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Boatos na internet causam onda de linchamentos

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publicado em 27/06/2018 às 18h43
Indiana mostra foto de sua prima, que morreu após ser linchada Foto: SAM PANTHAKY / STR

Boatos no WhatsApp sobre traficantes de crianças estão provocando uma onda de violência na Índia e levou a polícia a pedir nesta quarta-feira que a população ignore os alertas na internet. Linchamentos já causaram a morte de uma pessoa e deixaram várias outras feridas após informações falsas de que 300 traficantes teriam chegado ao estado de Gujarat, no Oeste do país, para sequestar crianças e depois vendê-las. No último ano, rumores sobre supostos sequestradores já teriam ocasionado ao menos 22 mortes em toda a Índia.

“Não se deixem levar pelas mensagens falsas, ou pelos boatos nas redes sociais, e não ataquem ninguém com base em suspeitas”, pediu a Polícia estadual em um comunicado.

A Índia vem enfrentando nos últimos anos diversos episódios similares, quando boatos divulgados pelo WhatsApp acabam causando linchamentos. Na terça, na cidade de Ahemdabad, cerca de 100 pessoas atacaram uma mendiga de 45 anos, identificada como Shantadevi Nath, e outras três mulheres, acusando-as de serem membros dos grupos de traficantes descritos nas mensagens. Shantadevi Nath morreu pouco depois no hospital.

— A multidão começou a dar chutes e socos nas quatro mulheres provocando ferimentos graves em Shantadevi e de menor gravidade nas outras três — disse o chefe da Polícia local, JA Rathwa.

Em Rajkot, outra cidade do estado, seis pessoas ficaram feridas e, em Surat, foram registradas outras duas agressões. Na cidade de Surat, no mesmo estado, uma multidão formada majoritariamente por homens obrigou uma mulher de 45 anos e o bebê que levava com ela a irem a uma delegacia. Eles a acusavam de ter sequestrado a menina, que era, na realidade, sua filha.

— As duas foram levadas para a delegacia, onde ficou claro que eram mãe e filha e que estavam na cidade para um evento familiar — disse uma autoridade policial à imprensa local.

Assim como na Índia, boatos espalhados pelo Whatsapp já fizeram vítimas no Brasil. Quatro homens foram condenados no ano passado a penas que variam de 26 anos e 40 anos de prisão pelo linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, no Guarujá, litoral de São Paulo. Em 3 de maio de 2014.,Fabiane foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças e apanhou até a morte de dezenas de pessoas em uma rua do bairro Morrinhos. As agressões foram gravadas, e, na época, as imagens foram compartilhadas na internet.

Em Araruama, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, uma equipe de policiais que evitou o linchamento de Luiz Aurélio de Paula e Pâmella Martins. Segundo a polícia, a situação foi tão grave que se a sua equipe não tivesse aparecido, uma das vítimas teria sido assassinada.

NOTÍCIAS FALSAS SE ESPALHAM FACILMENTE

O fenômeno dos boatos não é novo na Índia, mas se acelerou e se disseminou com a democratização da Internet e com o uso em massa de aplicativos de troca de mensagens instantâneas, como o WhatsApp, propriedade do americano Facebook. São mais de 200 milhões de usuários ativos mensais na Índia, um país de 1,25 bilhão de habitantes.

— Todo o mundo usa o WhatsApp e, hoje, é a melhor plataforma para difundir ‘fake news’ (notícias falsas), porque a Internet móvel custa quase nada e todo o mundo na Índia tem acesso aos telefones celulares — disse à AFP Pankaj Jain, do site especializado SMHoaxSlayer.

O editor-chefe do site MediaNama, Nikhil Pahwa, pede que a Polícia indiana responda a esses boatos “com esclarecimentos rápidos”.

— (A polícia) teria de usar todas as plataformas para lutar contra informações desse tipo — completA Pahwa.

Para Jency Jacob, da organização indiana de verificação de dados BOOM, culpar a tecnologia não é a melhor maneira de resolver o problema.

— As pessoas não confiam nos políticos, nem no sistema judiciário. Então, quando aumentam os boatos sobre sequestros de crianças, provocam linchamentos. É um problema social complexo e o WhatsApp e as demais redes sociais amplificam a mensagem — adverte Jency.

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