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Jornalista. Ex-repórter do Portal MaisPB e de outros sites de João Pessoa-PB. Pessoense residente em São Paulo. Observadora da vida, gosta de contar histórias em primeira pessoa. Contato: naira.di.lorenzo@gmail.com

Preciso da casa arrumada, Drummond

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publicado em 11/07/2020 às 12h00
atualizado em 11/07/2020 às 12h31
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Luxo para mim é ter a casa arrumada. Todos os dias. Acordar com o chão limpo e cheiroso. E dormir com a louça lavada e guardada. No outro dia perceber que tudo continua no lugar e sem pó. No dia seguinte não ter roupa para lavar, nem no varal, pois já estão todas engomadas e dobradas dentro do guarda-roupa. Dia a pós dia tudo impecável, de preferência sem muito esforço e sem nunca acordar dessa ilusão.

Carlos Drummond de Andrade é um dos meus poetas e cronistas preferidos, mas eu ouso discordar dele em uma das suas crônicas que leva o título de “Casa Arrumada”. Desculpa Drummond, mas casa perfeita para mim é aquele “lugar organizado, limpo, com espaço livre para circulação e uma boa entrada de luz”. Sim, esse é meu cenário dos meus sonhos, mesmo que lembre a um centro cirúrgico ou a locação de uma novela.

Por favor, não me tenha como herege, eu também gosto da casa com vida que você descreveu, em que “os livros saem das prateleiras e os enfeites trocam de lugar”. Eu amo a movimentação, mas desde que ao final da leitura o livro retorne ao seu lugar e a nova decoração esteja alinhada.

Meu fogão é severamente gasto pelo uso e não só meu. Passei uma tarde inteira tentando limpar as lembranças em forma de gordura que a proprietária desse apartamento deixou para trás. Agora, as memórias da minha família se misturam com as dela e sinto um leve desconforto com essa união.

No sofá da sala sobram manchas e tem arte também. Tenho certeza que você ia adorar os rasgos e o rastros que minha gata deixou nas duas pernas do estofado. Ela se sente livre para expressar sua aptidão artística e não se importa de arriscar uma de suas sete vidas, mesmo com meus surtos, gritos e ameaças.

Você Drummond, acaso ainda estivesse vivo e me desse a honra de uma visita, encontraria mais vidas no quartinho dos fundos do que em um bloco de carnaval de Salvador. Todas aglomeradas, pedindo um espaço mínimo para sobreviver. Eu passei meses olhando para o local e pedindo ajuda dos céus para que metade daquelas vidas fossem embora. Ontem, finalmente, tirei dezenas de sacolas, caixas e plásticos acumulados. Dei fim a eletrodomésticos quebrados e resgatei as roupas que havia separado para doação, mas que estavam afogadas no mar de objetos inúteis. Salvei tudo que servia, o resto foi para lixo. Contei pelo menos umas cem vidas ali. Matei todas. Amém.

Sobre os lençóis desarrumados na cama, após brincadeiras ou namoro, eu não vejo mal algum. Entretanto, custa dobrá-los depois? E convenhamos, lençol desarrumado é na maioria das vezes sinônimo de que um novo dia chegou e a preguiça também.

Sabe Drummond, nessa quarentena eu virei a louca da arrumação. Não suporto ver nada fora do lugar e um prato sujo na pia pode ser motivo suficiente para separação. Meu lema agora é manter, mas mesmo assim, a sujeira parece não ter fim e brota como capim no chão da minha casa. É interminável.

Eu bem tinha algum intervalo de boa vida todas as quartas-feiras. A responsável por contribuir com minha paz se chama Gel. Ela chegava pela manhã e, antes do sol ir embora, deixava uma casa limpa e organizada. Com a pandemia e quarentena Gel foi temporariamente dispensada e mesmo que eu continue pagando a ela, o serviço não é feito. Na verdade, é, e por mim. Não que antes eu não o fizesse, Drummond, mas semana após semana eu sabia que as quartas chegariam e me trariam o socorro de Gel.

Nunca me neguei a lavar um prato e tenho apreço por cozinhar. Varro a casa e passo pano mesmo a contragosto. Limpo os banheiros, tiro o lixo, arrumo a cama, passo pano nos móveis. Das atividades triviais só me recuso a passar roupa e, enquanto elas não aprenderem a fazer essa atividade sozinhas, coitadas, permanecerão esquecidas no cesto. Sei fazer tudo, porém, não quer dizer que eu gosto.

Aí desculpa, Drummond, mas a casa que tem a minha a cara é a que está arrumada. A organização dos objetos me traz paz. A luz que entra pelas janelas limpas me inspira. A cozinha cheirosa de comida ou de desinfetante me afaga o coração. Tudo no lugar certo mantém minha rotina e minha mente equilibrada. São mais de cem dias convivendo apenas com os cômodos da casa e eles precisam estar em ordem para que o caos que mora lá fora não entre pela porta da frente e faça morada em mim.

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