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Magistrado, colaborador do Diário de Pernambuco, leitor semiótico, vivendo num mundo de discos, livros e livre pensar. E-mail: adhailton@globo.com

A velha companheira

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publicado em 11/06/2020 às 10h15
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Desde a adolescência até os dias atuais ela me acompanha. Hoje não mais com a rapidez e eficiência de outrora, gozando de merecida inatividade pelo muito que já fez durante os anos que pontuava absoluta em todas as repartições públicas, empresas e escritórios.

Quando meus dedos passaram a percorrer seu corpo – em princípio lentamente, tateando a formulação das palavras –, eu contava quatorze anos de idade e ela já era a preferida de todos, tagarelando tratados, atas, cartas, depoimentos, petições, romances, poesia e confissões.

Com ela cresci emocional e profissionalmente até o momento em que não foi mais possível continuarmos, lado a lado, na labuta diária e nos arroubos de poeta e prosador bissexto. Foi o avanço tecnológico que me conduziu a iniciar um novo namoro: troquei ela por ele. Calma, antes que meu nome vá parar em bocas de matildes, eu explico. Aposentei a minha querida máquina de escrever Olivetti Linea 98 e a substitui por um computador que, àquela época, sem utilizar a internet, tinha apenas a função de processador de textos.

Ela me fez lembrar um fato ocorrido com o escritor e jornalista Rui Castro que quase foi morto, quando criança, por uma máquina de escrever Royal, lançada pela janela espatifando-se no chão a apenas um palmo de onde ele estava, segurando a mão de seu pai. Era o fatídico dia 24 de agosto de 1954 e o dono da máquina de datilografia, embriagado e inconformado com a morte de Getúlio Vargas, estava destruindo tudo dentro do escritório. Mal sabia aquele menino sobrevivente que um dia iria ter muita intimidade com as letras, tanto da máquina quanto do nosso idioma, tornando-se um dos maiores biógrafos brasileiros.

Já a minha Olivetti repousa solene, pintada de dourado, em lugar de destaque no meu gabinete, lembrando-me o menino que fui e que ela ajudou a formar o homem que sou.

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