.lorenzo@gmail.com

Escutar não é contagioso, mas deveria

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publicado em 17/07/2020 às 09h22
atualizado em 18/07/2020 às 07h21
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Fernanda Carvalho/Fotos Publicas

Foto Fernanda Carvalho/Fotos Publicas

“Moça, obrigado por me escutar”, essa frase foi dita a mim essa semana, mais de uma vez pela mesma pessoa, mas também não é a primeira vez que a escuto. Com frequências as pessoas me agradecem só por prestar atenção ao que elas têm a dizer.

O ato de ouvir me ensina muito, a partir dele conheço histórias que me comovem, moldam-me e me mudam, assim como, muitas vezes me inspiram. Os minutos gastos geram no mínimo momentos de reflexões. Nem todas as histórias são boas ou transformadoras, mas nenhuma deixa de ser válida.

Nas ruas os que mais existem são os abandonados, renegados, esquecidos, perdidos, desamparados. O que mais há em nossa sociedade a partir da porta para fora de nossas casas são os invisíveis. Além de precisar de olhos atentos para vê-los, é preciso ouvidos pacientes para escutá-los.

Em São Paulo há tantos desses invisíveis que até os menos vigilantes os percebem. A maioria são moradores de rua, outros tem casa, mas falta o resto, e eles passam o dia e a noite pedindo nas calçadas, nos sinais de trânsito, nas praças.  Uma caminhada rápida e lá estão eles, sentados sob marquises, dormindo debaixo de viadutos, parados em frente a porta de algum mercado.

“Moça, não vou pedir dinheiro não”. Essa também é uma afirmação muito comum por aqui. Ninguém pede um trocado, uma moeda ou um valor específico. Os pedidos variam de saco de arroz, pacote de fraldas ou um prato de comida, por exemplo. Estratégia para conseguir convencer quem por sorte se dispõe a escutá-los.

Para mim, pouco importa o que é pleiteado, eu vou dar o que tenho ou o que quero, às vezes não dou nada. Ao menos tento ser empática, nem sempre acontece também, porém, procuro não falhar neste último propósito.

A pessoa que me agradeceu foi um homem por volta dos seus 40 anos, usando máscara e sem um olho. Ele se dirigiu a mim assim que desci do carro, em frente a uma farmácia. A princípio me agradeceu por ter parado, disse que havia levado uma pedrada no rosto e contou que trabalhava em um restaurante, mas com a pandemia perdeu o emprego. Queria um botijão de gás. Dei quatro reais, longe de pagar o que foi solicitado.

Sinceramente, pouco acreditei no relato. Em uma das mãos ele estava com um folheto de um restaurante. Não me entregou nenhum. Porém, para mim isso pouco importa, eu faço o que posso e escuto sempre que possível, livre de julgamentos. O resto não depende de mim. Ele agradeceu pelo dinheiro e novamente pela escuta.

Ele é apenas mais um em meio a tantos. O grupo de pedintes é heterogêneo com diferentes vivências. Sobram motivos para viver de mendicância e na vulnerabilidade. Muitos têm relações familiares fragilizadas, não possuem emprego e nem o básico para sobreviver.

Meses atrás fui abordada por um rapaz, à noite, na saída do supermercado. Pedia um bilhete de metrô. Eu não tinha nada, só cartão de crédito. Ele foi expulso de casa porque enfim tomou coragem de revelar ao pai que era homossexual. A sentença foi a rejeição. Queria a passagem para tentar abrigo na casa de uma amiga.

Na partilha da história, além de lágrimas, o desespero, a angustia e a vergonha estavam presentes. Eu não o dei nada além do meu tempo, mesmo assim, ele ficou grato. Disse que fui a primeira a ouvi-lo. Voltei para casa sentida por ter feito tão pouco.

Com a pandemia o número de pedintes e moradores de ruas tendem só a crescer e o que não podemos esquecer é que ali são pessoas, seres humanos, nossos semelhantes à margem da sociedade. Muitos são viciados em drogas, álcool ou apenas em pedir e todos procuram meios de subsistência.

Em entrevista à jornalista Joyce Pascowitch, o padre Júlio Lancellotti, que há mais de 35 anos se dedica a trabalhos sociais com o povo de rua, em São Paulo, diz que o objetivo do movimento não é “ser distribuidor de lanche, nem de água”, mas sim, “quebrar a incomunicabilidade”. Para ele, “é no olhar que você lê o abandono, a tristeza, a solidão, a revolta, o carinho e a gratidão”.

Alguns podem até ter o entendimento da primeira-dama do estado de São Paulo, Bia Dória, e não querer dar nem comida para os renegados do asfalto, mas ao menos deviam procurar ouvi-los, conhecer suas necessidades e quem sabe mudar de opinião. Escutar pode gastar um pouco de tempo, mas gera empatia, custa zero reais e, com ou sem coronavírus, não é contagioso, mas deveria.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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