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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: marcos@piresbezerra.com.br

Indo a Canossa

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publicado em 27/06/2020 às 07h00
atualizado em 26/06/2020 às 16h15
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No século XI, tanto os papas como os monarcas tinham poder para a “investidura”, ou seja, podiam ambos nomear bispos da igreja católica. Naquela época o Papa Gregório (foto), ao contrário de outros papas antes dele, decidiu assumir a prerrogativa de nomear bispos com exclusividade.

O rei Henrique IV, da Alemanha, revoltou-se porque necessitava desse poder já que metade das terras e riquezas do reino estavam nas mãos dos bispos, e o rei necessitava delas para impor-se à frente da aristocracia. Por isso o rei não somente não obedeceu ao Papa como nomeou novos bispos para regiões da Itália. O Sumo Pontífice mandou-lhe uma carta censurando seus atos, mas mantendo as portas abertas para a conciliação. Mas era firme em sua missiva: “Gregório, bispo, servo de Deus,, para Henrique, o rei, isto é, se se mantiver obediente à Sé Apostólica, como compete a um rei cristão. Como nós esperamos que a infinita paciência de Deus ainda o conduza ao arrependimento e o que faça mais sábio e com o coração mais disposto a obedecer a Deus, nós o advertimos, com amor paternal, para considerar quão perigoso é colocar a sua honra acima da Dele…”.

O rei Henrique tomou-se de ódio enorme, e respondeu ao Papa: “Henrique, rei não por usurpação, mas pela sagrada ordenação de Deus, a Hildebrando, não papa, mas falso monge…”. Seguia dizendo que estava livre de obediência ao Papa e exigia a sua abdicação.

O Papa Gregório imediatamente excomungou o rei. O resultado dessa excomunhão é que os nobres que acompanhavam o rei abandonaram-no com medo de também serem excomungados.

Sozinho, o rei decidiu voltar atrás e numa reunião com os príncipes germânicos anunciou sua decisão. Eles não aceitaram, condicionando a volta de seu apoio ao levantamento da excomunhão por parte do Papa, chegando a marcar uma data para isso. Se o Papa não levantasse a excomunhão até o dia 22 de fevereiro de 1022, o rei estaria abandonado para sempre e eles, príncipes, iriam escolher um novo rei em uma reunião presidida pelo próprio Papa na cidade de Augsburg, para onde o Papa, inclusive, já se deslocava vindo de Roma.

O rei então decidiu partir ao encontro do Papa, mas não como rei e sim como peregrino. Acompanhado apenas da esposa e do filho, sem qualquer pompa, atravessou os Alpes num dos mais violentos invernos da época, até chegar ao Castelo de Canossa, ao norte da Itália, perto de Parma, onde estava hospedado o Papa. Vestido como peregrino, sob frio intenso, Henrique suplicou por três dias em frente ao portão fechado do castelo. O que segue é a fala do Papa Gregório.

“Depois de muito postergar minha decisão (o rei já havia enviado-me vários emissários) e depois de muitas consultas com seus enviados, nas quais fizemos as mais severas condenações dos seus excessos, ele veio a nós, por sua própria vontade, sem mostrar nem hostilidade nem atrevimento, à cidade de Canossa, onde nos encontrávamos. E lá, deixando ao chão todos os símbolos de realeza, descalço e vestido com a mais comum das lãs, ele ficou em pé e esperando por três dias na frente do castelo, sem desistir de implorar, com muitas lagrimas, até que conseguiu comover a todos lá presentes, que a nós vieram suplicando pelo seu perdão. Finalmente vencido por sua persistência e pelas suplicas de todos que lá estavam, nós decidimos revogar o anátema e recebê-lo, no favor da comunhão e no seio da sagrada mãe igreja”.

A humilhação, o arrependimento e o reconhecimento do erro permitiram a Henrique recuperar o trono, mas a partir de então somente coube ao Papa a designação dos bispos.

Qual o político que você acha que precisa ir a Canossa?

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