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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginarodriguez@uol.com.br

A morte

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publicado em 03/01/2020 às 08h00
atualizado em 02/01/2020 às 20h20
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Etapa derradeira da vida do homem. Falecimento, óbito, desencarne, termos que querem dizer o mesmo fato ao processo irreversível da vida.  Uns morrem por doença, outros por assassinato, outros por acidente e outros por suicídio. É a Inexistência das funções biológicas e ausência da consciência. Representa o fim.  O desaparecimento da vida. Momento em que se dá a inércia e o imobilismo de seu corpo. Nós, que continuamos vivos, quando isto ocorre, principalmente com quem amamos, nos deixa tristes e desolados. Querer conversar, relacionar-se, dizer quanto o amamos, mas não houve oportunidade para que isso ocorresse. Momento de dor lancinante, que nos aflige e nos atormenta; não existe volta.

Nesta semana experimentei o sentimento de perda de pessoa querida. Quero referir-me ao falecimento de meu tio Pepe, irmão mais novo de meu pai, que morava em Salvador-BA. Pessoa muito querida por todos os familiares. Diferentemente da causa morte pelo COVID, ele resolveu morrer e entregou-se a seu objetivo: deixou de comer, de comunicar-se com as pessoas, isolou-se e construiu um mundo só dele. Queria morrer, não achava razão para viver. A vida para ele perdera o sentido. Isto acentuou-se depois que a sua esposa faleceu após passar alguns anos com demência; já em vida não o reconhecia mais. Ele com seu amor incondicional cuidou dela até o seu final. Quadro doloroso para o qual nós não estamos preparados. 

Falaram-me que os médicos diagnosticaram que o seu mal era depressão. Isto foi um fato, meu tio perdeu o interesse pela vida, sem ânimo, com tristeza profunda, sua evolução se deu gradativamente. Transtornos ocorrem no âmago da alma como você se sente, lida com seus relacionamentos e atividades diárias, como dormir, comer ou trabalhar. Acomete mais às mulheres que aos homens. As estatísticas dizem que 80% delas são afetadas. A OMS aponta que a depressão atinge 10% da população mundial e esse índice aumenta a cada ano. É chamada mal do século XXI. Nessa direção ela indica o Brasil como país mais deprimido da América Latina. Algumas causas são enumeradas: genética, estresse, ansiedade, síndrome do pânico e outras. Existem medicações antidepressivas que ajudam a melhorar o quadro, entre os mais usados está a fluoxetina, todavia, não bastam só os psicotrópicos, mas, sim, tratamento psicoterapêutico, uma vez que os fármacos atuam só nos sintomas físicos dos transtornos mentais; necessário se faz que o depressivo seja ajudado por sessões de terapia para conseguir olhar o seu interior e identificar a causa de sua doença. Alguns têm êxito e outros não.

Nesse tempo de pandemia, em que só ouvimos notícia de mortes, chama-nos atenção que nem todos morrem do COVID, mas da segregação a que a pandemia os submeteu, porque os idosos isolaram-se e têm suas doenças degenerativas próprias da idade; necessitam de acompanhamento, deixam de ir ao médico com medo de contrair o COVID, sobretudo os portadores de cardiopatia, diabetes, câncer e outras doenças que evoluem e levam a óbito. Acrescem ainda, os transtornos psíquicos como foi o caso do meu tio, que, não suportando a solidão deu-se ao desprezo e aos poucos foi morrendo até chegar ao final. Gostaria de falar da vida, mas a morte, nesse momento, é um fenômeno que todos os dias marca a sua presença.  Situação desoladora!  

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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