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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

Crônica de domingo à noite

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publicado em 04/09/2020 às 06h49
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É quase desnecessário não o entender como humano. Ele se faz assim, mesmo ao meu contragosto. De início, já bateu levemente na porta do meu quarto; depois, moderadamente. A demora, assim como para os humanos, afoba-o. Então, chama com mais vigor, com muita afoiteza, querendo colocar a porta adentro. Levanto-me insatisfeito, porque é a quarta vez que, obediente e revoltado, atendo ao seu chamado, intermitentemente.

Abro a porta. Resmungo um nome feio que lhe cai bem às fuças. Ainda assim, ele não liga, como se não houvesse nada. Sobe pelos meus cotovelos e arranha minha alma com um carinho despudorado. Vencido, caio na cama; ele, por cima, é como a alegria ilimitada. Perdoo-o. Ele se acalma. Dedico-me a minha escrita. Ele me olha fazendo beicinho. Tenho três minutos para adiantar o texto, enquanto ele está entretido com a sua paciência curta. Ele me olha de soslaio. Agora resmunga baixinho, bem baixinho, apenas me avisa que é hora de nova algazarra. Para ele; para mim, não. Eu tenho um texto sobre substituição tributária para escrever; ele tem a vida para me olhar. Ele me observa como se fosse dono de mim. Ainda é sereno o claro dessa noite, em mais um segundo, resmungará mais forte. Eu não lhe dou atenção. Há um texto sobre um dos assuntos mais difíceis de Direito tributário para escrever que não lhe interessa; a mim, sim. Ele tem um relógio maldoso, agora esbraveja por meus tímpanos adentro. Eu passo a mão em sua cabeça. Ele fecha o olhinho e, com a cara mais deslavada, sobe uma das orelhas, como se me entendesse de forma plena. Volto ao meu texto, e ele põe lentamente seus planos irresponsáveis sobre o teclado do meu notebook. Afasto aquela mãozorra com carinho e digo uma pilhéria qualquer. Ele não me entende. Esculhamba-me, como se estivesse rosnando impropérios proibidos para maiores de noventa anos. Eu não lhe dou bolas; ele avança como se fosse um touro bravo sobre o PC; as quatro patas ali, em cima; o olhar muito sério a me fitar os olhos. Tem rabo, que está hirsuto; tem pressa, porque seu signo é virgem. Seu dedão caiu na tecla deletar, que comeu os três primeiros e únicos parágrafos de uma tela em branco, folha de computador resistente às letras, por três dias, do meu eu impaciente.

Tento me afobar, mas seu olhar é feito torrão de açúcar. Rendo-me ao amor de novo. Pulo em cima da cama; suas patas rasgam minha careca, e, quando vejo, ele já corre por entre as minhas pernas. O lençol caiu ao chão, e ele, como um raio, apanhou seu brinquedo que caíra; peguei no seu rabo. Sim, ele tem rabo, mas é gente. Ele quer beijo na boca, é gente. Eu nego; sou cão. Somos dois em um: amalgamados e felizes no domingo. Ai, que pena! Meu texto, que era sobre substituição tributária, terminou em cão!

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