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Se você pretende saber quem é Maria Valéria Rezende, eu posso te dizer: grande escritora que percorreu as curvas da estrada de Santos, rodou o mundo, leu pessoas, tornou-se freira, ganhou prêmios literários (dois Jabutis, inclusive) e decidiu (para nossa sorte) fixar residência em João Pessoa desde a segunda parte da década de 1980. Seu romance mais recente, ‘Quarenta Dias’ (editora Alfaguara), será lançado no Café Galeria Louro&Canela (avenida João Maurício, 1443, Manaíra), na capital paraibana, a partir das 18h00. Dia 27 deste mês, o lançamento será na cidade de Guarabira, no Brejo.
Em 248 páginas, ‘Quarenta dias’ tem como protagonista uma professora aposentada, que vive em João Pessoa. A vida pacata vai para as cucuias quando a professora Alice é obrigada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar a Porto Alegre (RS). Uma reviravolta familiar deixa Alice à deriva em um ambiente periférico de desconhecidos dédalos. Ao saber que Cícero Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba, desapareceu em algum lugar de Porto Alegre, Alice assume a missão de encontrá-lo. Quiçá, ache primeiro a loucura…
Para escrever o romance, Maria Valéria Rezende – de 72 anos de idade – morou na rua e conviveu com pessoas de áreas paupérrimas da periferia de Porto Alegre. “Fui às favelas, que lá eles chamam de vilas. São locais da cidade que a população desconhece. Áreas que não estão nos cartões-postais”, disse Maria Valéria.
A romancista assumiu seu lado gonzo ao valer-se do empirismo para, posteriormente, criar sua obra de ficção. “Tem que escrever a partir do vivido. Da experiência. E até mesmo uma reportagem precisa de uma boa dose de imaginação. E uma boa ficção é uma mentira que parece verdade”.
“Quarenta dias no deserto, quarenta anos. (…) Eu não contava mais horas nem dias”, escreve Alice em Quarenta dias, um relato interpessoal. “Guiavam-me o amanhecer e o entardecer, a chuva, o frio, o sol, a fome que se resolvia com qualquer coisa, não mais de dez reais por dia (…) Onde andaria o filho de Socorro?, a que bando estranho se havia juntado, em que praça ficara esquecido?”.
Livrarias e livro digital
Os livros estarão à venda na noite desta quarta-feira. E com desconto! Nem tente procurar esta publicação de Maria Valéria Rezende nas livrarias de João Pessoa. ‘Quarenta dias’ está nas livrarias de Rio de Janeiro e São Paulo, mas – inexplicavelmente – não chega às livrarias da Paraíba. “É estranho que não esteja à venda aqui em João Pessoa. Dá para comprar até pela Internet, mas não nas livrarias da aqui”, lamentou a escritora. Para o lançamento desta quarta-feira, ela teve de encomendar os livros junto a sua editora.
E de Internet Maria Valéria Rezende, antenada, entende bastante. Aos 72 anos de idade, ela transita muito bem pelas redes sociais, aplicativos e sites de venda. Ela contou que, no momento, está envolvida com a curadoria de um livro digital, que estará disponível (claro!) apenas na rede mundial de computadores.
O livro é uma coletânea de autores e sairá pela editora Mombak, que ainda não decidiu se fará o lançamento antes ou depois da Copa do mundo da Fifa. “Ainda estão avaliando se haverá leitores durante a Copa do Mundo”, brinca Maria Valéria.
Ela avalia que o livro digital é uma tendência impossível de barrar, pelo acesso mais fácil e pelo preço mais baixo. “Não precisa nem do Kindle [aplicativo para smartphones e tablets]. Basta um aplicativo de leitura”, disse ela.
A romancista acredita, ainda, que o formato digital pode democratizar o acesso á leitura. “Sobretudo no Brasil, onde há distorções na distribuição dos livros. Eu, a partir de agora, só vou ler livro digital. Nem tenho mais espaço para livros na prateleira! E mais: espaços habitacionais estão cada vez menores”, argumentou.
