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Jornalista, cronista, diácono na Arquidiocese da Paraíba, integra o IHGP, a Academia Cabedelense de Letras e Artes Litorânea, API e União Brasileira de Escritores-Paraíba, tem vários publicados.

Crispim, 15 anos do adeus 

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publicado em 06/12/2023 às 07h00
atualizado em 05/12/2023 às 14h57

 

Neste 06 de dezembro de 2023 lembramos com saudade dos 15 anos do adeus ao poeta, cronista, jornalista, romancista, professor e advogado Luiz Augusto Crispim que naquele sábado nublado da Primavera, foi embora para viver na Órbita que sempre sonhou, sem se despedir de nós.

O tempo passou, mas as lembranças aumentaram a saudade porque Crispim, como poeta e cronista telúrico, continua alimentando nosso olhar à cidade onde nasceu a partir dos escritos deixados em livro e nas páginas dos jornais. O homem fica na mente e nos corações dos amigos e no lugar onde morava, seja pelas palavras ou pelas obras edificadas e nos abraços concedidos.

De Crispim sempre fazemos memória. Lembramos da despedida quando olhamos seu corpo inerte. Era um domingo nebuloso, com chuvas passageiras em alguns pontos da cidade, inclusive na área do Cemitério Parque das Acácias, em João Pessoa, onde seu corpo foi entregue à terra mãe, que o acolheu sorridente para em seguida entregar sua alma aos anjos que a conduziu à dimensão tanto sonhada.

Recordamos o dia em que os familiares, amigos e admiradores de seus belos textos, a crônica cotidiana que iluminava nossas manhãs, na mesma linha lírica do mestre Carlos Romero, que também ganhou dimensões privilegiadas em espaço onde estão os iluminados, fomos para o último adeus a Crispim. Era domingo quando, ao redor do féretro velado na Academia Paraibana de Letras, todos em contrição elevaram preces e orações ao Alto. Assim como Jesus chorou pela perda do amigo, alguns ali, silenciosamente, recolheram o pranto que inundava a alma.

Na missa de corpo presente, sua esposa Adília e os filhos Tereza e Luiz Augusto permaneceram junto ao corpo imóvel, enquanto Padre Luís Well ministrava as exéquias de despedida, auxiliado pelo então reitor do Unipê, professor José Loureiro Lopes, ex-padre e igualmente integrante da Academia. O caixão estava envolto com bandeira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PB) e junto as insígnias da Academia Paraibana de Letras que, por um período de três anos, foi seu presidente, o mais jovem a administrar a Casa de Coriolano de Medeiros, onde ocupava a Cadeira 3.

Por volta das 16h00, em um carro do Corpo de Bombeiros, o caixão foi transportado até o campo santo, percorrendo ruas que lhes serviram de inspiração.

Dois anos antes de sua passagem para a outra vida na casa do Pai, Luiz Augusto Crispim tratava de um câncer de próstata, sem sucesso, mas, mesmo assim, continuava atuando na advocacia e na imprensa, como sempre fez desde o tempo de sua juventude. Passou por inúmeras buscas de cura com tratamento que a ciência dispunha, mas sem o sucesso desejado.

No dia 28 de novembro foi internado no Hospital da Unimed, com insuficiência respiratória. Tendo recebido os cuidados médicos que no primeiro momento apresentaram resultados satisfatórios com a retirada da secreção dos pulmões. Todos acreditavam na recuperação definitiva. Mas dias depois a saúde voltou a se agravar, até que no dia 06 de dezembro, às 19h45, os médicos anunciaram sua morte. Logo a notícia se espalhou e causou enorme comoção entre os amigos e nas redações dos jornais, rádios e televisões que noticiaram o acontecimento.

No calor da emoção, junto do caixão, Luiz Augusto Filho afirmou que o seu pai continuaria sendo “o norte e o exemplo” a serem seguidos, e assim procedeu desde sempre. Inclusive, dando prosseguimento ao Memorial idealizado pelo pai para guardar sua biografia e a genealogia da família. “Sempre buscarei seu exemplo. Seu exemplo de homem, de profissional, sua ética. A ética fazia parte da sua vida, assim como o amor aos filhos”, disse.

Mesmo no leito onde se recuperava da doença, Crispim dava lições de vida. “Meu pai foi e é uma grande referência, não só para mim, mas pata todos. Ele não só falava para as pessoas, ele distribuía sabedoria em tudo que falava. Tudo que fazia, ele fazia direito, por isso era bom e reconhecido em tudo”, acrescentou.

A Academia Paraibana de Letras entrou em período de luto de 30 dias. Na época, o presidente da entidade, Juarez Farias, destacou que Crispim era um intelectual comparável aos grandes nomes da literatura brasileira. “Ele faz parte do grupo daquelas pessoas que entram na seleção de nível superior da cultura paraibana, como Augusto dos Anjos, José Lins do Rego e José Américo”, afirmou.

Na época, o poeta Luiz Avelima afirmou que Luiz Crispim foi um dos mais importantes nomes da intelectualidade paraibana e que “era uma pessoa extremamente interessante, especialmente como escritor. Ele tratava os temas de uma forma interessante e crítica e essa característica sempre se destacou”.

Para Gonzaga Rodrigues, o amigo Crispim era uma grande figura humana, um homem completo. “Ele fez questão de se fixar na terra e não se encantou com os acenos do exterior.  Nisso, ele imitou José Américo, que escreveu para o Brasil sem sair da Paraíba”.

