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Bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) pela Uninassau. Tem formação técnica em Rádio e TV pela FUNETEC, com atuação em veículos da Paraíba. Atua como colaborador em site de notícias nacional e também presta serviços de assessoria de comunicação.

Muito obrigado, Dom Aldo!

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publicado em 16/04/2020 às 06h15
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Mesmo desanimado e triste com a partida para a eternidade do nosso Arcebispo Emérito, busco no seu exemplo de escritor, a força para traçar algumas linhas para a coluna aqui no MaisPB. Dom Aldo di Cillo Pagotto tinha uma enorme capacidade de compreender a realidade social, além da sua vida religiosa de serviço ao povo paraibano.

A edição dominical do saudoso Correio da Paraíba, era recheada de colunas opinativas, dentre elas figurava o prestigiado espaço de Dom Aldo Pagotto. Recordo que bem mais jovem, incentivado por Antonio Nunes Filho, amigo do meu pai e da minha família, fazia a leitura semanal. Seu Antonio não escondia o entusiasmo e dizia que só era assinante do jornal por causa de Dom Aldo.

Através das mãos de Dom Aldo, assim como muitos jovens de João Pessoa e região, recebi o sacramento da Crisma no Santuário de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, no bairro de Tambauzinho. Inesquecível celebração presidida pelo arcebispo com o amigo Frei Gilvan Salviano, então guardião do Santuário. Recordo muito bem a orientação da equipe de catequistas, especialmente pela voz do amigo Flávio Wanderley: Cheguem cedo, pois Dom Aldo é pontual. O compromisso com a liturgia e zelo pela Santa Missa era algo marcante nele. Na Catedral, no Santuário dos Capuchinhos e no Grupamento de Engenheira na Missa de Natal, recordo belas as belas homilias.

Começo este parágrafo com os olhos cheios de lágrimas. Ô amigo Dom Aldo! Faça isso comigo não! Mas chorar é bom e alivia o coração. Vou seguir escrevendo, porque tenho um pouco mais para recordar. A Crisma foi para mim um momento de reencontro com a Fé. A partir daí nunca mais perdi uma missa dominical, muitas vezes deixada de lado pela preguiça etc. Hoje diante das medidas de isolamento social por conta do Coronavírus, sinto tanta saudade da Igreja e dos seus bancos de madeira. De tudo que envolve o sagrado. Logo isso tudo vai passar.

Falei acima sobre a inspiração nos escritos do nosso saudoso Dom Aldo, da sua presença junto do povo de Deus na Igreja Católica. Ele foi um guerreiro nas lutas em prol do bem comum. Era presença certa em todos os movimentos políticos justos, como na defesa da Transposição do Rio São Francisco, para trazer água para o povo do Nordeste Setentrional. Batendo de frente, inclusive, com colegas bispos da Bahia, por exemplo. Não posso olvidar da sua luta incessante pela vida desde a concepção, e pela preservação da Família.

Aldo era corajoso e nos inspirou. Sua pena de escritor não fraquejou diante das injustiças contra o nosso povo pobre e explorado. Não calou diante dos desmandos de corrupção que levaram o Brasil para as páginas policiais mundo afora. Foi às ruas de João Pessoa, envolvido com a bandeira nacional. Na posição de cidadão, não foi para o trio ou palanque fazer discurso. A sua participação junto das pessoas trazia o respaldo moral para o movimento. Pagou o preço mais à frente com duras retaliações.

Os ataques ardilosos começaram tímidos e logo ganharam a adesão de alguns por interesses diversos. Não vou discorrer mais sobre o tema, o momento é de homenagem. Deus sabe todas as coisas.

Recordo com carinho de uma missa celebrada por Dom Aldo após a renúncia, na Comunidade Católica Nossa Senhora Menina, ao lado do Espaço Cultural José Lins do Rêgo. Recebi um telefonema – não recordo agora se foi Igor ou Davi Aguiar – filhos de Eulina e André Aguiar, meus amigos queridos, para uma celebração na capela. Na ocasião, nosso amado pastor nos confortou com palavras de esperança e fé. No final nos despedimos com um abraço e ele disse-me: “Faça sempre o bem”. Aquilo me marcou profundamente.

Torcedor do Palmeiras, exímio sanfoneiro e de um humor refinado, Dom Aldo era o tipo que envolvia a todos numa boa conversa. Sabia ser firme quando necessário, mas sem perder a doçura da caridade.

Recordo a última celebração dele na qual participei, levada à cabo na Paróquia Santuário Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Tambiá. Ao lado do Padre Abel e do amigo Conêgo Marcelo Arruda, Dom Aldo estava mais uma vez no altar como o sacerdote e pai espiritual de muitos. Descendente de italianos, nascido no Estado de São Paulo, Aldo de Cillo Pagotto tinha a Paraíba no coração. Era nítida a sua alegria de viver na capital de todos os paraibanos.

Os fiéis católicos amavam Dom Aldo e a prova é um vídeo que circula atualmente nas redes sociais. Na primeira missa com o nosso querido Arcebispo Dom Manoel Delson, no ginásio O Ronaldão, Pagotto foi aplaudido e ovacionado. Estava ali, portanto, a retribuição do povo de Deus pelo labor incansável por mais de dez anos à frente da Arquidiocese da Paraíba.

Dom Aldo, do céu espero que possas ler estas linhas truncadas. Em nome de muitos deixo aqui o meu agradecimento por tudo que fizeste. Seu nome está marcado para sempre na história da nossa Santa Igreja Católica. Muito obrigado, Dom Aldo!

Ao meu leitor que chegou até aqui, agradeço pela paciência e peço perdão pela emoção em demasia. Compartilho o trecho de uma oração para que possamos refletir neste momento tão difícil para a humanidade. A ladainha da humildade atribuída ao Cardeal Merry del Val. Ela me faz lembrar a vida de Dom Aldo Pagotto. Deixa muita saudade!

“Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus…”

Descanse em paz, amigo do povo paraibano.

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