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Entrevista

Luana Carvalho, seguindo os passos de Beth

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publicado em 10/07/2020 às 20h30
atualizado em 11/07/2020 às 15h09
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reportagem: Kubitschek Pinheiro (Portal MaisPB)
fotos: Ana Alexandrino

O tema é carnaval. O nome do disco é “Baile de Mascara”, um EP com seis faixas que Luana Carvalho, filha de Beth Carvalho, acaba de lançar. Em tempos de pandemia ela canta o refinado som da folia. A cantora carioca, de 39 anos, chama de “quarentena de cinzas” esta época em que vivemos. E está certa, porque parece que nunca chega a quarta-feira “ingrata”.

De uma boa gestação, “Baile de Mascara”, foi gravado nesse período de isolamento. O álbum versa sobre sentimentalidades, afetos, perdas, ganhos, saudade e solidão. Muitas desigualdades e o racismo que impera.

A produção é de Kassin e, claro, “Baile de Máscara” é em homenagem sua mãe, Beth Carvalho (1946-2019). Luana é filha única da sambista e do jogador de futebol Édson Cegonha (1943-2015), que selecionou seis canções do repertório de Beth que poderiam fazer a ponte entre a transição da época festiva com o período da quarentena. É um trabalho de primeira.

O repertório apresenta “Meu escudo” (Décio Carvalho/ Noca da Portela), “Carnaval” (Carlos Elias/ Nelson Lins de Barros), “Falso reinado” (Adilson Bispo/ J. Roberto), “Visual” (Neném/ Pintado), “Dia seguinte” (J. Petrolino/ Carlinhos Vergueiro) e “Minha festa” (Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito), a única gravada mais de uma vez por Beth.

A impressão que a gente tem é que vai surgir a voz de sua mãe. Como foi pensado esse álbum depois da viagem dela? “Obrigada! Impressão correspondida” disse ela rindo. E segue: “O álbum surgiu da audição de toda obra da minha mãe para uma playlist de 1 ano de morte. Ao selecionar algumas músicas que falam sobre o carnaval, porque vinha pensando muito sobre entrar numa quarentena na sequência da festa dos corpos, entendi que tinha um projeto pronto. Que seria uma homenagem a minha mãe e um traçado entre o paradoxo e as semelhanças dos dois momentos que tratam de contágio e sobrevivência, ao mesmo tempo”, afirma.

Fotos: Ana Alexandrino

“Baile de Máscara” é só um pretexto para abordar a festa carnavalesca, mas são belos sambas e dá vontade de levantar da cadeira e dançar juntinho. Isso já um motivo a mais para ouvir Luana Carvalho. “Se dá vontade de dançar juntinho já vale bastante coisa. Mesmo que não possamos agora, é talvez um dos desejos mais bonitos da vida”, alerta.

A segunda faixa “Carnaval” é do primeiro disco de Beth Carvalho. Já a primeira faixa “Meu Escudo” é do disco “Mundo Melhor” de 1976, sete anos depois do primeiro. Ou seja, Luana foi buscar longe os clássicos para regravar. “Gosto muito de estar convidando ouvintes a momentos inusitados da carreira da minha mãe”, resumiu.

O álbum tem a colaboração expressiva do VovôBebê (violão, guitarra, coro e gravação de vozes), conta com a participação dos músicos Pretinho da Serrinha (percussões e cavaquinho), Cristina Braga (harpa), Dedé Silva (bateria), Rodrigo Tavares (teclados), Luis Filipe de Lima (violão 7 cordas), Marlon Sette (trombone) e Jorge Continentino (clarinete) e Chiara Banfi (coro). Mixado por Kassin e masterizado por Ricardo Garcia. “Todos gravados remotamente de suas casinhas”, lembrou.

