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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Naquele São João

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publicado em 23/06/2020 às 09h25
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Eu fiquei tão triste, eu fiquei tão triste naquele São João. Ainda era infância e a música me envolvia pelos seus versos simples. Tão simples versos que poderiam sair em qualquer conversa de amigos.  – Eu fiquei tão triste naquele são João! Assim inicia a música, que se nomeia na primeira estrofe. Foi a terceira composição que o Trio Nordestino gravou, entre as composições de Antônio Barros e Cecéu. Antônio, nome simples, meu irmão, Toinho, como, carinhosamente, se “diminutiva” no sertão. Antônio, meu tio, que ficou marcado nas lembranças do meu pai, por ter falecido aos 12 anos. Tonheiro, um menino perdido na Serra do Saco, administrada por seu pai, também Antônio. E Cecéu? Maria do Céu. Tão costumeiro quanto todas as Marias; e tão puro quanto o segundo verso, porque você não veio, você não veio alegrar meu coração.  Ponha-lhes tons, dê-lhes um ritmo de marcha, forró ou baião; e aí você verá a força descomunal que têm para mexer com as emoções de nordestinos como eu.

Fiz uma fogueira e a noite inteira esperei você. A saudade. A tristeza, substâncias que se misturam e dão luz, calor e magia a essas letras; que, se literalmente ingênuas, hasteiam bandeirolas, levantam poeira e faziam subir balões. Acho que, por isso, a música de São João me encanta. O que somos nós senão corpo e cognição, revestidos por sentimentos que nos fazem esperar, seguir e lamentar pelos passos, que lá no passado ficaram? Num lamento de amor perdido, coração ferido, por meu bem querer!

Agora a minha tristeza mandei embora, você chegou bem na hora. Meu amor chegou. Assim como era no princípio, e em cada um de nós foi ou é, chega o amor, que é lenha na fogueira da alegria, e da vontade de viver. Como é na música, quanto tanto se faz na emoção, nas noites benfazejas de animação e forró, em homenagem ao nosso São João. Vamos simbora, combinar com Santo Antônio, acertar o matrimonio, que São João mandou! Os costumes, desejos de tudo acontecer, segundo as crenças desse maravilhoso povo nordestino. Simbora, se formalmente nem existe, é um indicativo de saída, de atitude tomada e decisão de partir. São João é assim: passado saudoso; alegria presente; esperança no futuro.

Esse ano está triste? Só porque faltou o povaréu dançando ou o trem do forró? Não. Já tivemos festas comendo restos de secas. Tudo é alimento. Estamos vivos! (Introduzo um parêntese, para quem perdeu seus entes e amigos!). Como dizia, tudo é alimento   nas sanfonas dos velhos e novos sanfoneiros, esses musicistas e artistas, que a cada ano aparecem.  Com eles, continua o choro sonhador nas notas que solfejam; em lives que virão das alturas, que cantam tão simples, quanto, aos meus nove anos, cantava Lindu “Naquele São João”; e que, de tão intenso, ainda me lembro, apesar da distância e do tempo. Então, é só você chegar, se esquentar na fogueira, e todas as tristezas partirão em boa hora, retirantes, sem lugar indelével, que são. Aqui, no Aeroclube, do alto desse edifício, em voo livre no meu paraquedas imaginário, vou gritar mais uma vez: Viva São João!

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