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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

Quem tem medo da “vachina”?

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publicado em 14/05/2021 às 08h02
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Realmente, tudo estava meio esquisito e bonito ali. A porta que dava acesso ao paraíso parecia a Praia de Manaíra, à manhãzinha, quando o sol, sem pudor algum, caía desavergonhado em João Pessoa, enchendo os nossos olhos de esperança e paz.
O que me espantava era outra coisa. Não era São Pedro (foto) quem nos esperava aos pés daquele portão enorme, pintado de azul celeste. Um cachorro. Sim, um cachorro grandão, de olhar sereno e baba caindo pela boca, escorado em uma chave também muito grande. Era um cachorro quem dava as ordens ali.
Eu estava na fila há horas, e ela era muito grande, dobrando muitas esquinas de nuvens buchudas que se estendiam pelos confins das dimensões celestiais. E o diabo da fila não andava. Arrastava-se vagarosamente, fazendo ziguezague pelas quinas dos meus pensamentos, como se fosse uma serpente de fogo muito preguiçosa. Pelo contrário, a outra fila, a que não peguei, não parava um segundo sequer, como se tivesse alguém muito dedicado a proteger os seus, conduzindo-os sem nem um entrave.
— Mas, essa fila não anda! — reclamei.
— Até para entrar no céu tem fila… Valha-me, Deus! — Disse uma mulher baixinha, de olhos arregalados, vestida com a camisa da seleção brasileira.
— Por que não vão reclamar de São Pedro? — Retrucou um velhote com cara de abusado que estava duas posições à minha frente, conduzindo um cartaz com os dizeres: “Orgulho: Não tomei a ‘vachina’”.
Como eu já estava muito impaciente, nem quis responder. Engoli a raiva, olhei para o outro lado e comecei um exercício mental, para calcular quantas pessoas avançavam na outra fila, a cada hora. Isso foi bom, pois, de repente, sem eu perceber como o tempo passara rápido, eu estava à entrada do grande portão, o umbral dos céus, diante do cachorro babão.
— E agora? — Eu disse.
— E agora, digo eu — respondeu o cachorro babão.
— Como assim? Aqui não é o céu?
— Claro que aqui não é o céu! Você perdeu o juízo?
Então, por que tudo aqui é tão bonito e chamativo?
— E você queria que o inferno tivesse cara de inferno? Pirou, foi?
— Ah, então, aquela outra, a fila que anda em velocidade, é a minha… é isso?
— Auauauau — riu muito o cachorro bonachão, mostrando os dentes de diamante.
— Lá é que você não entra mesmo!
— Como assim, não entro?
— Lá é a fila para entrar no céu, meu caro — grunhiu o cachorro.
— Então, nem o inferno me quer? Entendi. Vou para o céu…
— Sem cartão de vacina, nem o inferno quer você, meu caro, imagine tendo sido contra.
— Mas, eu não fiz nem uma campanha contra a vacina!
— Mas, não fez a favor, meu caro.
— Quero falar com o dono, não com um cachorro, disse firmemente.
— Papai está na outra fila, e estou aqui no seu lugar.
— E o que devo fazer? — Perguntei.
— Vacine-se, meu caro. Quem sabe, no tempo certo, você não volte para mim?
— Hã?

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