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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Somos todos verbetes

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publicado em 13/06/2020 às 09h13
atualizado em 13/06/2020 às 09h00
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Estou ensaiando sinfonias de carícias quando só palavras me acompanham nessa pandemia e acabo por adormecer ao som do Namastê. É tão belo. Puxa vida! Nunca mais delirei. Delírio é um verbete, Sr. K!
Meus olhos castanhos imaginam nus femininos, noites, galos e quintais num silêncio escrupuloso, desenhando gozos nos encartes dos discos de Ella Fitzgerald. Ô sorte! Mas a sorte é um verbete.

Noites pelos sofás, transas em todos os cômodos quando tudo se aceita de um amor. O amor é um verbo ou um verbete? Para não cairmos em tentação, fechamos os olhos em intermitência. A vida presta. A vida é um verbete.

Tudo no mundo é um verbete, já disse o poeta Paulinho Assumção. Tudo é verbete: “a infinidade e a infinitude” na paisagem do meu jardim. Tudo é verbete, repito, e leio, passo as páginas dos livros. Livro é um verbete. Caravaggio é um verbete.

O besouro, os gatos Dudé e Tica, o andarilho e sua sombra. Tudo é verbete. O texto do Osias é um verbete.
Verbete: o ponto luminoso do computador. A coisa que entra e sai da superfície molhada, que é o túnel do prazer. A luz no fim do túnel é um verbete. A rasura do mundo. A mona que alisa é um verbete.

A lâmina rasa, a faca amolada e os loucos dentro de suas casas no abominável mundo novo povoado de Covid 19, no ano que não existiu. “Verbete-ômega”, verbete antidepressivo, verbete uivo do cão Bola, verbete que não me sai do meu pensamento.

É também verbete o poema erótico de Irene Dias, quando ela grita silenciosa e irradia clarões na treva que trava a página de seu romance, que vai do pênis ao coração. Meu ser, seres ou não seres, como um cego a apalpar o invisível.

Verbete alma, verbete medo, verbete grito, verbete música. Tudo no mundo é um verbete. A enciclopédia da tarde e a sombra do pé de manga espada. A manga é um verbete e pode ser uma grana. Verbete é o canto do meu filho no seu quarto, acho que canta Bob Dylan.

A casa é um verbete, o mofo no teto provocado pela chuva, o retrato do meu pai na parede e o musgo no portão. Os botões da blusa da canção do Roberto é um verbete. A pasta de dente, a barata de Kafka. Chinelada.

Lá na calçada o verbete das coisas do lá-fora, a anciã e seu cachimbo e a jovem senhora envergonhada com seu corpete vermelho. O texto de Marcílio Franca é um verbete. Dona Candinha de Heron Cid é um verbete. Minha amiga Fátima é um verbete.

Essa monotonia é verbete, esse tédio na boca da noite, da boca pra fora, no céu da boca e a boca de fumo é um verbete. Verbetes da traição da moça que espalha meus posts de madrugada buscando o ódio e pede perdão. O perdão é um verbete. A arte é um verbete e máscara também.

A falência dos órgãos do mundo, a falta de grana, “verbete cortado ao meio e logo ajuntado aos fragmentos”. Bessanger era um verbete. No final das contas, somos todos verbetes mas a vida é real e de viés. Onde estávamos?

Kapetadas
1 – Pra que fila esperando o shopping abrir? Que desespero é esse pra fazer dívida!
2 – Será que as abelhas praticam o pólen amor?
3 – Som na caixa: “Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun, Homenina nel paraís de felicidadania”, Caetano Veloso

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