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Lutador fica apagado por quase 2min em luta: “Pior experiência”

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publicado em 21/08/2018 às 10h12

Uma luta no evento Demolidor Fight 13, no último sábado, em Bauru-SP, causou polêmica pelo mundo do MMA. O confronto entre Melquizael “Melk Kaut” da Conceição, 21, e Rafael “Coxinha” Barbosa, 20, pelo cinturão peso-leve da organização, terminou com vitória de Coxinha por finalização no terceiro round.

A luta só foi encerrada, no entanto, quase dois minutos depois do triângulo de mão ser encaixado, após Melk aparentemente convulsionar dentro da posição. O vídeo dos minutos finais do combate “viralizou” na internet.

Pelo vídeo, fica claro que Coxinha avisa ao árbitro quando sente o corpo do adversário amolecer. Ele se comunicou algumas vezes com ele para avisar do ocorrido.

– Eu encaixei o triângulo e eu sabia que estava muito justo, pois sou bom nesse triângulo. Só que, quando ele desceu, ele deu uma afrouxada no corpo, e eu falei para o juiz imediatamente: “Ele apagou”. E o juiz disse que não tinha apagado. Então eu afrouxei a pegada, porque eu sabia que ele tinha apagado, mas ainda estava preso, porque ainda queria vencer a luta. O árbitro ficou falando com o córner (do Melk); não é para escutar o córner, ele quer que o atleta deles vença! Aí ele começou a mexer a perna, mas acho que foi de convulsão. O juiz mandou soltar depois de quase dois minutos. Eu avisei duas ou três vezes o árbitro – contou Coxinha, por telefone, ao Combate.com.

A luta foi sucedida por momentos de apreensão. Segundo seu empresário, Adriano Vilela, Melquizael seguiu desacordado por 10 minutos até abrir os olhos. O atleta relembra momentos de terror entre o atendimento dentro do cage e a chegada ao hospital.

– Foi a pior experiência da minha vida, não por ter apagado, mas pelo tempo que fiquei apagado. Quando acordei, voltou a visão, mas não conseguia respirar. As pessoas estavam me chamando, eu comecei a ver o meu mestre, mas estava imóvel, não conseguia mexer meu corpo e estava tampada minha respiração. Colocaram máscara de oxigênio em mim, e aí que não consegui respirar mesmo. Só consegui balançar a cabeça para tirar a máscara, e ouvi meu mestre dizer que o cara colocou a máscara mas não ligou o aparelho. E nisso, fui voltando devagar a respirar, mas começou a ficar embaçada a minha visão, ia e voltava. Eu estava consciente, mas a visão estava embaçada. Começou a voltar o fôlego de novo, (…) me levaram para a ambulância, eu apaguei de novo e voltei, mas secou muito minha garganta, parecia que minha língua estava agarrando na garganta. Pedi um pouco de água e me disseram que eu não podia beber água ainda. No hospital, me deram soro e eu finalmente fiquei bem, falei com minha esposa e tranquilizei – contou o lutador, que foi liberado do hospital às 9h da manhã de domingo e, desde então, não apresentou mais sintomas adversos.

Apesar de Mequizael já estar recuperado, ele deve se submeter a uma bateria de exames, incluindo uma tomografia, pedida pelo médico que o atendeu na UPA. Adriano Vilela pretende cobrar do evento pelo custo dos exames, e acioná-lo judicialmente como responsável pelo erro que vitimou seu atleta.

Na hora de atribuir a culpa pelo erro, no entanto, cada um empurrou para um lado. O evento foi inteiramente arbitrado por Emerson Saez, faixa-preta de jiu-jítsu que dá aulas em Bauru e arbitra eventos de menor porte no interior de São Paulo. Ele foi apontado de última hora para substituir Marcelo Drago, presidente da Confederação Nacional de MMA (CNMMA), que fiscalizaria o torneio.

– Eu ia arbitrar o evento. O grande problema é que estou com dois dentes abertos e meu filho está doente, por isso eu não consegui ir ao evento. (O Emerson) Não era da nossa confederação, ele foi indicado por outra pessoa, porque nossa equipe estava toda trabalhando. Aí o cara me indicou. Ele não é da CNMMA – alegou Drago.

O organizador do Demolidor Fight, Jeferson Pavanelo, afirmou contudo que Drago havia lhe garantido que Emerson era filiado à confederação e que, por isso, aceitou sua indicação.

– Ele traz às vezes dois árbitros centrais e três laterais, ou quatro árbitros, sendo dois centrais e dois laterais. Mas sempre foi uma equipe – Drago, Viviane, Junior e Marcelo – que já arbitrou para mim. Dessa vez, em cima da hora, ele disse que não ia dar para fazer para mim porque estava com um problema de saúde. Perguntei como ia ficar e ele disse que tinha árbitros da confiança dele e ia me mandar: “Vão ser uns árbitros top, pode ficar tranquilo”. Ele é o presidente da confederação e é árbitro também. E nesse evento, acabou entrando esse árbitro que é daqui da minha cidade, que inclusive eu conheço, e eu falei para ele na hora que ele me disse que seria o Emerson: “Não, Drago, o Emerson não tem como colocar”. Ele falou: “Lógico que tem, é um árbitro filiado à minha federação, tem cursos, está apto a fazer a arbitragem. É arbitro da minha confiança”. Disse que só ia colocar porque ele disse que era filiado a ele. Se ele (Emerson) pede para arbitrar para mim de graça, eu não quero – declarou Pavanelo.

