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ENTREVISTA MAISPB

Davi Moraes lança obra em homenagem ao pai

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publicado em 27/02/2021 às 11h55
atualizado em 27/02/2021 às 13h59
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Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos: Candé Salles

Em abril próximo, fará um ano que o Brasil perdeu Moraes Moreira. A música brasileira perdia um grande artista. Ficou um vazio e a beleza de uma obra tão vasta quanto genial.

Seu filho Davi Moraes, herdeiro musical do artista baiano, está lançando um disco novo nas plataformas “Todos nós”, que homenageia o pai. Trata-se de um EP com quatro canções, três delas inéditas. Como já trabalhava em um novo disco com Kassin, Davi o chamou para produzir com ele o EP.

A semente inicial foi “Aquele abraço do Gil”, parceria inédita de Moraes e Joyce Moreno: Moraes a encontrou numa padaria (no Rio de Janeiro) e deu a Joyce a letra manuscrita num pedaço de papel. De um dia para o outro, ela fez um samba e mandou o áudio para ele, pelo celular.

Davi chamou o baterista Paulo Braga e o baixista Alberto Continentino, e juntos fizeram uma versão em cima do áudio original, como se fosse uma pré, e Joyce adorou o que ouviu. Os primeiros versos dizem algo de premunição: “No meu andar de passista, a minha alma de artista deixa o corpo e voa. Ao exalar-se etérea. Ali mesmo onde a matéria ainda não povoa”.

Algum tempo depois, a cantora e compositora carioca sugeriu gravá-la. Nascia assim o projeto que marca a estreia de Davi Moraes na Biscoito Fino, gravadora que havia lançado álbuns e singles de Moraes.

Depois de Aquele abraço do Gil, segunda faixa do EP, outra canção inédita entrou na seleção: “Aos Santos”, parceria de Davi Moraes com mais um convidado, que abre o projeto. Davi compôs um bolero e mandou para Carlinhos Brown que escreveu em um dos versos: “Fiquei sem respostas, sem tocar na banda”. Outro verso foca direto em Moraes Moreira ”Você foi embora, me deixou aos prantos, e apaixonado consultei os Santos “, rimando amor e dor com muita inteireza. Brown toca percussão no EP e Kassin participa no contrabaixo acústico.

Ai veio a sacada de convidar Marina Lima para gravar uma canção de Moraes. Marina, que é prima de Marília, mãe de Davi, viu o começo do namoro de seus pais. A gravação aconteceu em São Paulo, em clima intimista

Depois do dueto com Marina, uma inédita que Mu Carvalho compôs em parceria com Tuca de Oliveira, chamada “O cantor das multidões”, que é mais uma homenagem ao Moraes. Davi convidou Mu para fazer o piano junto com o Dadi no baixo, o Cesinha na bateria e o Marcos Nimrichter no acordeão. “O clima meio “A Cor do Som”, disse ele.

Em entrevista ao MaisPB, Davi conta tudo sobre esse disco, música a música, extravasa a saudade do pai e quando perguntamos sobre o nosso país ele resumiu: “O Brasil é nossa casa”.

MaisPB- O EP é um disco, que já nasce clássico, principalmente por homenagear seu pai, Moraes Moreira, que deixou um vácuo na música brasileira. Vamos começar por ele?

Davi Moraes – Um homem muito afetuoso. Que regava muito a amizade, do companheirismo, da solidariedade. Um cara que fazia amigos por onde passava. Cheio de melodias e poesias. Outro dia eu estava dando uma entrevista e falei, que não me lembrava de um só dia que meu pai não pegasse no violão para cantar alguma coisa, escrever alguma letra, criar uma melodia nova. Era uma necessidade vital diária, como respirar. Um grande letrista fazendo parcerias com excelentes poetas. Então, era isso mesmo, meu pai deixou um vácuo como você falou.

MaisPB – Como veio a iniciativa desse disco fruto da pandemia?

Davi Moraes – A ideia surgiu depois de um telefonema da Joyce (Moreno), a gente já tinha gravado essa segunda faixa que é o samba “Aquele Abraço do Gil”, um disco que estava se fazendo. Pedi aos dois, meu pai deu a letra para Joyce numa padaria e no noutro dia veio a melodia. Eu chamei a Joyce para gravar comigo essa canção. Essa gravação para mim é histórica, na minha carreira. Sou muito fã dela. Tocamos juntos, com músicos fora da curva. Quando ela me ligou, meu pai já tinha partido e me chamou para lançarmos o single. Eu não tinha nem força para pensar em nada e ela botou esse gás. Aí pensei que não podia ser uma música só, poderia fazer uma homenagem a ele com mais quatro canções. Foram vindo os outros convidados e formamos o time.

MaisPB – “Aos Santos”, parece uma oração.(parceria de Davi Moraes com Carlinhos Brown) e é uma música triste também, porque todo sentimento se esvai. Vamos falar dessa canção?

Davi Moraes – Essa música é linda, eu fiquei uns três dias escutando direto quando gravamos, ela é muito forte. Eu compus, peguei a guitarra fiz a melodia do nada. É um bolero e eu sempre gostei de boleros. Aliás, de uns tempos para cá comecei a compor boleros. Nunca achei que eu fosse capaz, mas veio isso como uma coisa muito forte. Tenho um em parceria com Fausto Nilo, com Adriana Calcanhotto e agora com Carlinhos Brown. Esse cara é visionário, ele escreveu uma coisa bela e coube perfeitamente na melodia, é como se estivesse fazendo uma oração. Tem passagens fortes. Conversamos muito desse casamento da melodia com a letra, um vestindo o outro. Carlinhos veio para gravar com a gente com as percussões que ele faz, um clássico, mas com uma sonoridade muito atual, de agora.

