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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e Diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba. Contato: [email protected]

Personagens de uma cracolândia

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publicado em 17/05/2022 às 07h00
atualizado em 17/05/2022 às 04h49

Essa semana teve mais uma operação para retirar, do centro de São Paulo, aquela concentração de traficantes e dependentes químicos que habitam, literalmente, no bairro Santa Ifigênia, coincidindo, parcialmente, com a região da Boca do Lixo, desenhando ali um cenário desolador.  Os paulistas a chamam de Cracolândia.

Depois da ação policial, o que se viu foi uma triste cena. Zumbis humanos perambulando pelas ruas da maior cidade da américa do Sul. Só mais uma tentativa, sem atingir o cerne do problema. Mais uma operação.  Nem os Braços Abertos de Haddad, nem o Redenção de Dória, muito menos a operação Caronte, do atual prefeito, foram capazes de abalar as estruturas do uso de crack no meio da rua daquela metrópole. Muda, tão somente, a concentração. De uma para outra praça, como se fossem fantasmas humanos a atrapalhar o tráfego, como na música popular.

Misturei imagens ao que andava lendo. No meu devaneio, entendi que estamos vivenciando um espaço em que tudo começa a ser metaverso:  essa nova parada tecnológica, capaz de integrar o mundo real ao digital, usando realidade virtual, aumentada ou hologramas. Dizem que, num jogo, por exemplo, você é capaz de ter experiências mais reais do que a realidade, aumentando a experiência e o engajamento. Deve ser assim a realidade com o crack: misturam-se imagens e vivências como se tudo fosse uma Crackdown futurística da série de David Jones.

Um pouco de calma, e tudo isso nos irá chegar. Para vivermos num espaço e tempo em que tudo será visto com outras dimensões. Um excessivo número de informações por minuto, que superará, em muito, nossa franca capacidade de processamento. Viveremos como se estivéssemos todos bailando no espaço, e cheios de drogas psicodélicas.

E pensar que, quando Freud falou, em Futuro de uma ilusão, que o ser humano não suportaria a angústia da vida, sem algo que lhe falseasse a realidade, certamente, embora genial, nunca imaginara situações em que a vida real fosse ilusória, e a fantasia tomasse o lugar da vida real.

Na verdade, ele abordava, no texto, a consolação da ilusão religiosa, sem a qual os homens não poderiam suportar as dificuldades da vida, nem as crueldades da realidade; enquanto, ao mesmo tempo, precisariam ser postos em contato com o dissabor, como uma forma de educação para a realidade.

Tenho a sensação de que seremos todos moribundos e viveremos vagando numa imensa cracolândia virtual de aparências e irrealidades digitais. Esse poderá ser o novo normal, falsamente anunciado há pouco como sucedâneo de uma pandemia. Pior: teremos que abraçá-lo como se nosso fosse desde os primeiros entendimentos por gente. Sei. É bem verdade que poderemos voar com a tecnologia, mas temo que sejamos transformados, vagando por não sei onde, em bandos de aves perdidas. Como os personagens de uma cracolândia.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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