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Entrevista: Nana Caymmi grava disco com clássicos de Tom e Vinícius

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publicado em 19/09/2020 às 10h06
atualizado em 19/09/2020 às 11h49
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Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos de – Lívio Campos

A canção “Luciana” de Tom e Vinicius, de 1978, que nos remete para uma comparação entre “amor” e “flor”, dá a ideia de que o amor não dura, assim como a flor. Pouco gravada, “Luciana”, está entre canções que Nana Caymmi escolheu para gravar seu novo disco: “Nana canta Tom e Vinicius” todo dedicado a obra dos dois artistas. “Eu sei que vou te amar’, foi o primeiro single do álbum. A direção musical é do irmão Dori Caymmi, que celebra a fundamental parceria dos dois compositores cariocas. Gravado em 2019 no Estúdio Cia. dos Técnicos, o álbum pelo Sesc digital está nas plataformas de streaming e sairá físico, pós pandemia. Ao todo são 12 faixas, com Nana Caymmi (coro/voz), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira (bateria), Bre Rosário (percussão), Itamar Assiere (piano) e Dori Caymmi (violão), além das cordas gravadas pela Orquestra de Saint-Petesburg na Rússia.

Decorridos meio século e alguns anos, Nana Caymmi amplia a conexão entre as famílias Caymmi e Jobim, onde a cantora interpreta a parceria de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927/1994) e Vinícius de Moraes (1913/1980). Trata-se de uma gravação à altura da voz (ainda em forma) de Nana Caymmi. O disco, segundo Dori, era um desejo antigo e ele fez os arranjos com a maior delicadeza, com as canções de dois clássicos – o disco de Elizete Cardoso (1920/1990) “Canção do Amor Demais”, gravado em abril de 1958 e do Lenita Bruno (1926/1987),“Por toda a minha vida” gravado dez anos depois, 1968.

Em entrevista ao MaisPB, pelo telefone, os irmãos Nana e Dori Caymmi falam desse sonhado projeto, das canções, de novidades (um disco novo de Dori sairá janeiro de 2021) e porque Nana incluiu a canção “Luciana”, (terceira faixa), que marcou profundamente a artista, entre outros temas, como Brasil, pandemia e muito mais.

Nana Caymmi

MaisPB – Nana, no meio dessa pandemia saiu esse disco tão bonito, você cantando Tom e Vinicius. Está feliz com o resultado?

Nana Caymmi – Claro que sim, muito feliz. É uma alegria muito grande. É um disco com uma orquestra. Não é toda hora se grava com orquestra.

MaisPB – Vamos falar dessa amizade de seu pai, Dorival Caymmi com Tom e Vinicius?

Nana Caymmi – Mais com Tom, que era mais família e estava sempre com a gente em casa. Saia muito com pai, visitava a gente constantemente. Nós tínhamos um piano em casa, onde ele tocava sempre. A amizade era muito grande.

MaisPB – Quando você viu Tom pela primeira vez?

Nana Caymmi – Foi em Copacabana. Eu devia ter 13 anos. Gostei muito daquele momento. O pessoal de música era muito unido naquela época. Logo eu comecei a trabalhar em boate, no rádio. O rádio nos colocava sempre juntos dos artistas. É uma coisa bem família.

Nana Caymmi. Foto: Lívio Campo

MaisPB – Esse disco chega neste ano em que completa-se 25 anos da morte de Tom e 40 que Vinicius nos deixou…

Nana Caymmi – Eu não quis me lembrar dessas coisas, não. Pra mim é irrelevante. Claro que o Sesc quando patrocinou, pensou nisso. Esse disco é um grande presente que o Sesc me deu, sou grata ao Danilo Miranda, a meu irmão Dori, estou bem feliz nessa altura da minha idade. Eu cantei bem direitinho.

MaisPB – Você já cantava algumas dessas canções em show?

Nana Caymmi – Se não em engano “Eu sei que vou te mar”, e “Sem você”, está no bolo de outros discos meus. Não assim, tudo junto. Do Tom eu canto também “Falando de Amor – Famílias Caymmi e Jobim Cantam Antônio Carlos Jobim”, (2007, da Sony), que estão o filho e o neto do Tom, (Paulo e Daniel Jobim) e meus irmãos Danillo e Dori. Lá canto Tom, mas tem Vinicius.

MaisPB – “Luciana” é uma canção tão bonita e pouco gravada…

Nana Caymmi – Toca muito em mim essa canção. Foi feita quando Luciana nasceu, (filha de Vinícius) e depois veio a imensa dor do suicídio dela. Eu quis prestar uma grande homenagem a ela cantando, Luciana. Eu gostava muito dela, a vi crescer e ela era linda. Eu sempre conheci bem essa música. Sempre cantei em casa sozinha ou com amigos. O enterro dela foi no dia do meu aniversário de 70 anos. Isso marcou muito.

MaisPB – E “As Praias Desertas” (quarta faixa) continuam esperando por nós?

