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Magistrado, colaborador do Diário de Pernambuco, leitor semiótico, vivendo num mundo de discos, livros e livre pensar. E-mail: adhailtonlacet123@gmail.com

O fogão de Cony

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publicado em 05/08/2021 às 07h51
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Para muita gente talentosa parece que a vocação aflora logo nos primeiros anos de vida. Vinícius de Moraes contava que sua mãe dizia que ele aprendera a cantar antes mesmo de falar. Eu mesmo quando criança – tão logo aprendi as primeiras letras -, dizia que queria ser escritor.

Não sou escritor profissional, mas trabalhei a vida inteira escrevendo sentenças, decisões e despachos no meu afã judicante. O que faço até hoje. Também desde adolescente arrisco uns poemas, contos e crônicas com publicação na imprensa local desde a década de setenta, e de Pernambuco mais recentemente.

A produção de quem escreve, compõe canções ou atua nas artes plásticas têm ritmos diferentes. Alguns escrevem vagarosamente outros produzem em escala industrial. Foi o caso do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony (1926-2018), que só veio a falar depois dos cinco anos de idade, e mesmo assim com deficiência, pois trocava consoantes a exemplo do “g” pelo “d”. Escrevia tão rapidamente que concluiu um romance em nove dias. Em rapidez só perdia para o romancista inglês Edgar Wallace (1875-1932) que escreveu mais de cento e setenta livros, tendo uma lenda que diz que um amigo ligou para o escritor inglês e sua secretária disse que ele não poderia atender naquele momento pois estava começando a escrever um romance, e que retornasse a ligação no final da tarde quando ele já teria terminado o livro.

Cony percebeu que sua vocação era a palavra escrita quando, ainda criança, protagonizou um episódio constrangedor provocado por uns colegas de infância um pouco mais velhos que ele. Como dito, Cony trocava as consoantes. Era um dia de festa em sua casa e ele, com pouco mais de cinco anos foi “convocado” pelos amigos para falar uma frase em homenagem a uma sua vizinha de nome Jandira, que era exímia cozinheira mas que as más-línguas diziam também que era mulher afoita fora do leito conjugal. E pediram que ele dissesse “Dona Jandira adora um fogão”.

Sem flexibilidade na língua presa, Cony trocou um “g” pela letra “d” ao proferir a frase sugerida pelos amiguinhos e foi uma risadagem tamanha que o deixou traumatizado, fazendo-o escrever centenas de vezes no caderno a palavra “fogão” e a mostrá-la aos amigos que a partir daquele momento não riram do que estava escrito. Foi então que ele percebeu que seria melhor entendido escrevendo. E assim o fez por toda a sua vida, com talento e competência.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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