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Jornalista. Ex-repórter do Portal MaisPB e de outros sites de João Pessoa-PB. Pessoense residente em São Paulo. Observadora da vida, gosta de contar histórias em primeira pessoa. Contato: naira.di.lorenzo@gmail.com

Esquecendo a máscara pela força do hábito

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publicado em 08/08/2020 às 13h00
atualizado em 08/08/2020 às 11h02
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Em tempos de pandemia alguns hábitos mudaram, regras foram impostas e todos tivemos que nos adaptar as modificações ditadas pelo coronavírus, pelo Estado e pelo bom sem senso. Conversa batida, eu sei, mas acontece que com a flexibilização da quarentena ficamos sujeitos à nova ordem.

Quer sair na rua? Ok, está liberado e autorizado pela administração pública de diversas cidades brasileiras. Shoppings, bares, restaurantes, academias, igrejas, todos reabertos. Cansou do isolamento compulsório? A opção de interromper a quarentena é livre, apesar de desaconselhada por especialistas.

Só não vale esquecer a máscara. Na verdade, o esquecimento custa R$ 524,59, em São Paulo, e pagos ao governo. Talvez por isso, por aqui é raro que passe pela minha visão alguém sem o escudo contra covid-19.

Outro dia uma senhora, provavelmente com mais de 60 anos, seguia na minha direção respirando livremente, sem nenhuma vestimenta cobrindo seu rosto. Imediatamente iniciei uma tese buscando entender por qual insanidade a mulher saíra às ruas sem máscara. Por irresponsabilidade, ignorância, ideologia? Antes mesmo de concluir meus julgamentos a resposta veio com o susto que ela levou ao me olhar.

Enxergou em mim o que lhe faltava. Percebeu que estava despida de proteção. O que a induziu a estar sem máscara foi a falta do hábito, ou melhor, a força dele. A força da memória de que até alguns meses atrás todos desfilavam pela cidade exibindo seus rostos nus. E isso não era nenhum atentado, nem proibido. Era o normal.

“Aí meu Deus”, disse ela levando a mão a boca e ao nariz na tentativa que possíveis vírus no ar ou nela não saíssem de onde estavam e nem entrassem onde não deviam.

Visivelmente nervosa, abriu a bolsa e a vasculhou como que procura um tesouro perdido em terras difíceis. Nada. Levou novamente a mão ao rosto e saiu em disparada.

O medo de contrair ou disseminar a doença a deixou desnorteada. Ela atravessou a rua e por pouco não esqueceu também de olhar se algum carro podia pegá-la, antes mesmo do que o vírus.

Felizmente passou ilesa, entrou em uma loja, se dirigiu ao caixa e o cliente, que já estava no local, quando notou que a senhora não utilizava máscara se afastou.

Observando de longe, eu deduzia o que a mulher questionava a atendente. Provavelmente rezava para que milagrosamente vendesse máscaras em loja de produtos naturais. Não tinha.

Praticamente ao lado havia uma farmácia, porém, ela em seu desespero, não foi capaz de perceber. Correu até a sua “salvação”, não demorou muito lá dentro e deu sorte do item, que já foi peça rara e cobiçada na quarentena, não estar em falta. Devidamente paramentada com o acessório indispensável e obrigatório ela encarou novamente a rua e seguiu aliviada.

Enquanto pensava que qualquer um poderia facilmente ter vivenciado o mesmo sufoco – eu ou você –, abri minha bolsa. Dei falta do álcool em gel. Foi a minha vez de dizer “meu Deus”. Poderia também ter corrido até a farmácia, mas lembrei dos dois frascos grandes do produto que ficam na estante da minha sala. Já era hora. Voltei para casa.

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