Nana Caymmi – Essa foi escolha do Dori também. Ele quis fazer entre os dois discos o da Elizete e o da Lenita. Era um sonho dele fazer isso junto comigo. Eu tenho loucura por esses discos. Eu fui criada ouvindo essas canções. Depois tem a amizade de Dori com Tom. Meu irmão foi orquestrador do Tom, fez arranjos com ele.

MaisPB – E Valsa de Eurídice (sétima faixa)?

Nana Caymmi – Foi minha, eu quis gravar. Assim como “Luciana”. Na verdade, a gente fez o disco junto. Partimos de dois discos da nossa juventude e fizemos.

MaisPB – Esse disco traz você de volta aos palcos, quando essa pandemia acabar?

Nana Caymmi – Claro. Eu espero, mas não sei nada. Com essa Covid só acontecem expectativas.

MaisPB – Em seu LP de 1975, o jornalista Tarik de Souza, do Jornal do Brasil na época, disse que você era a “Nina Simone brasileira”. Vamos falar sobre isso?

Nana Caymmi – Acho que ele não falou em termos de voz. Ele disse pela independência do repertorio, da personalidade, de uma pessoa que faz o que quer, que canta o quer. Não segue um padrão comercial. É por ai que ele quis dizer, não foi me comparando a Nina, porque eu não tenho a voz dela, nem ela tem a minha voz. Ele falou sobre uma pessoa forte dentro do mundo.

MaisPB – Quantos discos você gravou?

Nana Caymmi – Ah, eu não conto. São muitos. Tem em 78, e em 45 (rotações), e várias participações em outros discos. Tem os compactos…

Nana e Dori Caymmi. Foto: Lívio Campo

MaisPB – Tem visto seu irmão Danilo Caymmi?

Nana Caymmi – Danilo está no Paraná, eu só falo pelo telefone.

MaisPB – Nana você acredita que vamos sair dessa? O Brasil vai melhorar?

Nana Caymmi – A esperança está aí, os laboratórios estão trabalhando, o mundo todo. Isso na verdade é uma lição que o mundo está levando e muito mais o Brasil, que tem o serviço público totalmente desprezado, para uma situação de guerra. São coisas de Deus. As pessoas estão muito fúteis, despreparadas, emocionalmente. Essa crise já houve com a Aids, só que a gente conseguiu não ter contagio. Deus está mandado uma lição muito grande. As pessoas só pensavam em consumir, no carro do ano, no cartão de crédito. Nossa educação está para trás, a saúde também. A gente ainda vê muitas pessoas sem máscara. É uma lição da pior maneira possível, que leva a morte. Infelizmente, uma gente que não pensa em seu próximo. Não pensam nem na família. O Brasil está provando que não tem educação.

Mais PB – Tem ouvido bons discos?

Nana Caymmi – Tenho sim. Aqui em casa tem um jardim maravilhoso. (ela está num sítio em Minas Gerais). Não tenho problemas com a Covid nem mental, nem físico. Gosto muito de jardinagem. Estou escutando Villa-Lobos, muita coisa.

MaisPB – E essas Lives?

Nana Caymmi – Não gosto não, não vi nenhuma.

Dori Caymmi

MaisPB – Dori, tão bonito o disco de Nana. Como foi a gestação?

Dori Caymmi – Isso demora um tempo. O projeto é meu. Eu e Nana cantávamos essas canções quando éramos mocinhos. Eu acompanha ela na TVTUPI, onde ela tinha um programa, em preto e branco. Ela cantava esse repertório e eu sempre tive vontade de ver minha irmã cantando isso num disco. Essa fase de Tom e Vinicius é uma coisa gloriosa da música do Brasil.

MaisPB – Nana nos contou que as músicas foram combinadas com você?

Dori Caymmi – Eu produzi tudo, eu arranjei, orquestrei. Fiz tudo que tinha que ser feito. Nana estava cansada. Mas ela cantou tão lindo, né? Ela está com quase 80 anos, com a voz de menina.

MaisPB – Pois é, ela está com quase 80 anos e não está pra brincadeira…

Dori Caymmi – Está não, ela taca o pau mesmo (risos). Às vezes é preciso controlá-la.

Nana e Dori Caymmi. Foto: Lívio Campo

MaisPB – Ela também nos contou que esse disco tem uma relação com o da Elizete Cardoso e o LP de Lenita Bruno). Vamos falar sobre isso?

Dori Caymmi – São dois discos fundamentais, o da Elizete que se chama “Canção do Amor demais” e o da Lenita (1968) “Por toda a minha vida” A Lenita é carioca, foi casada com o arranjador desse disco dela, Leo Peracchi (1911/1993). Quem fez os arranjos do disco de Elizete foi Tom Jobim. Eu escolhi o repertorio entre os dois, as coisas que Nana tinha vontade de cantar.

MaisPB – Foram muitos dias para concretizar o trabalho?

