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Jornalista, cronista, diácono na Arquidiocese da Paraíba, integra o IHGP, a Academia Cabedelense de Letras e Artes Litorânea, API e União Brasileira de Escritores-Paraíba, tem vários publicados.

A dor traz gesto poético    

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publicado em 28/02/2024 às 07h00
atualizado em 27/02/2024 às 13h42

 

 

Em poema antológico, o monge beneditino Marcos Barbosa, da Academia Brasileira de Letras, fala do amor do homem e da mulher quando formam um casal, reproduzem a espécie humana como dom supremo de Deus e enfrenta com serenidade todas as barreiras que se lhe impõe.

Neste mês, em Araruna, um casal completou 75 anos de matrimônio. A data foi celebrada com simplicidade, mesmo grande a alegria de seus familiares.

Já tive oportunidade de testemunhar gesto de amor semelhante, quando casais invocaram benções na celebração de 50 e de 65 anos de casamento.

Um desses momento, o casal vivia momento de dor. Há mais de quinze anos ele estava em estado vegetativo, intercalando os dias entre a cama de um hospital e o leito de sua casa.

Na leitura da Carta de Paulo aos Coríntios ouvimos que Deus é fiel para conosco. Dessa fidelidade vem a força para suportarmos as inquietações, as dores que estão fora no nosso controle e com as quais convivemos.

Tudo o que acontece conosco são do plano de Deus. Ele nos fortalece e alimenta para transpor as barreiras que, não tivesse sua mão, dificilmente daríamos passos para frente.

A maior prova de amor, no dizer Jesus, é doar-se pelo outro. Doação que ultrapassa os limites físicos e do entendimento porque alimentada pela força que brota do encontro com Deus, na pessoa do outro. O que acontece para tanta dedicação e aceitação do outro, sobretudo na dor e no sofrimento, está além de nossos entendimentos porque vem das energias cósmicas que nos governam, que é o próprio Deus.

Somente quem faz o encontro com Deus, no seu silêncio, é capaz de amar e nunca esquecer. Tantas pessoas largam tudo para servir, e servindo fazem esse encontro com Deus. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, disse Jesus para seus seguidores.

Grande é a arte do amor, como nos ensinou o mestre do Amor. Somente no amor é possível viver 50 ou 75 anos de uma união abençoada no Sacramento do matrimônio. Aprende-se a amar cultivando a arte da contemplação do belo, na paciência, na capacidade de perdoar quem estar ao nosso lado.

Não fosse o amor, dificilmente haveria esperança. Amar é estar à disposição para servir, dedicar-se ao escolhido. Amar é transformar a vida numa primavera, não importando a situação porque o amor tudo supera.

A semente do amor semeada faz a vida brotar em cada semente germinada.

O poeta Ferreira Gullar disse que a dor física é paralisante, não inspira poesia. Não concordo com ele. A doação por quem sofre a dor física é poesia. Na Cruz, o gesto de Jesus foi altruísta, profundo, afetivo e poético. Na sua dor, Cristo produziu solidariedade com gesto poético.

Porque mais sensíveis e mais poéticas, em certas ocasiões, as mulheres portam gestos caritativos mais profundos do que os homens, se dedicam aos outros com fervor.

Nos gestos destes casais temos uma demonstração capital do cumprimento da promessa de estarem juntos ao escolhido em todas as circunstâncias, na alegria e na tristeza, mesmo que a dor do sofrimento exija superação. Tudo é bonito sinal de afeto, construído na fé e no amor ao próximo.

O amor faz a pessoa capaz de conviver com seu amado no leito de hospital, recolhido aos cuidados de Deus pelas mãos de médicos, das cuidadoras e acompanhantes. Amar é servir.


* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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