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Magistrado, colaborador do Diário de Pernambuco, leitor semiótico, vivendo num mundo de discos, livros e livre pensar. E-mail: adhailtonlacet123@gmail.com

Vivendo de literatura

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publicado em 03/06/2021 às 07h24
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Existe um pensamento propagado no meio intelectual – sobretudo de quem escreve, ler, edita, comercializa – de que ninguém vive de literatura no Brasil. Já virou lugar-comum dizer que somente Paulo Coelho vive dos livros que escreve, tanto no nosso país quanto no exterior. Os demais têm que labutar em outras atividades para auferir o sustento diário, seja no jornalismo ou no serviço público. À falta dessas duas atividades laborais, recorrem às tais oficinas de criação literária onde se promete ensinar a você a tornar-se escritor e ter o completo domínio da técnica da escrita e outros que tais. Muitos sobrevivem também trabalhando com agência de publicidade. Teve um, muito criativo, que solicitado para criar um texto publicitário para um famoso absorvente feminino, tascou essa: “Modess: travesseiro para boi dormir”. Foi demitido.
Cá com meus botões, fico imaginando como era antes da existência dessas oficinas de fabricar escritores. Com quem Machado de Assis aprendeu a escrever? E Guimarães Rosa; José Lins do Rego (foto, 120 anos nesta quinta-feira 3 de maio 2021); Lygia Fagundes Telles; Graciliano Ramos e tantos outros mestres? (só para citar os brasileiros). Eu sei que vão me responder dizendo que para escrever bem, antes de tudo tem que ler muito. Sim, é verdade, porém existem pretensos candidatos a escritor que querem escrever livros, mas não gostam de ler.
O contraditório de tudo isso é que existiu um único escritor – há muito falecido – que ainda dá emprego e sustenta muitos pais de famílias com sua excelente obra. Trata-se do bardo e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Para imprimir sua obra muito papel foi fabricado e vendido no mundo todo; empresários lucram fortunas com as montagens de suas peças, atores, figurinistas, equipe técnica e tantos outros recebem salários devido às obras shakespeareanas. E os tradutores, donos de gráfica e editoras, ilustradores, livreiros, todos eles levam o leite de suas crianças para casa trabalhando na obra do autor de Hamlet.
E o turismo o que tem a ver com literatura? Sim, Shakespeare também dá lucro para quem lida com essa atividade. Milhões de pessoas viajam à Inglaterra para conhecer a cidadezinha Stratford-upon-Avon, lugar onde nasceu e morreu o sonetista famoso. A indústria fatura alto fabricando bustos, estatuetas, cinzeiros e ladrilhos com motivos shakespereanos, como bem lembrou Paulo Mendes Campos na crônica Shakespeare & Companhia.
Muitos escritores ganham dinheiro com biografias e adaptações do que já foi escrito por Shakespeare. Cinema e televisão também lucram. Ainda hoje é reeditado o livro escrito pelos irmãos Mary e Charles Lamb com as peças de dramaturgo inglês em forma de contos (Contos de Shakespeare, lançado no Brasil pela Editora Globo, com tradução de Mário Quintana, já na oitava edição, 2020).
Pois é, eu faço a minha parte: compro e leio os nossos autores. E você, o que está esperando?

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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