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“A maternidade me curou”

Mãe lutou contra câncer em duas gestações

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publicado em 13/05/2018 ás 12h11
atualizado em 13/05/2018 ás 16h55

A maternidade pode ser considerada uma aventura. Antes mesmo do nascimento, a mãe mesmo experiente, pode provar as sensações do medo, surpresa, incerteza – por vezes tudo junto. A responsabilidade de gerar e administrar outra vida cria circunstâncias e reposiciona prioridades. Nada é como antes. Quem bem sabe bem disso é a administradora Núbia Françoise. Em sua segunda gravidez ela descobriu um câncer e precisou decidir entre continuar a gestação e iniciar o tratamento da doença.

Núbia sequer pensou duas vezes. “Minha filha é minha prioridade. Se eu chegar até o fim da gestação, faço o tratamento”, decretou. Na época, Sophia estava com seis meses na barriga da mãe. Os médicos sugeriram um parto prematuro, mas não conseguiram fazer Núbia mudar de ideia. “Se eu fizesse o parto prematuro e minha filha não sobrevivesse, eu jamais me perdoaria”, conta.

Decisão acatada, a gestação seguiu sem problemas. “Ela nasceu perfeita, a mais linda do mundo”. No entanto, a felicidade do nascimento precisou ser comemorada de forma rápida. Núbia ainda precisava tratar os diversos tumores que cresciam em seu corpo.

“Por alguns momentos me vi me perguntando o que eu iria fazer da minha vida”, conta Núbia, que precisou escolher entre a gestação e o tratamento de câncer.

Antes de começar as sessões de quimioterapia, uma tuberculose ganglionar precisou ser tratada. O relógio corria e as chances de vida iam sendo reduzidas.  Quando finalmente começou o tratamento contra o câncer, a mãe se viu impossibilitada de cuidar da filha. Os efeitos colaterais da quimioterapia a impediam de acompanhar de perto a recém-nascida. Foi quando seu então marido e pai de Sophia a abandonou.

Sozinha, com duas filhas pequenas e um câncer em tratamento, Núbia entrou em depressão. “Eu me perguntava o que ia fazer de minha vida. Não tinha força psicológica, nem física para cuidar de mim e do bebê”.  Mesmo com as dificuldades, as sessões de quimioterapia seguiam.

Como reflexo da rotina de cuidados, era comum o mal-estar. A administradora se acostumou com as constantes sensações de enjoos e indisposição, mas um dia, passou tão mal que precisou ser levada a um hospital. Por seguir um tratamento delicado, Núbia fez uma bateria de exames. O que era para ser mais uma consulta, mudou ainda mais a história dela.

“Na hora da tomografia, a médica começou a repetir o exame diversas vezes, e não dizia nada. Eu comecei a ficar preocupada, imaginei logo que minha situação estava ainda pior”.  A tomografia não conseguiu identificar o que havia no corpo de Núbia, e a situação ultrapassou suas expectativas.

Ao fazer uma ultrassonografia, a imagem foi desvendada: Núbia estava grávida. A gestação caminhava para as cinco semanas, e se tratava de gêmeos. “Eu não sabia se chorava ou ria. Era um misto de sentimentos”, conta.

A incredulidade logo deu lugar à preocupação, já que os bebês haviam sido expostos ao tratamento, agressivo, da quimioterapia.  O exame mostrou que um deles não resistiu, mas a imagem também exibia o outro bebê que crescia forte e saudável.

Com a descoberta no meio do tratamento, Núbia mais uma vez precisava escolher entre a gestação e o tratamento. Mesmo diferente fisicamente –  sem cabelos e extremamente magra – por dentro nada havia mudado. Mais uma vez, a maternidade guiou sua decisão.

“Por conta da doença, eu nem poderia estar grávida, a possibilidade para isso acontecer é mínima. Se eu estou, isso tudo está acontecendo por um motivo, não vou interromper a gestação”, resolveu. A possibilidade do aborto foi apresentada pelos médicos. Núbia estava consciente de que não teria o apoio do ex-marido, e seguiu firme com sua decisão: “Vou ter esse bebê, e quando ele nascer, eu retomo a quimioterapia”.

Durante toda a gestação a paraibana foi avisada pelos profissionais do quadro delicado de sua saúde. Os médicos deixavam Núbia informada de que as chances de cura do câncer eram cada vez menores. Mas na caminhada rumo à maternidade, ela decidiu ignorar a lógica das probabilidades.

Mesmo com o corpo fraco e com resquícios da quimio, o filho era nutrido, cuidado e acalentado dentro de sua barriga. E as probabilidades continuaram sendo irrelevantes nessa história. Aos nove meses, a terceira filha de Núbia nasceu sem qualquer anomalia.  Laura foi exposta à radiação e substâncias tóxicas na quimioterapia, mas resistiu. “Quando ela nasceu vi que estava perfeita, e pensei: ‘tem alguém no céu que gosta de mim”, relata.

Como da outra vez, reuniu forças para retomar o processo da cura. Na primeira consulta depois do resguardo voltou ao consultório ciente da consequência de suas escolhas. Ao entregar à médica o resultado dos exames para identificar o avanço do câncer, só a maternidade importava. “Se eu tiver pouco tempo de vida, me diga para eu ajeitar as coisas para minhas filhas”, avisou à médica.

A reação da profissional a assustou. “Ela não dizia nada, só olhava para os papeis. Ela olhou uma, duas, três vezes para o papel e não disse nada. Eu comecei a imaginar as piores hipóteses”, conta. O silêncio foi interrompido quando a oncologista contou que todos os tumores haviam sumido.

Laura, de seis anos, ainda estava na barriga quando Núbia passou pela quimioterapia sem saber que estava grávida.

Não havia qualquer sinal de câncer no pescoço, ou em qualquer lugar  – até um linfoma de oito centímetros localizado entre os pulmões desapareceu.  Não havia sequer reação para o momento. Junto com a profissional, que testemunhou a cura sem motivos, Núbia chorava sem acreditar no diagnóstico.

“Se eu tivesse abortado minha filha, eu ainda estaria doente e sem certezas de cura”, avalia.  Sete anos depois do fim desse capítulo, a administradora ainda conta a experiência sem esquecer dos detalhes, mas ainda não entende tudo que viveu.

A história de Núbia até hoje não pôde ser explicado pelos especialistas. Guiada pelo instinto materno, ela viveu um milagre ainda sem respostas. As sessões de quimioterapia que foram interrompidas na metade do tratamento, por conta da gestação, nunca precisaram ser concluídas.

Mesmo sem comprovação científica, a paraibana carrega só uma certeza e resposta para tudo o que aconteceu:

“A maternidade me curou”.

Caroline Queiroz – MaisPB