Como foi essa experiência em plena pandemia? “Fluiu maravilhosamente, já tá dando até saudade. Fizemos tudo em menos de duas semanas. Cheguei pro Kassin com repertório fechado, concluímos muito rápido a concepção sonora do álbum e tive a surpresa de saber que essas feras todas estavam podendo gravar remotamente. Aquela história do ideograma chinês “crise: perigo + oportunidade’, todos os integrantes desse disco conduziram-no como se estivéssemos todos verdadeiramente num baile dançando em pleno salão”.

A quinta faixa. “Dia Seguinte” tem uma introdução linda, “quando a festa acabar, o que vai ser dessa vida, vai voltar ao que era antes de passar pela avenida”. “É linda mesmo. É uma letra forte e fala muito do que estamos vivendo. Nós, privilegiados, nos nossos camarotes, enquanto quem faz mesmo o carnaval – a vida acontecer – são aquelas pessoas das comunidades que constroem cada fantasia – os entregadores, trabalhadores, que precisam estar nas avenidas pra que tudo siga se movendo no mundo e que talvez morram por isso – e depois do carnaval voltam a ser o “pingente que cai e no ano que vem ninguém vai notar”. Triste Brasil”, reflete.

“Visual” a quarta faixa traz uma batida diferente, é como se Luana Carvalho cantasse dentro de nossos ouvidos. É linda essa canção e lá está também o carnaval. É o momento mais tocante do disco, que enxuga nosso pranto, quando entra a voz de Beth Carvalho: “Depois que o visual virou quesito, na concepção desses sambeiros, o samba perdeu a sua pujança, ao curvar-se à circunstância, imposta pelo dinheiro, e o samba que nasceu menino pobre, agora se veste de nobre, no desfile principal, onde o mercenarismo impõe a sua gana, e o sambista que não tem grana, que acontece com ele? Não brinca mais o carnaval”. A canção fecha com com a neta dizendo: “Te amo vovó” É arrepiante.

Fotos: Ana Alexandrino

“Foi a última a entrar no disco. Um ímpeto derradeiro, que Kassin abarcou com tudo e brilhou técnica e artisticamente. Um presente dele para mim, e nosso para vocês. A princípio minha mãe só cantaria as chamadas – porque se ela é mesmo a rainha das chamadas para coro, essa música tem talvez a maior que eu já ouvi: “o quê que acontece com ele?!”. Mas diante do resultado, acabamos assumindo o feat. VovôBebê tinha comentado comigo uma vez que achava essa característica da minha mãe muito marcante, chegou a me perguntar se ela teria inaugurado isso. É também uma marca muito forte para mim nas suas interpretações, então achei mais simbólico ainda que essa música entrasse. Minha filha no final é mesmo o epílogo perfeito, sem dúvida a faixa mais afetiva”, revela.

“Não sei como é ser filha de outra mãe”

Termina o disco com “Minha festa”, que sua mãe cantava muito e gravou mais de uma vez. Essa canção parece o espelho de Beth, que tem até uns barulhinhos certamente ideia de Kassin. Está feliz com esse trabalho? “Kassin não só tem ótimas ideias como sabe perfeitamente o que fazer com as minhas. VovôBebê é também um grande artista e bastante generoso e sensível. Estou muito bem acompanhada, não poderia estar mais feliz com o resultado.”.

Como é ser filha de Beth? “Não sei como é ser filha de outra mãe, é difícil responder isso. Mas com certeza é uma vida de muito amor e muito movimento”.

Quando tudo passar você vai cantar esse disco por aí? “Precisamos primeiro entender o que vai e o que não vai passar. Por enquanto vou vivendo as horas tentando me manter saudável e justa. Ando muito preocupada com o futuro do Brasil, da humanidade, não sei se consigo pensar tanto no futuro desse disco. Ele é um projeto especial que surge no meio da gestação do meu novo disco autoral, talvez se baste nele mesmo. Tá sendo lindo sentir a reação das pessoas, é uma maneira boa de dividir minha saudade”

Adoro Mil e 800 colinas. Vamos sambar? “Vamos sim”, fecha.

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