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Fundador do "O Rappa"

Corpo de Marcelo Yuka é enterrado no Rio

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publicado em 20/01/2019 às 14h59
atualizado em 20/01/2019 às 16h41
Foto: Matheus Rodrigues/G1

Foi enterrado no começo da tarde deste domingo (20) no Cemitério de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, o corpo do músico e compositor Marcelo Yuka. Parentes, amigos e fãs lotaram o local para prestar a última homenagem.

Pétalas de rosas foram lançadas sobre a sepultura tão logo o caixão foi depositado. Assim como ocorreu durante o velório do cantor, músicas d’O Rappa foram cantadas em coro durante a última despedida. A derradeira foi “Minha Alma”, um dos maiores sucessos da banda.

O pai de Marcelo Yuka, Djalma Santana, afirmou que o compositor era um filho maravilhoso e se importava com as causas sociais do país. Segundo ele, o filho tinha a preocupação de produzir obras que fossem duráveis e lembradas pela população.

“Marcelo era um filho maravilhoso, era um cara estudioso em tudo que ele fazia. Ele fazia as músicas pensando sempre em fazer algo que fosse durável e não descartável. Uma coisa que não fosse muito fácil para ganhar dinheiro, ele não teve aquele dinheiro que os grandes artistas tem, mas fez uma coisa que o povo tem uma tendência a lembrar mais. Ele ajudou a modificar comportamentos de muita gente, ajudou abrir a favela. Uma parte dele era preocupado com o social, o país e jovens. E a outra parte musical”, disse Djalma.

Yuka morreu na noite de sexta-feira (18), em decorrência de complicações provocadas por um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Seu corpo foi velado durante todo o sábado na Sala Cecília Meireles, na Lapa, Centro do Rio.

Foi no bairro de Campo Grande que nasceu Marcelo Yuka. Foi também lá onde ele aprendeu a tocar bateria, instrumento que iria comandar na banda O Rappa, da qual foi um dos fundadores.

Yuka morreu na noite de sexta-feira (18), em decorrência de complicações provocadas por um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Seu corpo foi velado durante todo o sábado na Sala Cecília Meireles, na Lapa, Centro do Rio.

Foi no bairro de Campo Grande que nasceu Marcelo Yuka. Foi também lá onde ele aprendeu a tocar bateria, instrumento que iria comandar na banda O Rappa, da qual foi um dos fundadores.

Foto: Matheus Rodrigues/G1

Luta pela vida

Marcelo Yuka morreu aos 53 anos, no Hospital Quinta D’or, em São Cristóvão, na Zona Norte.

O artista estava internado em estado grave com um quadro de infecção generalizada. O músico sofreu um acidente vascular-cerebral (AVC) no dia 2 de janeiro. No meio do ano passado, ele já havia tido outro AVC.

Em 2000, Yuka ficou paraplégico ao ser atingido por nove tiros durante um assalto a uma mulher na Tijuca, na Zona Norte do Rio.

Trajetória

Nascido no Rio de Janeiro em 1965, Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana, o Marcelo Yuka, foi um dos fundadores da banda O Rappa. No grupo, era o baterista e principal compositor até sua saída, em 2001.

Com a banda, chegou ao sucesso com o segundo disco, “Rappa Mundi”, em 1996. Em 2000, foi atingido por tiros ao tentar impedir um assalto e ficou paraplégico.

Yuka escreveu letras sobre temas como violência urbana, racismo e desigualdades sociais. “Minha alma (a paz que eu não quero)”, “Me deixa” e “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, por exemplo, foram escritas por ele.

Mesmo impossibilitado de tocar bateria, continuou na banda, lançando em 2001 o álbum “Instinto Coletivo”, gravado em show realizado antes do incidente.

No mesmo ano, Yuka deixou O Rappa e afirmou ter sido expulso pelos demais integrantes por não concordar com os rumos da banda.

Em 2004, fundou a banda F.ur.t.o (Frente Urbana de Trabalhos Organizados), parte de um projeto social que já existia na época de O Rappa.

Cinco anos depois, foi vítima de outro assalto e levou socos e pontapés de bandidos que tentavam levar seu carro.

O músico chegou a ficar sob as rodas do veículo e só não foi atropelado porque os assaltantes não conseguiram dar partida no veículo, adaptado para deficientes.

Em 2017, lançou seu primeiro álbum solo, “Canções para depois do ódio”, com uma sonoridade que mesclava batidas eletrônicas e ritmos afro, fruto da parceria com o produtor e DJ Apollo 9. Céu, Seu Jorge, Cibelle e Bukassa Kabengele participaram do disco.