MaisPB – A primeira “Aquele abraço do Gil” é muito boa. Vamos falar dessa samba, desse abraço para Gil e para o Rio de Janeiro que continua lindo, mas muito castigado?

Davi Moraes – Exatamente isso, a citação de Aquele abraço do Gil, tem uma estrofe muito bonita que diz: deita aqui só no meu peito que eu vou te amar no leito do Rio, tão sofrido de Janeiro, mas depois de fevereiro, tem aquele abraço do Gil”. Esse canção tem a chama da esperança, numa das cidades mais bonitas do mundo e tão castigada. A gente espera que possamos virar esse jogo desses tempos tão dificeis aqui para o nosso Rio, que volte a ser lindo como antes e sempre foi.

MaisPB – A terceira faixa “Davilicença” é uma música bem brasileira, que fala da morena, dá no couro, tino e destino, o choro é bom. Essa amizade com Marina Lima vem de longe, né? Vamos conversar sobre esse destino do som e vozes?

Davi Moraes – A Marina me contou que viu meu pai compondo essa música na época, quando ele começou a namorar minha mãe. Ela conheceu Armandinho nessa época, quando ele veio para o Rio morar conosco e ficou seis meses num apartamento em que morávamos no Leblon, na época do começo da carreira solo de meu pai. Ela tem uma memória afetiva muito grande em relação a essa música. Fizemos essa versão intimista, dois violões, duas vozes. Foi uma alegria gravar com a Marina, temos esse amor por essa gravação, dedicada a meu pai.

MaisPB – “ O Cantor das Multidões” parece com as coisas de seu pai, é uma homenagem, mas parece feita por ele para você cantar. Diz muito sobre as coisas lindas do Brasil que seu pai fez, espelhada nessa canção de Mu Carvalho em parceria com Tuca de Oliveira. Fala, aí Davi?

Davi Moraes – Me emocionou muito tocar essa faixa. Quando Mu me apresentou essa musica, (ele da Cor do Som), trouxe a turma que sempre esteve muito presente na música do meu pai. Essa é uma canção biográfica, que me emocionou muito. E ficou ótima pra fechar o disco com esses parceiros queridos. Cezinha que toca com a gente há décadas, uma canção dos feitos dele, da cidade natal dele, da vida dele que me toca muito.

MaisPB – Você tem lembranças das turnês, quando Davi era menino, acompanhando seu pai?

David Moraes – Muitas lembranças, A gente ia eu e minha irmã acompanhados com minha mãe. Naquela época eram turnês imensas, a gente ficava um mês viajando pelo Nordeste. Eu conheci o Brasil através da música, com shows em que eu fazia pequenas participações. Nunca vou esquecer esse tempo.

MaisPB – O nome do disco é “Todos Nós”. É o nome de uma canção sua com dez anos, que Moraes botou no disco de 1980. Você lembra desse dia, dessa emoção de ver seu nome num disco de seu pai?

Davi Moraes – Sim, foi quando meu pai viajou, peguei o cavaquinho para tocar e compus minha primeira música -,um chorinho, com duas partes. Ele me botou com a banda no estúdio para gravar, foi uma emoção. O disco é “Bazar Brasileiro” e vinha com um poste e todas as faixas tinha uma ilustração ou uma foto. Representando a música “Todos Nós”, era uma foto da banda e ver no disco uma canção minha fazendo parte da história, foi demais.

MaisPB – É muito bom o disco “Nossa Parceira”, que você fez com ele, em 2015…

Davi Moraes – Eu também gosto desse disco. A gente fez depois de uma turnê pelo Brasil todo, shows em duo Moares e Davi e fizemos, misturando, eu trazendo meu pai para meu universo e eu no dele. Gosto muito da mistura bacana que deu esse disco. Fecha com uma música que ele fez no estúdio, que batizou o álbum. Esse foi um grande momento da nossa história.

MaisPB – Essa foto da capa de “Todos nós” é do álbum de família ?

Davi Moraes – Essa foto é de uma amiga minha Cristiane, jornalista. Ela acompanhava a gente em todos os shows e tinha guardado até hoje. Nos encontramos no Instagram, ela disse que tinha esse material e eu consegui resgatar essa foto de uma temporada que meu pai fez aqui no Teatro Casa Grande no Rio, foi quando ele lançou “Coisa Acesa” e tinha essa participação, eu tocava duas músicas no cavaquinho. Essa foto reúne nossa relação no palco, na vida.

MaisPB – Qual a sua palavra de esperança para o Brasil melhorar nessa maré em que estamos, pandemia, desgoverno, vacina etc?

Davi Moraes – Bom, é difícil dizer. Se eu fosse reunir uma palavra seria vacina mesmo. Perdemos muita gente. Como é que o nosso pais se perdeu para ser tornar esse Brasil das pessoas tão violentas: eles chegaram ao poder com violência. Gente do mal. Entrando na politica, a gente sabe que o Brasil de verdade não é esse que estão querendo forçar que seja e nunca vai ser. O Brasil é um pais miscigenado, negro, que jamais vai poder expulsar sua gente, a quem lhes pertence. O Brasil é nossa casa.

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