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ENTREVISTA MAISPB

Branca Lescher lança o disco e canta “Je Suis Nelson Mandela”

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publicado em 01/08/2020 às 12h11
atualizado em 01/08/2020 às 15h45
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Foto: Larissa Fraga

reportagem: Kubitschek Pinheiro

Fotos: Larissa Fraga

A cantora, compositora e poeta paulistana Branca Lescher está lançando o terceiro álbum da carreira, “Eu não existo”, disponível em CD e nas plataformas e aplicativos de música. Sucedendo o álbum de estreia “Intimidade e silêncio” de 2005, uma coletânea de versões e o primeiro autoral, “Branca” de 2019, o novo disco chega com mais uma leva de composições da cantora, e com produção e arranjos de Marcelo Segreto, cujo trabalho é preponderante no resultado final do disco.

São 12 canções, que abrem com a faixa título e abordam o universo feminino, com tom de crônica sobre o corriqueiro, com grande valorização da palavra e estética semelhante à de artistas como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. De fato, o cenário da Vanguarda Paulista, cujos shows Branca frequentava na adolescência, são influência assumida da compositora.

Canções como “Antes de mim”, “O dia da mulher”, “Bigode chinês” e “Violeta”, a maioria feita em parceria com Segreto ou com Edmiriam Mandolo, exaltam a liberdade da mulher de forma espirituosa e também provocativa, com moldura de arranjos de cordas quase minimalistas. Já “Taj Mahal” e “Lisboa” têm temática amorosa, e “Je Suis Nelson Mandela” refletem na admiração de Branca pelo líder negro sul-africano.

Quando começou essa história de escrever poemas, ser compositora e terminar gravando discos? “Faz tempo, desde sempre canto, sempre gostei de escrever, mas comecei a compor e a escrever poesia há dez anos aproximadamente, a compor quando fiz o curso de pós em canção na Faculdade Santa Marcelina em 2013, meus colegas de curso começaram a musicar minhas poesias e a partir daí não parei mais, na verdade me lembro de uma primeira composição muito antes, quando eu fiz um grupo de teatro, até gravei no estúdio, era bonitinha, mas escrever está em mim desde sempre, sou advogada também, escrever é muito natural pra mim”, revela ela em entrevista pelo telefone ao MaisPB.

O primeiro disco, lembra Branca, ela gravou com 5 canções foi em 2002, o segundo em 2005, também só interpretando clássicos da mpb, os autorais vieram depois em 2016 e agora lança o terceiro. “Sim, dá trabalho, mas é maravilhoso, termina um a gente já quer gravar outro, eu demorei bastante entre um e outro até”.

A música que dá nome ao disco, “Eu não existo”, lembra uma frase de uma canção de Vinícius e Tom, que diz “eu não existo sem você”. Mas na letra de Branca Lescher, ela descarta um amor ou algo assim? (“eu não existo /faça de conta /não perca o sono /dorme tranquilo”).

“Eu adoro essa canção “Eu não existo sem você”, já cantei muito essa música e sempre fez parte do meu repertório. Outro dia, que me dei conta da similaridade do título, a minha canção fala de alguém que não é visto, sabe quando sua existência incomoda alguém e você pode tentar tudo que não adianta? Vamos falar da inveja, sabe quando a gente sente inveja e o outro incomoda tanto que a gente gostaria que ele não existisse? Então a minha música fala disso, do incomodo que é ter que ver alguém que a gente não quer ver e como a pessoa sente esse incomodo, no caso as duas pessoas, aquela que finge que não vê e aquela que não é vista, já me senti nesse lugar por isso escrevi a canção, a sensação de causar incomodo é muito chata”, comenta.

No álbum “Intimidade e Silêncio” ela canta Jobim e Ary Barroso.

“Sim, samba não, mas bossa nova… eu adoro bossa nova, foi um disco ainda experimentando, não tinha um conceito como os último dois, a alegria de cantar era tamanha que escolhi as canções que eu adorava, Caetano, Tom Jobim, a canção “eu não existo sem você” está lá, foi um disco gravado de um jeito muito artesanal. Eu sou paulistana, judia, mas cresci ouvindo mpb e bossa nova também, ainda gosto muito de cantar bossa nova e gostaria muito de cantar um samba bem, eu gosto de canções bonitas”.

Na verdade esse terceiro disco vai além do grito de liberdade, quando artista questiona nas letras, seu pensamento glorioso que a mulher deve ser livre. “É um disco que fala basicamente da liberdade. Liberdade pra perdoar, para sair por aí, para dizer e cantar o que quiser, pra encarar nossa finitude do jeito que ela vier, o disco também fala de um amor generoso, de como ser livre nos torna mais generosos, mais felizes, um manifesto contra a mesquinharia e o egoísmo. Bem que poderia ser isso sim”.