Conheci Crispim em meados da década de 1970 no Jornal O Norte, onde era redator e eu, iniciante, recém-chegado à redação, observava o jeito dele tratar os colegas e agilidade com que copidescava nossos textos e produzia ali mesmo, no calor da redação e na barulheira das máquinas de datilografia, a crônica que era publicada no dia seguinte. Me causava admiração a maneira como produzia seus textos. Tempos depois nos reencontramos na Assessoria de Imprensa do Governo do Estado, ele secretário, eu repórter, mas sempre com o mesmo trato para com seus subordinados. Sempre foi uma pessoa solidaria e de fino trato.

Para o cronista Carlos Romero, “Luiz Augusto Crispim, com muita acuidade, sabe flagrar o trágico e o cômico da vida. Um cronista sério, sem ser solene”.

Na Imprensa – Luiz Augusto da Franca Crispim nasceu no dia 23 agosto de 1945, filho do casal Napoleão Crispim e Maria Tereza da Franca Crispim. Casado com Adília Espínola da Franca Crispim, era pai de dois filhos, Luiz e Tereza.

Crispim cresceu sentindo-se irresistivelmente atraído para escrever poesia e crônica, e tudo o que escrevia tomava a forma poética. Mesmo exercendo atividades públicas, nunca se afastou dos espaços da cultura. Cedo começou a se dedicar de corpo e alma à literatura. Logo seu talento aflorou, produzindo textos fluentes e elegantes, crônicas-poemas que se tornaram célebres, lidas e admiradas por uma legião de leitores. Entre os grandes cronistas da Paraíba, Crispim ocupar destacado lugar nesse seleto grupo. Cedo angariou admiração, sendo cotejado pela sociedade intelectual da cidade.

Estudou no Grupo Escolar Epitácio Pessoa, no Colégio Pio X e no Liceu Paraibano. Formado em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba, sendo ainda graduado em Língua e Literatura Francesa. Também fez curso de Administração Financeira e Pesquisa de Marcado.

Tendo iniciado cedo atividades nas redações, exerceu funções de destaques nos jornais, inclusive de direção no Jornal A União em meados da década de 1970, e no Jornal O Norte, até se transferir para o Jornal Correio da Paraíba, ali iniciou suas atividades e, anos depois retornando, permaneceu 24 anos como cronista diário. Foi correspondente da Revista Visão, do Jornal O Globo e da Folha de S. Paulo e outros jornais de circulação nacional. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a reportagem sobre o incentivo a uma economia de cordel (1975). Na esfera do governo, ocupou a Secretaria de Comunicação, foi presidente da PBTur e presidente da Fundação Cultural José Lins do Rego, Secretário de Cultura do Estado e professor de Comunicação da UFB e da Faculdade de Direito, entre outros destacadas funções públicas.

Como escritor, publicou diversos trabalhos, destacando-se “Por uma estética do real”, “O arco e a fonte”, “Os anéis da serpente”, “A expiação de Orfeu”, “Poemas da estação”, “Os pecados da tarde”, “As artes da paixão”, “Os delitos da glória”, “A dama da tarde”, “O herói sem rosto”.

Memorial – Para manter viva a memória dele, a família instalou o Memorial Luiz Augusto Crispim, no mesmo prédio onde funciona o escritório de advocacia por ele montado em anos anteriores, inclusive com alguns móveis da época, como birô em que ele trabalhava, herdado do seu avô. A ideia sempre foi transformar o Memorial em um Instituto.

Com rico acervo de fotografias e objetos pessoais que lembram passagens da sua vida, o visitante encontra no Memorial exemplares dos livros publicados, prêmios literários, uma carta do poeta Carlos Drummond de Andrade escrita à mão, destacando sua obra. Há inúmeras fotografias que registram a participação na administração pública em diversos governos, com presidentes da República, com escritores e intelectuais. Diplomas, canetas de usava em momentos especiais, material esportivo, raquetes de tênis, chapéus de sua coleção.

O visitante também encontra escritos inéditos de Crispim, rascunhos, inúmeros blocos de anotações de obras literárias, livros com as revisões de provas antes de impressos.

“É apenas uma pequena parte do enorme acervo dele. O espaço é pequeno, mas é emblemático porque lá começou como advogado e eu tentei retratar o escritório como ele era antigamente. Ficou bem interessante”, afirmou, certa vez, o também advogado Luiz Augusto Crispim Filho.

O Memorial é uma bonita iniciativa que visa, sobretudo, manter viva a memória deste jornalista e poeta que escreveu bonitas páginas da literatura paraibana e nacional.

Recordamos Crispim com saudade. Lembramos como nos recebia, fosse em seu escritório, nas redações dos jornais ou nas repartições que chefiava. Ou na Academia Paraibana de Letras e nos eventos culturais que participávamos. Ele sempre estava com o sorriso aberto, abraço acolhedor e palavras afetuosas.

Haveremos de lembrar de Crispim como o pastor das tardes e das manhas e que, conforme Martinho Moreira Franco, outro cronista da mesma estatura e de beleza de texto, contemporâneos de infância e juventude na Capital, que igualmente hoje é saudade, “Crispim só fica devendo aos que admiram a sua elegância estilística, alguma incursão pelos domínios da noite”.

Para definição de nossa amizade, lembro das palavras de Saint-Exepéry, de que “nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido. Ninguém pode criar velhos companheiros”.

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