Na política, foi filiado por oito anos ao PSOL e chegou a concorrer a vice-prefeito do Rio de Janeiro em uma chapa com Marcelo Freixo em 2012

A separação d’O Rappa

No documetário “Marcelo Yuka no caminho das setas”, de Daniela Broitman, lançado em 2012, os integrantes da banda explicam os motivos para o fim da parceria com o baterista. Um deles, segundo o vocalista Marcelo Falcão, seria o aprofundamento da relação do então colega com alguns movimentos sociais.

“O envolvimento do Yuka com os movimentos estava mais forte. Tinha a parada dele, do ativista, de querer ser o melhor para a galera e tal. Só que algumas bandeiras estavam usando ele.”

Ao ser questionado se não foram justamente essas bandeiras que fizeram o Rappa se transformar na banda que era, Falcão respondeu fazendo alusão a dois dos principais rappers americanos:

“Defendo todas elas sem me associar politicamente a nenhuma. Não vou botar boné. Vou botar boné da minha marca. Jay-Z fez isso. Puff Daddy fez isso. Caras bem-sucedidos. Hoje quem manda no mercado americano são os rappers. Os caras começaram a abrir a cabeça que não é só música – tudo vinga. A internet, tudo. E eu me abri para isso”.

No mesmo documentário, o próprio Yuka, até então principal compositor do grupo, disse que, em dado momento após ter sido baleado, a banda comunicou que as canções escritas por ele deveriam ocupar menos espaço nas gravações do Rappa.

“Fiquei magoado porque, naquele momento, as letras já eram um negócio que todos reconheciam como uma coisa importante. Mas tinha um lance de dinheiro porque a letra é 50% e eu trabalhava nas músicas, também. Então eu tinha 50% por lei da letra e mais uma porcentagem como músico. E isso sempre foi uma perturbação. Como a lei estava do meu lado, eu nunca me curvei. E vou te falar: depois de tudo o que aconteceu, vejo que se eu tivesse me curvado, eu estava f… Porque não se vive de direitos autorais, mas se eu não tivesse os direitos autorais, eu não teria vida há muito tempo”.

Ainda no documentário, Falcão respondeu:

“É até feio isso. Todos os caras que registram, eu acho isso feiaço. Ele sempre fez as letras, isso é inquestionável – o Yuka sempre fez as letras. As letras é que precisavam de um talento mesmo, de um carinho. Qual foram as outras bandas que conseguiram um desabafo cantado? Eu queria entender como é que, na cabeça dele, na hora de acontecer tudo, acontecia porque tinha um processo. E na hora do pronto, com o advanced – verba paga aos artistas pela gravadora de forma antecipada -, com o cheque em cima, o dinheiro era diferente”.

Foto: Raul Aragão/Grudaemmim/Rock in Rio

“Isso, de certa forma, fazia com que as pessoas se sentissem incomodadas, sabe? Essa divisão. ‘Pô, o cara ganha mais, eu ganho menos e tal’. Sabe? Direitos autorais”, relembrou o baixista Lauro faria no filme.

Além desses motivos, os outros dois integrantes do Rappa – Marcelo Lobato e Xandão – dizem na produção que Yuka se mostrava pouco disposto a ir ao estúdio para gravar um novo álbum. Segundo Lobato, a banda entrou em um limbo e a situação, ao longo do tempo, se mostrou insustentável.

“O disco não começou nunca. Chega uma hora que somos homens, somos pessoas, temos família. A gente não pode ficar aqui… Se o Yuka não quer estar com a gente, o que a gente pode fazer é continuar a nossa vida”, disse no documentário o guitarrista Xandão.

Em sua defesa, Yuka disse que não tinha condições físicas para se deslocar.

“E naquela situação, ninguém vinha, ninguém frequentava, ninguém queria saber, ninguém me ligava. Pensei: estou nessa situação e eu é que tenho que ir até eles?”

Segundo Falcão, os integrantes decidiram marcar uma reunião – nela, a saída de Yuka foi definida.

“Eu virei e falei: ‘Nunca mais canto uma música sua. Nenhuma’. E sei que talvez seja uma das maiores parcerias que deu certo da geração 90 foi eu e ele brincando”, relembrou Falcão.

“Eu acho que nós perdemos. O grupo perdeu e ele também perdeu, sabe? Porque um grupo é uma química. Um grupo você não encontra assim”, lamentou Lauro, no documentário.

G1

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