Geração 80 e artista era uma menina, mas já ia aos shows de Arrigo Barnabé, de Itamar Assumpção e dos grupos Premê e Rumo – expoentes da chamada “vanguarda paulista”. Isso lhe influenciou muito, até esbarrar no minimalismo? “Sim influenciou muito, fui aluna da Regina Machado, assisti o Premê na escola, fazendo shows, gosto de cantar meio falando, o Marcelo Segreto que produziu o disco e fez os arranjos também é super influenciado pela vanguarda paulista, não poderia ter sido diferente. Eu também gosto das coisas simples, escrevo de uma maneira bem livre e singela, quase, quanto mais simples e verdadeiro melhor”, reflete.

Branca ressalta o trabalho de Marcelo Segreto, seu parceiro integral neste disco. “Eu gosto muito do Marcelo como músico, admiro o trabalho dele na Filarmônica de Pasárgada, acho ele genial. Fiz uma outra canção “Kurt Elling” que ele fez também o arranjo, antes desse disco e desde lá já tinha decidido que o Marcelo seria o arranjador e o produtor do disco que estou lançando agora. A gente também é amigo e parceiro em duas canções, “Bigode chinês” e “Dia da mulher”, que eu adoro”.

No disco Branca também é autoral ‘só tem uma canção que não é minha que é “Fora do ar” também do Marcelo Segreto, ele acreditou nas canções, deu ideias incríveis fez arranjos que eu acho lindos também, já me deu aulas de violão, enfim, uma sorte ter conhecido ele e ele estar por perto”.

Laurie Anderson, Rita Lee e o poeta Drummond

“Obrigada pela “voz macia”, a Laurie Anderson é incrível, adorei a lembrança, o Alexandre Porres que fez as intervenções eletrônicas é brilhante. Na canção “Bailado” as intervenções dele mudam tudo, deram uma leveza pra canção, que é um fado, eu gostei muito. No show de lançamento ele irá participar e a gente estava ensaiando, muitas ideias legais pro show, pena que teve de ser adiado, tempos difíceis”, lembra ela

A segunda faixa ‘Desisto” é uma canção que a artista insiste em não desistir. É muita loucura, né? “Sim, eu desisto de não poder insistir, já disseram muito pra mim, ah desiste, deixa disso, eu sou persistente, eu desisto do bom senso, da chatice e insisto na loucura, na arte, na liberdade”. Na ‘Bigode Chinês’ ela canta com Marcelo Segreto.

“Dia da Mulher” tem um arranjo fenomenal – uma homenagem explicita a Rita Lee. “Obrigada, essa música nasceu de uma reflexão, essa coisa da mulher ser invisível depois de mais velha, eu estava pensando sobre isso, quando a Rita Lee fez a canção ela era novinha acho que nem sonhava com menopausa, a música fala disso que a gente é mulher sempre, do jeito que a gente for, eu adoro o arranjo que o Marcelo fez, a gente conversou muito sobre essa canção, eu escrevi a letra, ele fez a música, eu também acho que foi uma parceria muito feliz. A canção brinca com os preconceitos da maturidade, aquele de falar que “panela velha é que faz comida boa” e por aí vai….”

A faixa “Salvo Conduto” tem a lembrança de Drummond, do ir ser gauche na vida. “Salvo Conduto é uma canção em homenagem ao meu filho que me escreveu duas cartinhas, por sua vez inspiradas no Drummond dizendo pra mim ser gauche na vida, esquecer os burocratas e fazer o que de verdade eu precisava fazer, a canção é o meu agradecimento a ele, eu andava com as cartinhas na carteira e dizia que elas eram meu “salvo conduto”, com elas eu tinha permissão para fazer o que eu precisava fazer e de verdade as cartinhas foram muito importantes pra mim em muitos momentos”.

De quem foi a ideia da capa branca, Branca? “O Guto Lacaz que é meu amigo e do Marcelo fez a capa, a concepção é dele, o disco físico ficou muito bonito, o Guto é um arista genial, obrigada por ter gostado, é também uma brincadeira com o meu nome”

E aí você existe ou não? “Eu existo e dou trabalho, não sei se para os outros, mas eu dou trabalho para mim mesma, penso demais, vivo demais, agora na pandemia está tudo muito intenso, como se tudo que a gente um dia pensou estivesse acontecendo, viver dentro de casa têm sido uma experiência cansativa e muito rica, redescobri minha casa e minhas coisas e nunca me senti tão viva”. Fecha

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