Dori Caymmi – Não, porque eu sou um seguidor. Às vezes sou chamado até de reacionário e conservador. Eu acho que não poderia ser de outra maneira, porque os caminhos que o mundo está tomando musicalmente é uma coisa mais de entretenimento. Eu resolvi fazer esse trabalho primoroso. Estou achando muito enfraquecido esse lado, principalmente da minha geração, e da geração anterior a minha. Tom Jobim e Vinicius de Moraes são pilares da história da música do Brasil. Assim como Ary Barroso, Noel Rosa, meu pai, que fizeram a música do Brasil, alicercearam. Mas hoje está muito influenciada pelo funk, rap e reggae. Eu prefiro ficar com as raízes brasileiras.

MaisPB – As raízes brasileiras são mais profundas, né?

Dori Caymmi – Sim, temos a corrente nordestina, que não é só Luiz Gonzaga. Quantos caras tiveram seu brilho, Jararaca (Jararaca e Ratinho foi uma dupla musical formada por José Luis Rodrigues Calazans, o Jararaca (que nasceu em Maceió, 29 de setembro de 1896 e faleceu no Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1977, e Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho (natural de Itabaiana, 13 de abril de 1896 e faleceu em Duque de Caxias, 8 de setembro de 1972), quantas pessoas antederam. Esses caras, como Dantas (Zé) e uma porção de outros. E temos Dominguinhos, Hermeto (Pascoal), Sivuca: são pessoas de uma força extraordinária e que não se abstiveram de reforçar, a corrente nordestina. Por exemplo: Elba Ramalho é uma cantora que canta o Nordeste, é fiel a cultura nordestina. Eu aprecio muito essa fidelidade das raízes. Alguns mudam. Zé Ramalho tem uma outra visão mais moderna, é uma gente da geração dos Beatles.

MaisPB – E a música baiana, você gosta?

Dori Caymmi – A música na Bahia mudou muito. Nesse ponto eu não sou democrata, não. No meu caso pessoal, não estou falando de ninguém. Fiz esse disco da Nana, porque eu acho que alguém precisa ser conservador em caso de música do Brasil. Ainda restam Chico Buarque, Edu Lobo, João Bosco, os mais fiéis ao ritmo do Brasil. O que eu não gosto é dessa mistura com o funk. Esse disco de Nana é para que as pessoas saibam que existe a estética brasileira, essa beleza do nosso país. Existe e vai continuar existindo.

MaisPB – O que mais lhe acha atenção nesse disco de Nana?

Dori Caymmi – Olha, quando fiz os arranjos, tem frases melódicas muito bonitas do Tom Jobim, que são definitivas. Às vezes eu cito as frases que ele usou nos arranjos dele, exatamente para mostrar a década de 50. Ele já fazia essas coisas, já construía uma perspectiva nova para criar nossa geração, que vem daí desses homens: de João Gilberto, Tom Jobim. Eles antecederam a nossa geração, que vem do meu pai, do Ary (Barroso) de Noel (Rosa), Ataúlfo (Alves) e tantos outros: Tem Braguinha, Jararaca, Isso me fez gostar muito desse disco de Nana.

MaisPB – Ela está muito feliz com o disco, porque gravar com orquestra é outra coisa, né Dori?

Dori Caymmi – É verdade.

MaisPB – Você já tinha agravado alguma dessas canções?

Dori Caymmi – Eu gravei sozinho no violão no songbook de Tom Jobim, “Se todos fossem iguais a você”. Nesse período eu estava gravando um disco com meu pai, “As canções Praieiras”.

MaisPB – Quando teremos um disco novo de Dori Caymmi?

Dori Caymmi – Estou com ele pronto, gravei as cordas e estrou em acabamento, São sonetos de Paulo César Pinheiro, que eu musiquei. O disco vai chamar “Sonetos Sentimentais para Violão e Orquestra” (nome do livro de Paulo César Pinheiro). São 14 sonetos, já gravei voz e orquestra, falta botar sopro, clarinete, um pouco de percussão em algumas faixas. Eu pretendo lançar em janeiro. Paulinho (César Pinheiro) é muito bom. Sim, esse disco, eu não diria resgatar (porque quem resgata é bombeiro), é para mostrar que precisamos lembrar sempre desses grandes compositores, desses grandes brasileiros, que estão ficando pouco.

MaisPB – E o Brasil?

Dori Caymmi – Estamos vivendo uma apoteose de ignorância, violência e truculência, que Nação não precisava, principalmente na cultura. Dos últimos 15 anos, eu acho que essa ideologia de esquerda e direita, é muito bonitinha mas não fizeram nada, nem pelo povo, nem pela cultura. Uma conversa fiada, que deixa o povo sempre mal, na merda, sem saneamento básico. Política é um cinismo constante, uma roubalheira. Eu não sou Lula, nem Bolsonaro. Não gosto de nenhum dos dois.

MaisPB – E aí, está chegando aos 77 anos?

Dori Caymmi – Já fiz, agora em agosto, eu e Edu. Eu faço dia 26 e Edu, dia 29. Só pra fechar em Nana, ela é uterina, ela consegue transmitir e mostrar esse lado uterino da música do Brasil.

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