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Antônio Colaço Martins Filho é chanceler do Centro Universitário Fametro – UNIFAMETRO (CE). Diretor Executivo de Ensino do Centro Universitário UNIESP (PB). Doutor em Ciências Jurídicas Gerais pela Universidade do Minho – UMINHO (Portugal), Mestre em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal), Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Autor das obras: “Da Comissão Nacional da Verdade: incidências epistemiológicas”; “Direitos Sociais: uma década de justiciabilidade no STF”. E-mail: colaco.martins@unifametro.edu.br

O Homem-massa virtual na era covidiana

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publicado em 13/06/2020 às 09h11
atualizado em 13/06/2020 às 09h10
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Em 1929, José Ortega y Gasset ( filósofo espanhol nascido em 9 de maio de 1883 em Madri),  denunciou a emergência do homem-massa, cuja conduta caracterizou, entre outros aspectos, pela convicção de que é capaz de emitir opiniões sobre todo e qualquer assunto. Hodiernamente, floresce nas redes sociais um rol de comportamentos análogos àqueles descritos pelo escritor espanhol. A noção de que todos são iguais e especiais – independentemente das capacidades inatas e do esforço pessoal – impele muitas pessoas a concluir que já possuem todos os elementos necessários para forjar ideias sobre todo e qualquer assunto.

Assim, convicto de sua autossuficiência intelectual, o homem-massa virtual emite opiniões peremptórias e inegociáveis sobre assuntos que não domina (p. ex. diagnóstico e tratamento de doenças, pandemias, manipulação genética, políticas públicas de saúde, geopolítica etc). O “hermetismo intelectual” é potencializado pelas redes sociais, onde opera em modo binário e superficial, ao sabor dos likes e dislikes.

Assim, o homem-massa virtual esconjura opiniões que violem o seu credo político; curte e dissemina o que faz coro com seu “repertorio de ideias”; é condescendente com manifestações infundadas, que acolhe e compartilha, desde que se compaginem com suas preconcepções; esquiva-se de questionamentos e se mostra cético em relação a informações que ponham em xeque seus ídolos, em que pesem os sobejos argumentos em sentido contrário. Em suma, rejeita a própria ideia de aprofundar argumentos que divirjam do seu conjunto de crenças, da sua estreita visão de mundo.

A bem da verdade, a atitude do homem-massa não é um traço de personalidade que acomete certos indivíduos intelectualmente menos afortunados ou relapsos, mas pode estar presente em nossas atitudes cotidianas virtuais e analógicas. Tendo em vista a mixórdia de informações que nos invadem os écrans e tomam nossa atenção de sequestro, é forçoso reconhecer a inviabilidade de emitir opiniões sensatas, equilibradas e racionais sobre todo e qualquer assunto.

A humildade intelectual recomenda que nos abstenhamos de tecer comentários quando nos falta conhecimento acerca da matéria. Ademais, tendo em vista que nossa atenção é limitada, faz-se necessário restringir a quantidade de informações a que nos expomos. Nesse sentido, o conjunto de valores que nos são mais caros devem servir como bússola, a nos orientar acerca do que investigar com mais afinco e do que desprezar.

O respeito aos valores próprios e dos outros ganha cada vez mais importância numa época onde as velas da vaidade fremem, ao sabor dos ventos, alimentando as veleidades dos perfis virtuais.

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