João Pessoa, 06 de junho de 2020 | --ºC / --ºC Dólar - Euro

ÚltimaHora

Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Machado não era sectário

Comentários:
publicado em 06/06/2020 às 10h06
atualizado em 06/06/2020 às 07h19
A- A+

O escritor José Américo se parecia com ele mesmo. Essa história que não figura espanto, aconteceu num carnaval do Rio de Janeiro, quando o autor de A Bagaceira, (romance publicado em 1928), foi reconhecido pelos foliões, na Lapa. O romance traz a saga dos sertanejos numa seca que parece se arrastar até hoje, nesse chove não molha. Eu não me pareço comigo mesmo.

Além de Soledade, eu queria ser seu pai, Valentim Pedreira, sem necessariamente precisar das outras personagens do romance de Zé Américo. Cada pessoa representa uma cena. Eu me represento e apresento transformações, mas não quero falar sobre Zé Américo. Nunca fui seu leitor assíduo, (só li A Bagaceira), mas meu amor por Soledade é uma questão epidérmica.

Vez em quando reencontro pessoas do passado (como se este fosse um lugar) que me atribuem frases, gestos ou transas, de que não me recordo. Meus amigos de infância, uma amiga da minha mãe, outra que diz ser minha prima escambau.

Eu queria mesmo era esbarrar naquela morena que foi embora para São Paulo ou cruzar a outra, a loucura de ter amado uma mulher, que não posso dizer o nome. Esqueçam, ela tem dono. Eu acho cruel uma pessoa ter dono.

Vencido um certo desconforto – parece que estamos a falar de uma terceira pessoa, ausente – sobre uma sensação de quase culpa por não ter guardado essas memórias devidamente, a que se junta a súbita consciência de que a memória não nos pertence. As maravilhas ficaram para trás, os horrores não sei.

O nosso passado assemelha-se a uma civilização perdida, da qual se encontram espalhados pelo mundo vestígios, não arqueológicos, é claro, mas mnemónicos, que nos transformaram para sempre em seres incompletos. Sim, somos incompletos.

Se eu voltasse a cidade em que nasci há 60 anos, certamente, não reconheceria as ruas, as casas “emendadas”, a casa de Seu Papata, (amigo de meu pai), o Bar de Seu Moisés ou a Bodega de João Menino. Não quero falar sobre isso. Talvez na luz transfigurada de outras manhãs.

Outro dia estava lendo Machado de Assis. Em “Ressurreição”, no primeiro capitulo, “No dia de um ano bom”, reencontro Felix, que num dia esplêndido abriu a janela e cumprimentou o sol. Isso é demais. Onde está o médico das flores de Vinícius de Moraes, para nos tirar dessa pandemia esquisita, estupida, em tempos de modernização tardia?

Nesses vídeos contra o racismo, estou a lembrar de Machado, que poucos leem. Machado era pobre, negro e epilético. Nascido nessas condições, o escritor foi além. Sabia como ninguém as situações completamente adversas para que se ele se tornasse, ainda em vida, um dos mais importantes brasileiros de todos os tempos. Muitos não sabem nada de Machado. Nem notícia. O maior escritor do Brasil.

Machado não reclamava da vida. Era sobre ele que eu queria escrever. O preto que não era sectário. Pixinguinha não era sectário. Dom Pelé não era sectário. Tanta gente é!
Viver é na prática.

Kapetadas
1 – Como vai o gabinete do ócio?
2 – Tõ aqui de boas tomando um porre de café.
3 – Som na caixa: “O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas, em cardinales bonitas, eu vou”, Caetano Veloso

error: Alerta: Conteúdo Protegido !!