Ricos e ociosos
Maria Valéria Rezende é de uma família aristocrática do estado de São Paulo. Arte, cultura e oxigênio sempre foram tão essenciais quanto comuns na vida da autora. Desde a infância. Sobrinha-neta de Vicente de Carvalho e sobrinha de Maria José Aranha de Rezende, Maria Valéria é de uma família de intelectuais e escritores. “Escrever sempre fez parte de minhas duas famílias. Cresci achando que escrever um livro era algo que todo mundo fazia. Convivia com muitos escritores em casa.
A estréia como ficcionista, todavia, somente aconteceu em 2001, quando a romancista temporã lançou o livro de contos ‘Vasto mundo’. Depois, escreveu livros infanto-juvenis e o elogiado romance ‘O Voo da guará vermelha’.
Seus livros conquistaram diversos prêmios, como o Altamente Recomendável (por ‘Modo de apanhar pássaros à mão’, em 2007), Prêmio Jabuti (‘No Risco do Caracol’, em 2009), Finalista do Prêmio Jabuti (por ‘Conversa de Passarinhos’, em 2009) e 3º lugar no Prêmio Jabuti (por ‘Ouro Dentro da Cabeça’, em 2013).
Ela tem três livros inacabados. No momento, está tentando terminar ‘Outros cantos’. O primeiro capítulo já foi até publicado no jornal Cândido, do Paraná. “mas, não tenho tempo de concluir o livro. Escrever exige tempo. E eu só escrevo uma vez por semana. Ás vezes, de 15 em 15 dias. E quem trabalha muito não tem tempo de escrever”. O perfil ideal do escritor é ele ser rico e ocioso, conforme Maria Valéria, uma realidade impossível nos tempos de hoje. “Admiro quem escreve muito, mesmo sem ter muito tempo. Tarcísio Pereira, por exemplo, produz muito! Não sei se ele psicografa…”, brincou Maria Valéria
Um pouco de Valéria
Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba. Foi exilada após o Golpe Militar de 1964. E desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais.
OBRAS
Romances
O Voo da Guará Vermelha (182 págs.) – 2005, Objetiva
Quarenta Dias (248 págs.) – 2014, Alfaguara
Contos & Crônicas
Vasto Mundo (144 págs.) – 2001, (nova edição no prelo), Objetiva
Modo de Apanhar Pássaros à Mão (136 págs.) – 2006, Objetiva
Infanto-juvenil
O Arqueólogo do Futuro (63 págs.) – 2006, Planeta
O Problema do Pato (48 págs.) – 2007, Planeta
No Risco do Caracol / il. Marlette Menezes (32 págs.) – 2008, Autêntica
Conversa de Passarinhos – Haikais para crianças, co-autora: Alice Ruiz / il. Fê (80 págs.) – 2008, Iluminuras
Histórias daqui e d’acolá / il. Diogo Droschi (96 págs.) – 2009, Autêntica
Hai-Quintal – Haicais descobertos no quintal / il. Myrna Maracajá (40 págs.) – 2011, Autêntica
Ouro Dentro da Cabeça / il. Diogo Droschi (104 págs.) – 2012, Autêntica
Jardim de Menino Poeta (32 págs.) / il. Maurício Veneza – (2012), Planeta
Vampiros e outros sustos / il.: Rubem Filho (80 págs.) – 2013, Dimensão
Edições Estrangeiras
Espanha / Catalão: O Vôo da Guará Vermelha (El vol de l’ibis roig) – 2008, Club Editor 1984, sl.
Espanha: O Vôo da Guará Vermelha (El vuelo de la ibis roja) – 2008, Alfaguara (direitos revertidos)
França: O Vôo da Guará Vermelha (Le vol de l’ibis rouge) – 2008, Éditions Métailié
Portugal: O Vôo da Guará Vermelha – 2007, Oficina do Livro
Prêmios
Altamente Recomendável, FNLIJ, 2007, por Modo de apanhar pássaros à mão
Prêmio Jabuti, Câmara Brasileira do Livro, Literatura Infantil, 2009, por No Risco do Caracol
Finalista do Prêmio Jabuti, Câmara Brasileira do Livro, Categoria Juvenil, 2009, por Conversa de Passarinhos
Ouro Dentro da Cabeça – 3º Lugar, Categoria Juvenil – Prêmio Jabuti, CBL – 2013
Jãmarrí Nogueira
"PRÓXIMOS DIAS" - 23/01/2026