Indagado sobre por que indicou um árbitro que não fazia parte de sua confederação, Marcelo Drago respondeu que o organizador do evento não pagava o valor mínimo exigido, e que, por isso, não poderia deslocar uma equipe de fora do estado para substituí-lo.

– A gente cobrou o valor base, ele pagou abaixo, e a equipe do interior de São Paulo não estava disponível, teve vários problemas. Não teria como deslocar o pessoal do Rio de Janeiro ou de outros estados, porque ele não ia pagar passagem, hotel, essas coisas. Para ajudá-lo, eu ia fazer. É complicado, porque o pessoal não valoriza a gente – argumentou Drago.

Pavanelo respondeu que o valor descontado é um acordo entre os dois.

– Ele me disse que faz um preço melhor para mim, mas não é um valor baixo. Só que é o que ele me passa, mas eu não cheguei a questionar árbitros dele para saber o valor que é. O Emerson eu não quero, não tem cabimento mais eu colocar esse cara no evento – disse Pavanelo.

Quanto a isso, o organizador não precisa mais se preocupar. Emerson Saez revelou ao Combate.com que não vai mais arbitrar lutas de MMA após o ocorrido. O professor de jiu-jítsu se disse traumatizado pelo que aconteceu, se desculpou com os atletas e comemorou o fato de Melquizael estar bem. Ele se defendeu pelo erro e justificou não ter encerrado a luta antes.

– Ali é momento de ação e reação. O Melk saiu rodando e tentou inverter a posição para o outro lado e não conseguiu. O triângulo de mão no “no gi” (sem quimono) é uma das que tem menores riscos de apagar. O Melk estava com olho aberto e estava na luta. Ele estava com a mão no abdômen empurrando. O outro atleta falou, “Professor, ele vai apagar”, mas falei para ele não soltar, porque ele estava com a mão no abdômen dando pressão. Não vi necessidade de mexer no atleta. A perna dele estava mexendo, achei que era fuga de quadril. Meio que agachado, olhei para o córner dele e nenhum deles percebeu também. Todos ali tinham visibilidade completa e não percebemos em momento algum. Depois, vendo o vídeo, eu percebi outra coisa. Percebi que ele tremeu a perna – uma delas, não as duas; quando se perde a consciência, normalmente mexe os dois tendões. Só percebi no vídeo. Quando observei que o semblante do Melk estava mudando, coloquei a mão e falei para o atleta, “Solta!” – explicou Saez por telefone.

João Emílio, treinador de Melquizael, negou que tivesse deixado a luta seguir porque queria que seu atleta vencesse. Segundo ele, a visão no ângulo que estava era limitada, e ele só via os pés e um pedaço das pernas do lutador paraense.

– Não (pensei em jogar a toalha), porque a gente questionou o árbitro se tinha apagado, e ele dizia que não, que ele estava na luta! O árbitro da mesa várias vezes se levanta apontando que estava apagado, batia na grade várias vezes, e o árbitro dizia que não, que estava na luta. E eu só via a sola do pé e um pedaço da perna. E ele movimentava a perna, então não dava a impressão do ângulo nosso – disse João Emílio, treinador da equipe Chute Boxe Bauru.

A polêmica acabou tirando o brilho da vitória de Rafael Barbosa, que aceitou a luta de última hora e disputou o cinturão peso-leve (até 70kg) contra Melquizael apesar de lutar normalmente no peso-pena (até 66kg). O paulista de São José do Rio Preto se levantou bravo quando o árbitro enfim mandou que ele soltasse a pegada.

– Comemorar mesmo, não estou comemorando não, porque para mim foi triste. Fiquei muito bravo e chateado, fiquei muito preocupado. Foi uma sensação que eu não gostei. Passou muita coisa na minha cabeça. Não comemorei até agora. Estou com a vitória, mas até passar isso, não estou bem não. Fiquei meio traumatizado. Eu mandei um recado pelo Facebook dele, perguntando como estava, mas ele não respondeu. Deu um alívio muito grande saber que ele está bem, acordado, conversando. Fui saber hoje (segunda-feira). Domingo, fiquei mal. Lá dentro é profissional, mas e lá fora, e a família, e o filho? Pensei muito nisso – contou Coxinha.

Melquizael vai ficar um tempo sem poder treinar e fazer exercícios físicos, enquanto não faz mais exames. O paraense de Porto de Moz afirmou que foi um erro seu que resultou no triângulo de mão (quis derrubar o adversário no terceiro round para garantir a vitória e acabou pego na posição, e ainda girou para o lado errado no chão), e se mostrou grato a Coxinha por ter afrouxado a pegada, o que, segundo ele, salvou sua vida.

– Vendo no vídeo, tem momentos que eu me mexo, mas já estou apagado, apaguei de olho aberto. Eu só não morri porque meu oponente afrouxou. Eu às vezes me mexia, mas era porque estava tendo convulsão. Quando o oponente me soltou, eu estava mole. Se fosse pelo juiz, eu teria falecido. Eu fiquei muito ruim, foi uma experiência muito ruim mesmo. Foi um erro meu mesmo que quase acaba com a minha vida – concluiu Melk.

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